Vrias histrias, de Machado de Assis
Fonte:
ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro : Nova Aguilar 1994. v. II.
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VRIAS HISTRIAS
Machado de Assis
A Cartomante
Entre Santos
Uns Braos
Um Homem Clebre
A Desejada das Gentes
A Causa Secreta
Trio em L Menor
Ado e Eva
O Enfermeiro
O Diplomtico
Mariana
Conto de Escola
Um Aplogo
D. Paula
Viver!
O Cnego ou Metafsica do Estilo
A Cartomante
HAMLET observa a Horcio que h mais cousas no cu e na terra do que sonha a nossa
filosofia. Era a mesma explicao que dava a bela Rita ao moo Camilo, numa sextafeira
de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na vspera consultar uma
cartomante; a diferena  que o fazia por outras palavras.
 Ria, ria. Os homens so assim; no acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela
adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas
comeou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que
sim, e ento ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu
tinha medo de que voc me esquecesse, mas que no era verdade...
 Errou! interrompeu Camilo, rindo.
 No diga is so, Camilo. Se voc soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Voc
sabe; j lhe disse. No ria de mim, no ria...
Camilo pegou-lhe nas mos, e olhou para ela srio e fixo. Jurou que lhe queria muito,
que os seus sustos pareciam de criana; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a
melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente
andar por essas casas. Vilela podia sab-lo, e depois...
 Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
 Onde  a casa?
 Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; no passava ningum nessa ocasio. Descansa;
eu no sou maluca.
Camilo riu outra vez:
 Tu crs deveras nessas cousas? perguntou-lhe.
Foi ento que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita
cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele no acreditava, pacincia; mas o
certo  que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova  que ela agora estava
tranqila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. No queria arrancar-lhe as iluses. Tambm ele,
em criana, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a
me lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda
essa vegetao parasita, e ficou s o tronco da religio, ele, como tivesse recebido da
me ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dvida, e logo depois em uma s
negao total. Camilo no acreditava em nada. Por qu? No poderia diz-lo, no
possua um s argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar  ainda
afirmar, e ele no formulava a incredulidade; diante do mistrio, contentou-se em
levantar os ombros, e foi andando.
Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo,
no s o estava, mas via -a estremecer e arriscar-se por ele, correr s cartomantes, e, por
mais que a repreendesse, no podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro
era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu
pela Rua das Mangueiras, na direo de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da
Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.
Vilela, Camilo e Rita, trs nomes, uma aventura e nenhuma explicao das origens.
Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infncia. Vile la seguiu a carreira de
magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria v-lo
mdico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu no ser nada, at que a me lhe arranjou
um emprego pblico. No princpio de 1869, voltou Vilela da provncia, onde casara com
uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado.
Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo receb-lo.
  o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mo. No imagina como meu marido 
seu amigo, falava sempre do senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras.
Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela no desmentia as cartas
do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos clidos, boca fina e
interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e
nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia -o parecer mais
velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingnuo na vida moral e prtica. Faltavalhe
tanto a ao do tempo, como os culos de cristal, que a natureza pe no bero de
alguns para adiantar os anos. Nem experincia, nem intuio.
Uniram-se os trs. Convivncia trouxe intimidade. Pouco depois morreu a me de
Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela
cuidou do enterro, dos sufrgios e do inventrio; Rita tratou especialmente do corao, e
ningum o faria melhor.
Como da chegaram ao amor, no o soube ele nunca. A verdade  que gostava de passar
as horas ao lado dela, era a sua enfermeira moral, quase uma irm, mas principalmente
era mulher e bonita. Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para
incorpor-lo em si prprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios.
Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam s noites;  ela mal,  ele, para
lhe ser agradvel, pouco menos mal. At a as cousas. Agora a ao da pessoa, os olhos
teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o
fazer ao marido, as mos frias, as atitudes inslitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu
de Vilela uma rica bengala de presente e de Rita apenas um carto com um vulgar
cumprimento a lpis, e foi ento que ele pde ler no prprio corao, no conseguia
arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas h vulgaridades sublimes, ou,
pelo menos, deleitosas. A velha calea de praa, em que pela primeira vez passeaste
com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim  o homem,
assim so as cousas que o cercam.
Camilo quis sinceramente fugir, mas j no pde. Rita, como uma serpente, foi-se
acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o
veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos,
tudo sentiu de mistura, mas a batalha foi curta e a vitria delirante. Adeus, escrpulos!
No tardou que o sapato se acomodasse ao p, e a foram ambos, estrada fora, braos
dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais
que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiana e estima de
Vilela continuavam a ser as mesmas.
Um dia, porm, recebeu Camilo uma carta annima, que lhe chamava imoral e prfido,
e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as
suspeitas, comeou a rarear as visitas  casa de Vilela. Este notou-lhe as ausncias.
Camilo respondeu que o motivo era uma paixo frvola de rapaz. Candura gerou astcia.
As ausncias prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse
tambm nisso um pouco de amor-prprio, uma inteno de diminuir os obsquios do
marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.
Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu  cartomante para consultla
sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante
restituiu-lhe a confiana, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram
ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou trs cartas annimas, to
apaixonadas, que no podiam ser advertncia da virtude, mas despeito de algum
pretendente; tal foi a opinio de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou
este pensamento:  a virtude  preguiosa e avara, no gasta tempo nem papel; s o
interesse  ativo e prdigo.
Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o annimo fosse ter com Vilela, e
a catstrofe viria ento sem remdio. Rita concordou que era possvel.
 Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das cartas que l
aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a...
Nenhuma apareceu; mas da a algum tempo Vilela comeou a mostrar-se sombrio,
falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em diz-lo ao outro, e sobre isso
deliberaram. A opinio dela  que Camilo devia tornar  casa deles, tatear o marido, e
pode ser at que lhe ouvisse a confidncia de algum negcio particular. Camilo
divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denncia. Mais
valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se
corresponderem , em caso de necessidade, e separaram-se com lgrimas.
No dia seguinte, estando na repartio, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem j,
j,  nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo;
na rua, advertiu que teria sido mais natural cham-lo ao escritrio; por que em casa?
Tudo indicava matria especial, e a letra, fosse realidade ou iluso, afigurou-se-lhe
trmula. Ele combinou todas essas cousas com a notcia da vspera.
 Vem j, j,  nossa casa; preciso falar-te sem demora,  repetia ele com os olhos no
papel.
Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela
indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e
esperando-o para mat-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em
todo caso repugnava-lhe a idia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir
a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. No achou nada, nem
ningum. Voltou  rua, e a idia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais
verossmil; era natural uma denncia annima, at da prpria pessoa que o ameaara
antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspenso das suas visitas,
sem motivo aparente, apenas com um pretexto ftil, viria confirmar o resto.
Camilo ia andando inquieto e nervoso. No relia o bilhete, mas as palavras estavam
decoradas, diante dos olhos, fixas, ou ento,  o que era ainda pior,  eram-lhe
murmuradas ao ouvido, com a prpria voz de Vilela. "Vem j, j,  nossa casa; preciso
falar-te sem demora." Ditas assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistrio e
ameaa. Vem, j, j, para qu? Era perto de uma hora da tarde. A comoo crescia de
minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a cr-lo e v-lo.
Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada
houvesse, nada perdia, e a precauo era til. Logo depois rejeitava a idia, vexado de si
mesmo, e seguia, picando o passo, na direo do Largo da Carioca, para entrar num
tlburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.
"Quanto antes, melhor, pensou ele; no posso estar assim..."
Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoo. O tempo voava, e ele no
tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda Velha, o tlburi teve de
parar, a rua estava atravancada com uma carroa, que cara. Camilo, em si mesmo,
estimou o obstculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, 
esquerda, ao p do tlburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez,
e nunca ele desejou tanto crer na lio das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas,
quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dirse-
ia a morada do indiferente Destino.
Camilo reclinou-se no tlburi, para no ver nada. A agitao dele era grande,
extraordinria, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro
tempo, as velhas crenas, as supersties antigas. O cocheiro props-lhe voltar 
primeira travessa, e ir por outro caminho: ele respondeu que no, que esperasse. E
inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrdulo: era a idia de ouvir a
cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas;
desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no crebro; mas da a pouco moveu outra
vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concntricos... Na rua, gritavam os homens,
safando a carroa:
 Anda! agora! empurra! v! v!
Da a pouco estaria removido o obstculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras
cousas: mas a voz do marido sussurrava-lhe a orelhas as palavras da carta: "Vem, j,
j..." E ele via as contores do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas
queriam descer e entrar . Camilo achou-se diante de um longo vu opaco... pensou
rapidamente no inexplicvel de tantas cousas. A voz da me repetia-lhe uma poro de
casos extraordinrios: e a mesma frase do prncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro:
"H mais cousas no cu e na terra do que sonha a filosofia... " Que perdia ele, se... ?
Deu por si na calada, ao p da porta: disse ao cocheiro que esperasse, e rpido enfiou
pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos ps, o
corrimo pegajoso; mas ele no, viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. No aparecendo
ningum, teve idia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as
fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, trs pancadas. Veio uma mulher; era
a cartomante. Camilo disse que ia consult-la, ela f-lo entrar. Dali subiram ao sto,
por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha,
mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes,
paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destrua o prestgio.
A cartomante f-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas
para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo.
Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as
baralhava, rapidamente, olhava para ele, no de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma
mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos.
Voltou trs cartas sobre a mesa, e disse-lhe:
 Vejamos primeiro o que  que o traz aqui. O senhor tem um grande susto...
Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.
 E quer saber, continuou ela, se lhe acontecer alguma cousa ou no...
 A mim e a ela, explicou vivamente ele.
A cartomante no sorriu: disse-lhe s que esperasse. Rpido pegou outra vez das cartas
e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem,
transps os maos, uma, duas. trs vezes; depois comeou a estend-las. Camilo tinha
os olhos nela. curioso e ansioso.
 As cartas dizem-me...
Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Ento ela declarou-lhe que no
tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava
tudo. No obstante, era indispensvel muita cautela: ferviam invejas e despeitos. Faloulhe
do amor que os ligava, da beleza de Rita. . . Camilo estava deslumbrado. A
cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.
 A senhora restituiu-me a paz ao esprito, disse ele estendendo a mo por cima da
mesa e apertando a da cartomante.
Esta levantou-se, rindo.
 V, disse ela; v, ragazzo innamorato...
E de p, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse a
mo da prpria sibila, e levantou-se tambm. A cartomante foi  cmoda, sobre a qual
estava um prato com passas, tirou um cacho destas, comeou a despenc-las e com-las,
mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ao comum,
a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, no sabia como pagasse;
ignorava o preo.
 Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar
buscar?
 Pergunte ao seu corao, respondeu ela.
Camilo tirou uma nota de dez mil-ris, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O
preo usual era dois mil-ris.
 Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. V,
v, tranqilo. Olhe a escada,  escura; ponha o chapu...
A cartomante tinha j guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um
leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava  rua,
enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola.
Camilo achou o tlburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.
Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o cu estava
lmpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou
os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram ntimos e familiares. Onde  que ele
lhe descobrira a ameaa? Advertiu tambm que eram urgentes, e que fizera mal em
demorar-se tanto; podia ser algum negcio grave e gravssimo.
 Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.
E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa; parece que
formou tambm o plano de aproveitar o incidente para tornar  antiga assiduidade... De
volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela
adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existncia de um terceiro; por que no
adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e
contnuas, que as velhas crenas do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistrio
empolgava-o com as unhas de ferro. s vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado;
mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortao:  V, v, ragazzo
innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os
elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma f nova e vivaz.
A verdade  que o corao ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora
e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glria, Camilo olhou para o mar, estendeu os
olhos para fora, at onde a gua e o cu do um abrao infinito, e teve assim uma
sensao do futuro, longo, longo, interminvel.
Da a pouco chegou  casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e
entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de
bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.
 Desculpa, no pude vir mais cedo; que h?
Vilela no lhe respondeu; tinha as feies decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma
saleta interior. Entrando, Camilo no pde sufocar um grito de terror:  ao fundo sobre
o canap, estava Rita morta e ensangentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros
de revlver, estirou-o morto no cho.
Entre Santos
QUANDO EU ERA capelo de S. Francisco de Paula (contava um padre velho)
aconteceu-me uma aventura extraordinria.
Morava ao p da igreja, e recolhi-me tarde, uma noite. Nunca me recolhi tarde que no
fosse ver primeiro se as portas do templo estavam bem fechadas. Achei-as bem
fechadas, mas lobriguei luz por baixo delas. Corri assustado  procura da ronda; no a
achei, tornei atrs e fiquei no adro, sem saber que fizesse. A luz, sem ser muito intensa,
era-o demais para ladres; alm disso notei que era fixa e igual, no andava de um lado
para outro, como seria a das velas ou lanternas de pessoas que estivessem roubando. O
mistrio arrastou-me; fui a casa buscar as chaves da sacristia (o sacristo tinha ido
passar a noite em Niteri), benzi-me primeiro, abri a porta e entrei.
O corredor estava escuro. Levava comigo uma lanterna e caminhava devagarinho,
calando o mais que podia o rumor dos sapatos. A primeira e a segunda porta que
comunicam com a igreja estavam fechadas; mas via-se a mesma luz e, porventura, mais
intensa que do lado da rua. Fui andando, at que dei com a terceira porta aberta. Pus a
um canto a lanterna, com o meu leno por cima, para que me no vissem de dentro, e
aproximei-me a espiar o que era.
Detive-me logo. Com efeito, s ento adverti que viera inteiramente desarmado e que ia
correr grande risco aparecendo na igreja sem mais defesa que as duas mos. Correram
ainda alguns minutos. Na igreja a luz era a mesma, igual e geral, e de uma cor de leite
que no tinha a luz das velas. Ouvi tambm vozes, que ainda mais me atrapalharam, no
cochichadas nem confusas, mas regulares, claras e tranqilas,  maneira de conversao.
No pude entender logo o que diziam. No meio disto, assaltou-me uma idia que me fez
recuar. Como naquele tempo os cadveres eram sepultados nas igrejas, imaginei que a
conversao podia ser de defuntos. Recuei espavorido, e s passado algum tempo,  que
pude reagir e chegar outra vez  porta, dizendo a mim mesmo que semelhante idia era
um disparate. A realidade ia dar-me cousa mais assombrosa que um dilogo de mortos.
Encomendei-me a Deus, benzi-me outra vez e fui andando, sorrateiramente,
encostadinho  parede, at entrar. Vi ento uma cousa extraordinria.
Dois dos trs santos do outro lado, S. Jos e S. Miguel ( direita de quem entra na igreja
pela porta da frente), tinham descido dos nichos e estavam sentados nos seus altares. As
dimenses no eram as das prprias imagens, mas de homens. Falavam para o lado de
c, onde esto os altares de S. Joo Batista e S. Francisco de Sales. No posso descrever
o que senti. Durante algum tempo, que no chego a calcular, fiquei sem ir para diante
nem para trs, arrepiado e trmulo. Com certeza, andei beirando o abismo da loucura, e
no ca nele por misericrdia divina. Que perdi a conscincia de mim mesmo e de toda
outra realidade que no fosse aquela, to nova e to nica, posso afirm-lo; s assim se
explica a temeridade corn
que, dali a algum tempo, entrei mais pela igreja, a fim de olhar tambm para o lado
oposto. Vi a a mesma cousa: S. Francisco de Sales e S. Joo, descidos dos nichos,
sentados nos altares e falando com os outros santos.
Tinha sido tal a minha estupefao que eles continuaram a falar, creio eu, sem que eu
sequer ouvisse o rumor das vozes. Pouco a pouco, adquiri a percepo delas e pude
compreender que no tinham interrompido a conversao; distingui-as, ouvi claramente
as palavras, mas no pude colher desde logo o sentido. Um dos santos, falando para o
lado do altar-mor, fez-me voltar a cabea, e vi ento que S. Francisco de Paula, o orago
da igreja, fizera a mesma cousa que os outros e falava para eles, como eles falavam
entre si. As vozes no subiam do tom mdio e, contudo, ouviam-se bem, como se as
ondas sonoras tivessem recebido um poder maior de transmisso. Mas, se tudo isso era
espantoso, no menos o era a luz, que no vinha de parte nenhuma, porque o lustres e
castiais estavam todos apagados; era como um luar, que ali penetrasse, sem que os
olhos pudessem ver a lua; comparao tanto mais exata quanto que, se fosse realmente
luar, teria deixado alguns lugares escuros, como ali acontecia, e foi num desses recantos
que me refugiei.
J ento procedia automaticamente. A vida que vivi durante esse tempo todo, no se
pareceu com a outra vida anterior e posterior. Basta considerar que, diante de to
estranho espetculo, fiquei absolutamente sem medo; perdi a reflexo, apenas sabia
ouvir e contemplar.
Compreendi, no fim de alguns instantes, que eles inventariavam e comentavam as
oraes e imploraes daquele dia. Cada um notava alguma cousa. Todos eles, terrveis
psiclogos, tinham penetrado a alma e a vida dos fiis, e desfibravam os sentimentos de
cada um, como os anatomistas escalpelam um cadver. S. Joo Batista e S. Francisco de
Paula, duros ascetas, mostravam-se s vezes enfadados e absolutos. No era assim S.
Francisco de Sales; esse ouvia ou contava as cousas com a mesma indulgncia que
presidira ao seu famoso livro da Introduo  Vida Devota.
Era assim, segundo o temperamento de cada um, que eles iam narrando e comentando.
Tinham j contado casos de f sincera e castia, outros de indiferena, dissimulao e
versatilidade; os dois ascetas estavam a mais e mais anojados, mas S. Francisco de Sales
recordava-lhes o texto da Escritura: muitos so os chamados e poucos os escolhidos,
significando assim que nem todos os que ali iam  igreja levavam o corao puro. S.
Joo abanava a cabea.
 Francisco de Sales, digo-te que vou criando um sentimento singular em santo:
comeo a descrer dos homens.
 Exageras tudo, Joo Batista, atalhou o santo bispo, no exageremos nada. Olha 
ainda hoje aconteceu aqui uma cousa que me fez sorrir, e pode ser, entretanto, que te
indignasse. Os homens no so piores do que eram em outros sculos; descontemos o
que h neles ruim, e ficar muita cousa boa. Cr isto e hs de sorrir ouvindo o meu caso.
 Eu?
 Tu, Joo Batista, e tu tambm, Francisco de Paula, e todos vs haveis de sorrir
comigo: e, pela minha parte, posso faz-lo, pois j entercedi e alcancei do Senhor aquilo
mesmo que me veio pedir esta pessoa.
 Que pessoa?
 Uma pessoa mais interessante que o teu escrivo, Jos, e que o teu lojista, Miguel...
 Pode ser, atalhou S. Jos, mas no h de ser mais interessante que a adltera que aqui
veio hoje prostrar-se a meus ps. Vinha pedir-me que lhe limpasse o corao da lepra da
luxria. Brigara ontem mesmo com o namorado, que a injuriou torpemente, e passou a
noite em lgrimas. De manh, determinou abandon-lo e veio buscar aqui a fora
precisa para sair das garras do demnio. Comeou rezando bem, cordialmente; mas
pouco a pouco vi que o pensamento a ia deixando para remontar aos primeiros deleites.
As palavras paralelamente, iam ficando sem vida. J a orao era morna, depois fria,
depois inconsciente; os lbios, afeitos  reza, iam rezando; mas a alma, que eu espiava
c de cima, essa j no estava aqui, estava com o outro. Afinal persignou-se, levantou-se
e saiu sem pedir nada.
 Melhor  o meu caso.
 Melhor que isto? perguntou S. Jos curioso.
 Muito melhor, respondeu S. Francisco de Sales, e no  triste como o dessa pobre
alma ferida do mal da terra, que a graa do Senhor ainda pode salvar. E por que no
salvar tambm a esta outra? L vai o que .
Calaram-se todos, inclinaram-se os bustos, atentos, esperando. Aqui fiquei com medo;
lembrou-me que eles, que vem tudo o que se passa no interior da gente, como se
fssemos de vidro, pensamentos recnditos, intenes torcidas, dios secretos, bem
podiam ter-me lido j algum pecado ou grmen de pecado. Mas no tive tempo de
refletir muito; S. Francisco de Sales comeou a falar.
 Tem cinqenta anos o meu homem, disse ele, a mulher est de cama, doente de uma
erisipela na perna esquerda. H cinco dias vive aflito porque o mal agrava-se e a cincia
no responde pela cura. Vede, porm, at onde pode ir um preconceito pblico.
Ningum acredita na dor do Sales (ele tem o meu nome), ningum acredita que ele ame
outra cousa que no seja dinheiro, e logo que houve notcia da sua aflio desabou em
todo o bairro um aguaceiro de motes e dichotes; nem faltou quem acreditasse que ele
gemia antecipadamente pelos gastos da sepultura.
 Bem podia ser que sim, ponderou S. Joo.
 Mas no era. Que ele  usurrio e avaro no o nego; usurrio, como a vida, e avaro,
como a morte. Ningum extraiu nunca to implacavelmente da algibeira dos outros o
ouro, a prata, o papel e o cobre; ningum os amuou com mais zelo e prontido. Moeda
que lhe cai na mo dificilmente torna a sair; e tudo o que lhe sobra das casas mora
dentro de um armrio de ferro, fechado a sete chaves. Abre-o s vezes, por horas
mortas, contempla o dinheiro alguns minutos, e fecha-o outra vez depressa; mas nessas
noites no dorme, ou dorme mal. No tem filhos. A vida que leva  srdida; come para
no morrer, pouco e ruim. A famlia compe-se da mulher e de uma preta escrava,
comprada com outra, h muitos anos, e s escondidas, Por serem de contrabando.
Dizem at que nem as pagou, porque o vendedor faleceu logo sem deixar nada escrito.
A outra preta morreu h pouco tempo; e aqui vereis se este homem tem ou no o gnio
da economia, Sales libertou o cadver...
E o santo bispo calou-se para saborear o espanto dos outros.
 O cadver?
 Sim, o cadver. Fez enterrar a escrava como pessoa livre e miservel, para no acudir
s despesas da sepultura. Pouco embora, era alguma cousa. E para ele no h pouco;
com pingos d'gua  que se alagam as ruas. Nenhum desejo de representao, nenhum
gosto nobilirio; tudo isso custa dinheiro, e ele diz que o dinheiro no lhe cai do cu.
Pouca sociedade, nenhuma recreao de famlia. Ouve e conta anedotas da vida alheia,
que  regalo gratuito.
 Compreende-se a incredulidade pblica, ponderou S. Miguel.
 No digo que no, porque o mundo no vai alm da superfcie das cousas. O mundo
no v que, alm de caseira eminente educada por ele, e sua confidente de mais de vinte
anos, a mulher deste Sales  amada deveras pelo marido. No te espantes, Miguel;
naquele muro asprrimo brotou uma flor descorada e sem cheiro mas flor. A botnica
sentimental tem dessas anomalias. Sales ama a esposa; est abatido e desvairado com a
idia de a perder. Hoje de manh, muito cedo, no tendo dormido mais de duas horas
entrou a cogitar no desastre prximo. Desesperando da terra, voltou-se para Deus;
pensou em ns, e especialmente em mim que sou o santo do seu nome. S um milagre
podia salv-la; determinou vir aqui. Mora perto, e veio correndo. Quando entrou trazia o
olhar brilhante e esperanado; podia ser a luz da f, mas era outra cousa muito
particular, que vou dizer. Aqui peo-vos que redobreis de ateno.
Vi os bustos inclinarem-se ainda mais; eu prprio no pude esquivar-me ao movimento
e dei um passo para diante. A narrao do santo foi to longa e mida, a anlise to
complicada, que no as ponho aqui integralmente, mas em substncia.
 Quando pensou em vir pedir-me que intercedesse pela vida da esposa, Sales teve
uma idia especfica de usurrio, a de prometer-me uma perna de cera. No foi o crente,
que simboliza desta maneira a lembrana do benefcio; foi o usurrio que pensou em
forar a graa divina pela expectao do lucro. E no foi s a usura que falou, mas
tambm a avareza; porque em verdade, dispondo-se  promessa, mostrava ele querer
deveras a vida da mulher  intuio de avaro;  despender  documentar: s se quer
de corao aquilo que se paga a dinheiro, disse-lho a conscincia pela mesma boca
escura. Sabeis que pensamentos tais no se formulam como outros, nascem das
entranhas do carter e ficam na penumbra da conscincia. Mas eu li tudo nele logo que
aqui entrou alvoroado, com o olhar flgido de esperana; li tudo e esperei que acabasse
de benzer-se e rezar.
 Ao menos, tem alguma religio, ponderou S. Jos.
 Alguma tem, rnas vaga e econmica. No entrou nunca ern irmandades e ordens
terceiras, porque nelas se rouba o que pertence ao Senhor;  o que ele diz para conciliar
a devoo com a algibeira. Mas no se pode ter tudo;  certo que ele teme a Deus e cr
na doutrina.
 Bem, ajoelhou-se e rezou.
 Rezou. Enquanto rezava, via eu a pobre alma, que padecia deveras, conquanto a
esperana comeasse a trocar -se em certeza intuitiva. Deus tinha de salvar a doente, por
fora, graas  minha interveno, e eu ia interceder;  o que ele pensava, enquanto os
lbios repetiam as palavras da orao. Acabando a orao, ficou Sales algum tempo
olhando, com as mos postas; afinal falou a boca do homem, falou para confessar a dor,
para jurar que nenhuma outra mo, alm da do Senhor, podia atalhar o golpe. A mulher
ia morrer... ia morrer... ia morrer... E repetia a palavra, sem sair dela. A mulher ia
morrer. No passava adiante. Prestes a formular o pedido e a promessa no achava
palavras idneas, nem aproximativas, nem sequer dbias, no achava nada, to longo
era o descostume de dar alguma cousa. Afinal saiu o pedido; a mulher ia morrer, ele
rogava-me que a salvasse, que pedisse por ela ao Senhor. A promessa, porm,  que no
acabava de sair. No momento em que a boca ia articular a primeira palavra, a garra da
avareza mordia-lhe as entranhas e no deixava sair nada. Que a salvasse... que
intercedesse por ela...
No ar, diante dos olhos, recortava-se-lhe a perna de cera, e logo a moeda que ela havia
de custar. A perna desapareceu, mas ficou a moeda, redonda, luzidia, amarela, ouro
puro, completamente ouro, melhor que o dos castiais do meu altar, apenas dourados.
Para onde quer que virasse os olhos, via a moeda, girando, girando, girando. E os olhos
a apalpavam, de longe, e transmitiam-lhe a sensao fria do metal e at a do relevo do
cunho. Era ela mesma, velha amiga de longos anos, companheira do dia e da noite, era
ela que ali estava no ar, girando, s tontas; era ela que descia do tecto, ou subia do cho,
ou rolava no altar, indo da Epstola ao Evangelho, ou tilintava nos pingentes do lustre.
Agora a splica dos olhos e a melancolia deles eram mais intensas e puramente
voluntrias. Vi-os alongarem-se para mim, cheios de contrio, de humilhao, de
desamparo; e a boca ia dizendo algumas cousas soltas,  Deus,  os anjos do Senhor,
 as bentas chagas,  palavras lacrimosas e trmulas, como para pintar por elas a
sinceridade da f e a imensidade da dor. S a promessa da perna  que no saa. s
vezes, a alma, como pessoa que recolhe as foras, a fim de saltar um valo, fitava
longamente a morte da mulher e rebolcava-se no desespero que ela lhe havia de trazer;
mas,  beira do valo, quando ia a dar o salto, recuava. A moeda emergia dele e a
promessa ficava no corao do homem.
O tempo ia passando. A alucinao crescia, porque a moeda, acelerando e multiplicando
os saltos, multiplicava-se a si mesma e parecia uma infinidade delas; e o conflito era
cada vez mais trgico. De repente, o receio de que a mulher podia estar expirando, gelou
o sangue ao pobre homem e ele quis precipitar-se. Podia estar expirando. Pedia-me que
intercedesse por ela, que a salvasse...
Aqui o demnio da avareza sugeria-lhe uma transao nova, uma troca de espcie
dizendo-lhe que o valor da orao era superfino e muito mais excelso que o das obras
terrenas. E o Sales, curvo, contrito, com as mos postas, o olhar submisso,
desamparado, resignado, pedia-me que lhe salvasse a mulher. Que lhe salvasse a
mulher, e prometia-me trezentos,  no menos,  trezentos padre-nossos e trezentas
ave-marias. E repetia enftico: trezentos, trezentas, trezentos... Foi subindo, chegou a
quinhentos, a mil padre-nossos e mil ave-marias. No via esta soma escrita por letras do
alfabeto, mas em algarismos, como se ficasse assim mais viva, mais exata, e a obrigao
maior, e maior tambm a seduo. Mil padre-nossos, mil ave-marias. E voltaram as
palavras lacrimosas e trmulas, as bentas chagas, os anjos do Senhor... 1.000  1.000
 1.000. Os quatro algarismos foram crescendo tanto, que encheram a igreja de alto a
baixo, e com eles, crescia o esforo do homem, e a confiana tambm; a palavra saa-lhe
mais rpida, impetuosa, j falada, mil, mil, mil, mil ... Vamos l, podeis rir  vontade,
concluiu S. Francisco de Sales.
E os outros santos riram efetivamente, no daquele grande riso descomposto dos deuses
de Homero, quando viram o coxo Vulcano servir  mesa, mas de um riso modesto,
tranqilo, beato e catlico.
Depois, no pude ouvir mais nada. Ca redondamente no cho. Quando dei por mim era
dia claro. .. Corri a abrir todas as portas e janelas da igreja e da sacristia, para deixar
entrar o sol, inimigo dos maus sonhos.
Uns Braos
INCIO ESTREMECEU, ouvindo os gritos do solicitador, recebeu o prato que este lhe
apresentava e tratou de comer, debaixo de uma trovoada de nomes, malandro, cabea de
vento, estpido, maluco.
 Onde anda que nunca ouve o que lhe digo? Hei de contar tudo a seu pai, para que lhe
sacuda a preguia do corpo com uma boa vara de marmelo, ou um pau; sim, ainda pode
apanhar, no pense que no. Estpido! maluco!
 Olhe que l fora  isto mesmo que voc v aqui, continuou, voltando-se para D.
Severina, senhora que vivia com ele maritalmente, h anos. Confunde-me os papis
todos, erra as casas, vai a um escrivo em vez de ir a outro, troca os advogados:  o
diabo!  o tal sono pesado e contnuo. De manh  o que se v; primeiro que acorde 
preciso quebrar-lhe os ossos.. . Deixe; amanh hei de acord-lo a pau de vassoura!
D. Severina tocou-lhe no p, como pedindo que acabasse. Borges espeitorou ainda
alguns improprios, e ficou em paz com Deus e os homens.
No digo que ficou em paz com os meninos, porque o nosso Incio no era
propriamente menino. Tinha quinze anos feitos e bem feitos. Cabea inculta, mas bela,
olhos de rapaz que sonha, que adivinha, que indaga, que quer saber e no acaba de saber
nada. Tudo isso posto sobre um corpo no destitudo de graa, ainda que mal vestido. O
pai  barbeiro na Cidade Nova, e p-lo de agente, escrevente, ou que quer que era, do
solicitador Borges, com esperana de v-lo no foro, porque lhe parecia que os
procuradores de causas ganhavam muito. Passava-se isto na Rua da Lapa, em 1870.
Durante alguns minutos no se ouviu mais que o tinir dos talheres e o rudo da
mastigao. Borges abarrotava-se de alface e vaca; interrompia -se para virgular a orao
com um golpe de vinho e continuava logo calado.
Incio ia comendo devagarinho, no ousando levantar os olhos do prato, nem para
coloc-los onde eles estavam no momento em que o terrvel Borges o descomps.
Verdade  que seria agora muito arriscado. Nunca ele ps os olhos nos braos de D.
Severina que se no esquecesse de si e de tudo.
Tambm a culpa era antes de D. Severina em traz-los assim nus, constantemente.
Usava mangas curtas em todos os vestidos de casa, meio palmo abaixo do ombro; dali
em diante ficavam-lhe os braos  mostra. Na verdade, eram belos e cheios, em
harmonia com a dona, que era antes grossa que fina, e no perdiam a cor nem a maciez
por viverem ao ar; mas  justo explicar que ela os no trazia assim por faceira, seno
porque j gastara todos os vestidos de mangas compridas. De p, era muito vistosa;
andando, tinha meneios engraados; ele, entretanto, quase que s a via  mesa, onde,
alm dos braos, mal poderia mirar-lhe o busto. No se pode dizer que era bonita; mas
tambm no era feia. Nenhum adorno; o prprio penteado consta de mui pouco; alisou
os cabelos, apanhou-os, atou-os e fixou-os no alto da cabea com o pente de tartaruga
que a me lhe deixou. Ao pescoo, um leno escuro, nas orelhas, nada. Tudo isso com
vinte e sete anos floridos e slidos.
Acabaram de jantar. Borges, vindo o caf, tirou quatro charutos da algibeira, comparouos,
apertou-os entre os dedos, escolheu um e guardou os restantes. Aceso o charuto,
fincou os cotovelos na mesa e falou a D. Severina de trinta mil cousas que no
interessavam nada ao nosso Incio; mas enquanto falava, no o descompunha e ele
podia devanear  larga.
Incio demorou o caf o mais que pde. Entre um e outro gole alisava a toalha,
arrancava dos dedos pedacinhos de pele imaginrios ou passava os olhos pelos quadros
da sala de jantar, que eram dous, um S. Pedro e um S. Joo, registros trazidos de festas
encaixilhados em casa. V que disfarasse com S. Joo, cuja cabea moa alegra as
imaginaes catlicas, mas com o austero S. Pedr o era demais. A nica defesa do moo
Incio  que ele no via nem um nem outro; passava os olhos por ali como por nada.
Via s os braos de D. Severina,  ou porque sorrateiramente olhasse para eles, ou
porque andasse com eles impressos na memria.
 Homem, voc no acaba mais? bradou de repente o solicitador.
No havia remdio; Incio bebeu a ltima gota, j fria, e retirou-se, como de costume,
para o seu quarto, nos fundos da casa. Entrando, fez um gesto de zanga e desespero e foi
depois encostar-se a uma das duas janelas que davam para o mar. Cinco minutos depois,
a vista das guas prximas e das montanhas ao longe restitua-lhe o sentimento confuso,
vago, inquieto, que lhe doa e fazia bem, alguma cousa que deve sentir a planta, quando
abotoa a primeira flor. Tinha vontade de ir embora e de ficar. Havia cinco semanas que
ali morava, e a vida era sempre a mesma, sair de manh com o Borges, andar por
audincias e cartrios, correndo, levando papis ao selo, ao distribuidor, aos escrives,
aos oficiais de justia. Voltava  tarde jantava e recolhia-se ao quarto, at a hora da ceia;
ceava e ia dormir. Borges no lhe dava intimidade na famlia, que se compunha apenas
de D. Severina, nem Incio a via mais de trs vezes por dia, durante as refeies. Cinco
semanas de solido, de trabalho sem gosto, longe da me e das irms; cinco semanas de
silncio, porque ele s falava uma ou outra vez na rua; em casa, nada.
"Deixe estar,  pensou ele um dia  fujo daqui e no volto mais."
No foi; sentiu-se agarrado e acorrentado pelos braos de D. Severina. Nunca vira
outros to bonitos e to frescos. A educao que tivera no lhe permitia encar-los logo
abertamente, parece at que a princpio afastava os olhos, vexado. Encarou-os pouco a
pouco, ao ver que eles no tinham outras mangas, e assim os foi descobrindo, mirando e
amando. No fim de trs semanas eram eles, moralmente falando, as suas tendas de
repouso. Agentava toda a trabalheira de fora toda a melancolia da solido e do silncio,
toda a grosseria do patro, pela nica paga de ver, trs vezes por dia, o famoso par de
braos.
Naquele dia, enquanto a noite ia caindo e Incio estirava-se na rede (no tinha ali outra
cama), D. Severina, na sala da frente, recapitulava o episdio do jantar e, pela primeira
vez, desconfiou alguma cousa Rejeitou a idia logo, uma criana! Mas h idias que so
da famlia das moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas tornam e pousam.
Criana? Tinha quinze anos; e ela advertiu que entre o nariz e a boca do rapaz havia um
princpio de rascunho de buo. Que admira que comeasse a amar? E no era ela
bonita? Esta outra idia no foi rejeitada, antes afagada e beijada. E recordou ento os
modos dele, os esquecimentos, as distraes, e mais um incidente, e mais outro, tudo
eram sintomas, e concluiu que sim.
 Que  que voc tem? disse-lhe o solicitador, estirado no canap, ao cabo de alguns
minutos de pausa.
 No tenho nada.
 Nada? Parece que c em casa anda tudo dormindo! Deixem estar, que eu sei de um
bom remdio para tirar o sono aos dorminhocos . . .
E foi por ali, no mesmo tom zangado, fuzilando ameaas, mas realmente incapaz de as
cumprir, pois era antes grosseiro que mau. D. Severina interrompia-o que no, que era
engano, no estava dormindo, estava pensando na comadre Fortunata. No a visitavam
desde o Natal; por que no iriam l uma daquelas noites? Borges redargia que andava
cansado, trabalhava como um negro, no estava para visitas de parola, e descomps a
comadre, descomps o compadre, descomps o afilhado, que no ia ao colgio, com dez
anos! Ele, Borges, com dez anos, j sabia ler, escrever e contar, no muito bem,  certo,
mas sabia. Dez anos! Havia de ter um bonito fim:  vadio, e o covado e meio nas
costas. A tarimba  que viria ensin-lo.
D. Severina apaziguava-o com desculpas, a pobreza da comadre, o caiporismo do
compadre, e fazia -lhe carinhos, a medo, que eles podiam irrit-lo mais. A noite cara de
todo; ela ouviu o tlic do lampio do gs da rua, que acabavam de acender, e viu o claro
dele nas janelas da casa fronteira. Borges, cansado do dia, pois era realmente um
trabalhador de primeira ordem, foi fechando os olhos e pegando no sono, e deixou-a s
na sala, s escuras, consigo e com a descoberta que acaba de fazer.
Tudo parecia dizer  dama que era verdade; mas essa verdade, desfeita a impresso do
assombro, trouxe-lhe uma complicao moral que ela s conheceu pelos efeitos, no
achando meio de discernir o que era. No podia entender-se nem equilibrar-se, chegou a
pensar em dizer tudo ao solicitador, e ele que mandasse embora o fedelho. Mas que era
tudo? Aqui estacou: realmente, no havia mais que suposio, coincidncia e
possivelmente iluso. No, no, iluso no era. E logo recolhia os indcios vagos, as
atitudes do mocinho, o acanhamento, as distraes, para rejeitar a idia de estar
enganada. Da a pouco, (capciosa natureza!) refletindo que seria mau acus-lo sem
fundamento, admitiu que se iludisse, para o nico fim de observ-lo melhor e averiguar
bem a realidade das cousas.
J nessa noite, D. Severina mirava por baixo dos olhos os gestos de Incio; no chegou
a achar nada, porque o tempo do ch era curto e o rapazinho no tirou os olhos da
xcara. No dia seguinte pde observar melhor, e nos outros otimamente. Percebeu que
sim, que era amada e temida, amor adolescente e virgem, retido pelos liames sociais e
por um sentimento de inferioridade que o impedia de reconhecer-se a si mesmo. D.
Severina compreendeu que no havia recear nenhum desacato, e concluiu que o melhor
era no dizer nada ao solicitador; poupava-lhe um desgosto, e outro  pobre criana. J
se persuadia bem que ele era criana, e assentou de o tratar to secamente como at ali,
ou ainda mais. E assim fez; Incio comeou a sentir que ela fugia com os olhos, ou
falava spero, quase tanto como o prprio Borges. De outras vezes,  verdade que o tom
da voz saa brando e at meigo, muito meigo; assim como o olhar geralmente esquivo,
tanto errava por outras partes, que, para descansar, vinha pousar na cabea dele; mas
tudo isso era curto.
 Vou-me embora, repetia ele na rua como nos primeiros dias.
Chegava a casa e no se ia embora. Os braos de D. Severina fechavam-lhe um
parntesis no meio do longo e fastidioso perodo da vida que levava, e essa orao
intercalada trazia uma idia original e profunda, inventada pelo cu unicamente para ele.
Deixava-se estar e ia andando. Afinal, porm, teve de sair, e para nunca mais; eis aqui
como e porqu.
D. Severina tratava-o desde alguns dias com benignidade. A rudeza da voz parecia
acabada, e havia mais do que brandura, havia desvelo e carinho. Um dia recomendavalhe
que no apanhasse ar, outro que no bebesse gua fria depois do caf quente,
conselhos, lembranas, cuidados de amiga e me, que lhe lanaram na alma ainda maior
inquietao e confuso. Incio chegou ao extremo de confiana de rir um dia  mesa,
cousa que jamais fizera; e o solicitador no o tratou mal dessa vez, porque era ele que
contava um caso engraado, e ningum pune a outro pelo aplauso que recebe. Foi ento
que D. Severina viu que a boca do mocinho, graciosa estando calada, no o era menos
quando ria.
A agitao de Incio ia crescendo, sem que ele pudesse acalmar-se nem entender-se.
No estava bem em parte nenhuma. Acordava de noite, pensando em D. Severina. Na
rua, trocava de esquinas, errava as portas, muito mais que dantes, e no via mulher, ao
longe ou ao perto, que lha no trouxesse  memria. Ao entrar no corredor da casa,
voltando do trabalho, sentia sempre algum alvoroo, s vezes grande, quando dava com
ela no topo da escada, olhando atravs das grades de pau da cancela, como tendo
acudido a ver quem era.
Um domingo,  nunca ele esqueceu esse domingo,  estava s no quarto,  janela,
virado para o mar, que lhe falava a mesma linguagem obscura e nova de D. Severina.
Divertia-se em olhar para as gaivotas, que faziam grandes giros no ar, ou pairavam em
cima d'gua, ou avoaavam somente. O dia estava lindssimo. No era s um domingo
cristo; era um imenso domingo universal.
Incio passava-os todos ali no quarto ou  janela, ou relendo um dos trs folhetos que
trouxera consigo, contos de outros tempos, comprados a tosto, debaixo do passadio do
Largo do Pao. Eram duas horas da tarde. Estava cansado, dormira mal a noite, depois
de haver andado muito na vspera; estirou-se na rede, pegou em um dos folhetos, a
Princesa Magalona, e comeou a ler. Nunca pde entender por que  que todas as
heronas dessas velhas histrias tinham a mesma cara e talhe de D. Severina, mas a
verdade  que os tinham. Ao cabo de meia hora, deixou cair o folheto e ps os olhos na
parede, donde, cinco minutos depois, viu sair a dama dos seus cuidados. O natural era
que se espantasse; mas no se espantou. Embora com as plpebras cerradas viu-a
desprender-se de todo, parar, sorrir e andar para a rede. Era ela mesma, eram os seus
mesmos braos.
 certo, porm, que D. Severina, tanto no podia sair da parede, dado que houvesse ali
porta ou rasgo, que estava justamente na sala da frente ouvindo os passos do
solicitador que descia as escadas. Ouviu-o descer; foi  janela v-lo sair e s se recolheu
quando ele se perdeu ao longe, no caminho da Rua das Mangueiras. Ento entrou e foi
sentar-se no canap. Parecia fora do natural, inquieta, quase maluca; levantando-se, foi
pegar na jarra que estava em cima do aparador e deixou-a no mesmo lugar; depois
caminhou at  porta, deteve-se e voltou, ao que parece, sem plano. Sentou-se outra vez
cinco ou dez minutos. De repente, lembrou-se que Incio comera pouco ao almoo e
tinha o ar abatido, e advertiu que podia estar doente; podia ser at que estivesse muito
mal.
Saiu da sala, atravessou rasgadamente o corredor e foi at o quarto do mocinho, cuja
porta achou escancarada. D. Severina parou, espiou, deu com ele na rede, dormindo,
com o brao para fora e o folheto cado no cho. A cabea inclinava-se um pouco do
lado da porta, deixando ver os olhos fechados, os cabelos revoltos e um grande ar de
riso e de beatitude.
D. Severina sentiu bater-lhe o corao com veemncia e recuou. Sonhara de noite com
ele; pode ser que ele estivesse sonhando com ela. Desde madrugada que a figura do
mocinho andava-lhe diante dos olhos como uma tentao diablica. Recuou ainda,
depois voltou, olhou dous, trs, cinco minutos, ou mais. Parece que o sono dava 
adolescncia de Incio uma expresso mais acentuada, quase feminina, quase pueril.
"Uma criana!" disse ela a si mesma, naquela lngua sem palavras que todos trazemos
conosco. E esta idia abateu-lhe o alvoroo do sangue e dissipou-lhe em parte a
turvao dos sentidos.
"Uma criana!"
E mirou-o lentamente, fartou-se de v-lo, com a cabea inclinada, o brao cado; mas,
ao mesmo tempo que o achava criana, achava-o bonito, muito mais bonito que
acordado, e uma dessas idias corrigia ou corrompia a outra. De repente estremeceu e
recuou assustada: ouvira um rudo ao p, na saleta do engomado; foi ver, era um gato
que deitara uma tigela ao cho. Voltando devagarinho a espi-lo, viu que dormia
profundamente. Tinha o sono duro a criana! O rumor que a abalara tanto, no o fez
sequer mudar de posio. E ela continuou a v-lo dormir,  dormir e talvez sonhar.
Que no possamos ver os sonhos uns dos outros! D. Severina ter-se-ia visto a si mesma
na imaginao do rapaz; ter-se-ia visto diante da rede, risonha e parada; depois inclinarse,
pegar-lhe nas mos, lev-las ao peito, cruzando ali os braos, os famosos braos.
Incio, namorado deles, ainda assim ouvia as palavras dela, que eram lindas clidas,
principalmente novas,  ou, pelo menos, pertenciam a algum idioma que ele no
conhecia, posto que o entendesse. Duas trs e quatro vezes a figura esvaa-se, para
tornar logo, vindo do mar ou de outra parte, entre gaivotas, ou atravessando o corredor
com toda a graa robusta de que era capaz. E tornando, inclinava-se, pegava-lhe outra
vez das mos e cruzava ao peito os braos, at que inclinando-se, ainda mais, muito
mais, abrochou os lbios e deixou-lhe um beijo na boca.
Aqui o sonho coincidiu com a realidade, e as mesmas bocas uniram-se na imaginao e
fora dela. A diferena  que a viso no recuou, e a pessoa real to depressa cumprira o
gesto, como fugiu at  porta, vexada e medrosa. Dali passou  sala da frente, aturdida
do que fizera, sem olhar fixamente para nada. Afiava o ouvido, ia at o fim do corredor,
a ver se escutava algum rumor que lhe dissesse que ele acordara, e s depois de muito
tempo  que o medo foi passando. Na verdade, a criana tinha o sono duro; nada lhe
abria os olhos, nem os fracassos contguos, nem os beijos de verdade. Mas, se o medo
foi passando, o vexame ficou e cresceu. D. Severina no acabava de crer que fizesse
aquilo; parece que embrulhara os seus desejos na idia de que era uma criana
namorada que ali estava sem conscincia nem imputao; e, meia me, meia amiga,
inclinara-se e beijara-o. Fosse como fosse, estava confusa, irritada, aborrecida mal
consigo e mal com ele. O medo de que ele podia estar fingindo que dormia apontou-lhe
na alma e deu-lhe um calefrio.
Mas a verdade  que dormiu ainda muito, e s acordou para jantar. Sentou-se  mesa
lpido. Conquanto achasse D. Severina calada e severa e o solicitador to rspido como
nos outros dias, nem a rispidez de um, nem a severidade da outra podiam dissipar-lhe a
viso graciosa que ainda trazia consigo, ou amortecer-lhe a sensao do beijo. No
reparou que D. Severina tinha um xale que lhe cobria os braos; reparou depois, na
segunda-feira, e na tera-feira, tambm, e at sbado, que foi o dia em que Borges
mandou dizer ao pai que no podia ficar com ele; e no o fez zangado, porque o tratou
relativamente bem e ainda lhe disse  sada:
 Quando precisar de mim para alguma cousa, procure-me.
 Sim, senhor. A Sra. D. Severina. . .
 Est l para o quarto, com muita dor de cabea. Venha amanh ou depois despedir-se
dela.
Incio saiu sem entender nada. No entendia a despedida, nem a completa mudana de
D. Severina, em relao a ele, nem o xale, nem nada. Estava to bem! falava-lhe com
tanta amizade! Como  que, de repente. . . Tanto pensou que acabou supondo de sua
parte algum olhar indiscreto, alguma distrao que a ofendera, no era outra cousa; e
daqui a cara fechada e o xale que cobria os braos to bonitos... No importa; levava
consigo o sabor do sonho. E atravs dos anos, por meio de outros amores, mais efetivos
e longos, nenhuma sensao achou nunca igual  daquele domingo, na Rua da Lapa,
quando ele tinha quinze anos. Ele mesmo exclama s vezes, sem saber que se engana:
E foi um sonho! um simples sonho!
Um Homem Clebre
 AH! o SENHOR  que  o Pestana? perguntou Sinhazinha Mota, fazendo um largo
gesto admirativo. E logo depois, corrigindo a familiaridade:  Desculpe meu modo,
mas. ..  mesmo o senhor?
Vexado, aborrecido, Pestana respondeu que sim, que era ele. Vinha do piano,
enxugando a testa com o leno, e ia a chegar  janela, quando a moa o fez parar. No
era baile; apenas um sarau ntimo, pouca gente, vinte pessoas ao todo, que tinham ido
jantar com a viva Camargo, Rua do Areal, naquele dia dos anos dela, cinco de
novembro de 1875... Boa e patusca viva! Amava o riso e a folga, apesar dos sessenta
anos em que entrava, e foi a ltima vez que folgou e riu, pois faleceu nos primeiros dias
de 1876. Boa e patusca viva! Com que alma e diligncia arranjou ali umas danas,
logo depois do jantar, pedindo ao Pestana que tocasse uma quadrilha! Nem foi preciso
acabar o pedido; Pestana curvou-se gentilmente, e correu ao piano. Finda a quadrilha,
mal teriam descansado uns dez minutos, a viva correu novamente ao Pestana para um
obsquio mui particular.
 Diga, minha senhora.
  que nos toque agora aquela sua polca No Bula Comigo, Nhonh.
Pestana fez uma careta, mas dissimulou depressa, inclinou-se calado, sem gentileza, e
foi para o piano, sem entusiasmo. Ouvidos os primeiros compassos, derramou-se pela
sala uma alegria nova, os cavalheiros correram s damas, e os pares entraram a
saracotear a polca da moda. Da moda, tinha sido publicada vinte dias antes, e j no
havia recanto da cidade em que no fosse conhecida. Ia chegando  consagrao do
assobio e da cantarola noturna.
Sinhazinha Mota estava longe de supor que aquele Pestana que ela vira  mesa de jantar
e depois ao piano, metido numa sobrecasaca cor de rap, cabelo negro, longo e
cacheado, olhos cuidosos, queixo rapado, era o mesmo Pestana compositor; foi uma
amiga que lho disse quando o viu vir do piano, acabada a polca. Da a pergunta
admirativa. Vimos que ele respondeu aborrecido e vexado. Nem assim as duas moas
lhe pouparam finezas, tais e tantas, que a mais modesta vaidade se contentaria de as
ouvir; ele recebeu-as cada vez mais enfadado, at que, alegando dor de cabea, pediu
licena para sair. Nem elas, nem a dona da casa, ningum logrou ret-lo. Ofereceramlhe
remdios caseiros, algum repouso, no aceitou nada, teimou em sair e saiu.
Rua fora, caminhou depressa, com medo de que ainda o chamassem; s afrouxou,
depois que dobrou a esquina da Rua Formosa. Mas a mesmo esperava-o a sua grande
polca festiva. De uma casa modesta,  direita, a poucos metros de distncia, saam as
notas da composio do dia, sopradas em clarineta. Danava-se. Pestana parou alguns
instantes, pensou em arrepiar caminho, mas disps-se a andar, estugou o passo,
atravessou a rua, e seguiu pelo lado oposto ao da casa do baile. As notas foram-se
perdendo, ao longe, e o nosso homem entrou na Rua do Aterrado, onde morava. J perto
de casa, viu vir dois homens: um deles, passando rentezinho com o Pestana, comeou a
assobiar a mesma polca, rijamente, com brio, e o outro pegou a tempo na msica, e a
foram os dois abaixo, ruidosos e alegres, enquanto o autor da pea, desesperado, corria a
meter-se em casa.
Em casa, respirou. Casa velha. escada velha. um preto velho que o servia, e que veio
saber se ele queria cear.
 No quero nada, bradou o Pestana: faa-me caf e v dormir.
Despiu-se, enfiou uma camisola, e foi para a sala dos fundos. Quando o preto acendeu o
gs da sala, Pestana sorriu e, dentro d'alma, cumprimentou uns dez retratos que pendiam
da parede. Um s era a leo, o de um padre, que o educara, que lhe ensinara latim e
msica, e que, segundo os ociosos, era o prprio pai do Pestana. Certo  que lhe deixou
em herana aquela casa velha, e os velhos trastes, ainda do tempo de Pedro I.
Compusera alguns motetes o padre, era doudo por msica, sacra ou profana, cujo gosto
incutiu no moo, ou tambm lhe transmitiu no sangue, se  que tinham razo as bocas
vadias, cousa de que se no ocupa a minha histria, como ides ver.
Os demais retratos eram de compositores clssicos, Cimarosa, Mozart, Beethoven,
Gluck, Bach, Schumann, e ainda uns trs, alguns, gravados, outros litografados, todos
mal encaixilhados e de diferente tamanho, mas postos ali como santos de uma igreja. O
piano era o altar; o evangelho da noite l estava aberto: era uma sonata de Beethoven.
Veio o caf; Pestana engoliu a primeira xcara, e sentou-se ao piano. Olhou para o
retrato de Beethoven, e comeou a executar a sonata, sem saber de si, desvairado ou
absorto, mas com grande perfeio. Repetiu a pea, depois parou alguns instantes,
levantou-se e foi a uma das janelas. Tornou ao piano; era a vez de Mozart, pegou de um
trecho, e executou-o do mesmo modo, com a alma alhures. Haydn levou-o  meia-noite
e  segunda xcara de caf.
Entre meia-noite e uma hora, Pestana pouco mais fez que estar  janela e olhar para as
estrelas, entrar e olhar para os retratos. De quando em quando ia ao piano, e, de p, dava
uns golpes soltos no teclado, como se procurasse algum pensamento mas o pensamento
no aparecia e ele voltava a encostar-se  janela. As estrelas pareciam-lhe outras tantas
notas musicais fixadas no cu  espera de algum que as fosse descolar; tempo viria em
que o cu tinha de ficar vazio, mas ento a terra seria uma constelao de partituras.
Nenhuma imagem, desvario ou reflexo trazia uma lembrana qualquer de Sinhazinha
Mota, que entretanto, a essa mesma hora, adormecia, pensando nele, famoso autor de
tantas polcas amadas. Talvez a idia conjugal tirou  moa alguns momentos de sono.
Que tinha? Ela ia em vinte anos, ele em trinta, boa conta. A moa dormia ao som da
polca, ouvida de cor, enquanto o autor desta no cuidava nem da polca nem da moa,
mas das velhas obras clssicas, interrogando o cu e a noite, rogando aos anjos, em
ltimo caso ao diabo. Por que no faria ele uma s que fosse daquelas pginas imortais?
s vezes, como que ia surgir das profundezas do inconsciente uma aurora de idia: ele
corria ao piano para avent-la inteira, traduzi-la, em sons, mas era em vo: a idia
esvaa-se. Outras vezes, sentado, ao piano, deixava os dedos correrem,  ventura, a ver
se as fantasias brotavam deles, como dos de Mozart: mas nada, nada, a inspirao no
vinha, a imaginao deixava-se estar dormindo. Se acaso uma idia aparecia, definida e
bela, era eco apenas de alguma pea alheia, que a memria repetia, e que ele supunha
inventar. Ento, irritado, erguia-se, jurava abandonar a arte, ir plantar caf ou puxar
carroa: mas da a dez minutos, ei-lo outra vez, com os olhos em Mozart, a imit-lo ao
piano.
Duas, trs, quatro horas. Depois das quatro foi dormir; estava cansado, desanimado,
morto; tinha que dar lies no dia seguinte. Pouco dormiu; acordou s sete horas.
Vestiu-se e almoou.
 Meu senhor quer a bengala ou o chapu-de-sol? perguntou o preto, segundo as
ordens que tinha. porque as distraes do senhor eram freqentes.
 A bengala.
 Mas parece que hoje chove.
 Chove, repetiu Pestana maquinalmente.
 Parece que sim, senhor, o cu est meio escuro.
Pestana olhava para o preto, vago, preocupado. De repente:
 Espera a.
Correu  sala dos retratos, abriu o piano, sentou-se e espalmou as mos no teclado.
Comeou a tocar alguma cousa prpria, uma inspirao real e pronta, uma polca, uma
polca buliosa, como dizem os anncios. Nenhuma repulsa da parte do compositor; os
dedos iam arrancando as notas, ligando-as, meneando-as; dir-se-ia que a musa
compunha e bailava a um tempo. Pestana esquecera as discpulas, esquecera o preto,
que o esperava com a bengala e o guarda-chuva, esquecera at os retratos que pendiam
gravemente da parede. Compunha s, teclando ou escrevendo, sem os vos esforos da
vspera, sem exasperao, sem nada pedir ao cu, sem interrogar os olhos de Mozart.
Nenhum tdio. Vida, graa, novidade, escorriam-lhe da alma como de uma fonte
perene.
Em pouco tempo estava a polca feita. Corrigiu ainda alguns pontos, quando voltou para
jantar: mas j a cantarolava, andando, na rua. Gostou dela; na composio recente e
indita circulava o sangue da paternidade e da vocao. Dois dias depois, foi lev-la ao
editor das outras polcas suas, que andariam j por umas trinta. O editor achou-a linda.
 Vai fazer grande efeito.
Veio a questo do ttulo. Pestana, quando comps a primeira polca, em 1871, quis darlhe
um ttulo potico, escolheu este: Pingos de Sol. O editor abanou a cabea, e disselhe
que os ttulos deviam ser, j de si, destinados  popularidade, ou por aluso a algum
sucesso do dia,  ou pela graa das palavras; indicou-lhe dois: A Lei de 28 de
Setembro, ou Candongas No Fazem Festa.
 Mas que quer dizer Candongas No Fazem Festa? perguntou o autor.
 No quer dizer nada, mas populariza-se logo.
Pestana, ainda donzel indito, recusou qualquer das denominaes e guardou a polca,
mas no tardou que compusesse outra, e a comicho da publicidade levou-o a imprimir
as duas, com os ttulos que ao editor parecessem mais atraentes ou apropriados. Assim
se regulou pelo tempo adiante.
Agora, quando Pestana entregou a nova polca, e passaram ao ttulo, o editor acudiu que
trazia um, desde muitos dias, para a primeira obra que ele lhe apresentasse, ttulo de
espavento, longo e meneado. Era este: Senhora Dona, Guarde o Seu Balaio.
 E para a vez seguinte, acrescentou, j trago outro de cor.
Pestana, ainda donzel indito, recusou qualquer das denominaes compositor bastava 
procura; mas a obra em si mesma era adequada ao gnero, original, convidava a danla
e decorava-se depressa. Em oito dias, estava clebre. Pestana, durante os primeiros,
andou deveras namorado da composio, gostava de a cantarolar baixinho, detinha-se
na rua, para ouvi-la tocar em alguma casa, e zangava-se quando no a tocavam bem.
Desde logo, as orquestras de teatro a executaram, e ele l foi a um deles. No desgostou
tambm de a ouvir assobiada, uma noite, por um vulto que descia a Rua do Aterrado.
Essa lua-de-mel durou apenas um quarto de lua. Como das outras vezes, e mais depressa
ainda, os velhos mestres retratados o fizeram sangrar de remorsos. Vexado e enfastiado,
Pestana arremeteu contra aquela que o viera consolar tantas vezes, musa de olhos
marotos e gestos arredondados, fcil e graciosa. E a voltaram as nuseas de si mesmo, o
dio a quem lhe pedia a nova polca da moda, e juntamente o esforo de compor alguma
cousa ao sabor clssico, uma pgina que fosse, uma s, mas tal que pudesse ser
encadernada entre Bach e Schumann. Vo estudo, intil esforo. Mergulhava naquele
Jordo sem sair batizado. Noites e noites, gastou-as assim, confiado e teimoso, certo de
que a vontade era tudo, e que, uma vez que abrisse mo da msica fcil...
 As polcas que vo para o inferno fazer danar o diabo, disse ele um dia, de
madrugada, ao deitar-se.
Mas as polcas no quiseram ir to fundo. Vinham  casa de Pestana,  prpria sala dos
retratos, irrompiam to prontas, que ele no tinha mais que o tempo de as compor,
imprimi-las depois, gost-las alguns dias, aborrec-las, e tornar s velhas fontes, donde
lhe no manava nada. Nessa alternativa viveu at casar, e depois de casar.
 Casar com quem? perguntou Sinhazinha Mota ao tio escrivo que lhe deu aquela
notcia.
 Vai casar com uma viva.
 Velha?
 Vinte e sete anos.
 Bonita?
 No, nem feia, assim, assim. Ouvi dizer que ele se enamorou dela, porque a ouviu
cantar na ltima festa de S. Francisco de Paula. Mas ouvi tambm que ela possui outra
prenda, que no  rara, mas vale menos: est tsica.
Os escrives no deviam ter esprito,  mau esprito, quero dizer. A sobrinha deste
sentiu no fim um pingo de blsamo, que lhe curou a dentadinha da inveja. Era tudo
verdade. Pestana casou da a dias com uma viva de vinte e sete anos, boa cantora e
tsica. Recebeu-a como a esposa espiritual do seu gnio. O celibato era, sem dvida, a
causa da esterilidade e do transvio, dizia ele consigo, artisticamente considerava-se um
arruador de horas mortas; tinha as polcas por aventuras de petimetres. Agora, sim,  que
ia engendrar uma famlia de obras srias, profundas, inspiradas e trabalhadas.
Essa esperana abotoou desde as primeiras horas do amor, e desabrochou  primeira
aurora do casamento. Maria, balbuciou a alma dele, d-me o que no achei na solido
das noites, nem no tumulto dos dias.
Desde logo, para comemorar o consrcio, teve idia de compor um noturno. Chamarlhe-
ia Ave, Maria. A felicidade como que lhe trouxe um princpio de inspirao; no
querendo dizer nada  mulher, antes de pronto, trabalhava s escondidas; cousa difcil
porque Maria, que amava igualmente a arte, vinha tocar com ele, ou ouvi-lo somente,
horas e horas, na sala dos retratos. Chegaram a fazer alguns concertos semanais, com
trs artistas, amigos do Pestana. Um domingo, porm, no se pde ter o marido, e
chamou a mulher para tocar um trecho do noturno; no lhe disse o que era nem de quem
era. De repente, parando, interrogou-a com os olhos.
 Acaba, disse Maria, no  Chopin?
Pestana empalideceu, fitou os olhos no ar, repetiu um ou dois trechos e ergueu-se. Maria
assentou-se ao piano, e, depois de algum esforo de memria, executou a pea de
Chopin. A idia, o motivo eram os mesmos; Pestana achara-os em algum daqueles
becos escuros da memria, velha cidade de traies. Triste, desesperado, saiu de casa, e
dirigiu-se para o lado da ponte, caminho de S. Cristvo.
 Para que lutar? dizia ele. Vou com as polcas. . . Viva a polca!
Homens que passavam por ele, e ouviam isto, ficavam olhando, como para um doudo. E
ele ia andando, alucinado, mortificado, eterna peteca entre a ambio e a vocao. . .
Passou o velho matadouro; ao chegar  porteira da estrada de ferro, teve idia de ir pelo
trilho acima e esperar o primeiro trem que viesse e o esmagasse. O guarda f-lo recuar.
Voltou a si e tornou a casa.
Poucos dias depois,  uma clara e fresca manh de maio de 1876,  eram seis horas,
Pestana sentiu nos dedos um frmito particular e conhecido. Ergueu-se devagarinho,
para no acordar Maria, que tossira toda noite, e agora dormia profundamente. Foi para
a sala dos retratos, abriu o piano, e, o mais surdamente que pde, extraiu uma polca. Fla
publicar com um pseudnimo; nos dois meses seguintes comps e publicou mais
duas. Maria no soube nada; ia tossindo e morrendo, at que expirou, uma noite, nos
braos do marido, apavorado e desesperado.
Era noite de Natal. A dor do Pestana teve um acrscimo, porque na vizinhana havia um
baile, em que se tocaram vrias de suas melhores polcas. J o baile era duro de sofrer; as
suas composies davam-lhe um ar de ironia e perversidade. Ele sentia a cadncia dos
passos, adivinhava os movimentos, porventura lbricos, a que obrigava alguma
daquelas composies; tudo isso ao p do cadver plido, um molho de ossos, estendido
na cama... Todas as horas da noite passaram assim, vagarosas ou rpidas, midas de
lgrimas e de suor, de guas-da-colnia e de Labarraque , saltando sem parar, como ao
som da polca de um grande Pestana invisvel.
Enterrada a mulher, o vivo teve uma nica preocupao: deixar a msica, depois de
compor um Requiem, que faria executar no primeiro aniversrio da morte de Maria.
Escolheria outro emprego, escrevente, carteiro, mascate, qualquer cousa que lhe fizesse
esquecer a arte assassina e surda.
Comeou a obra; empregou tudo, arrojo, pacincia, meditao, e at os caprichos do
acaso, como fizera outrora, imitando Mozart. Releu e estudou o Requiem deste autor.
Passaram-se semanas e meses. A obra, clere a princpio, afrouxou o andar. Pestana
tinha altos e baixos. Ora achava-a incompleta. no lhe sentia a alma sacra, nem idia,
nem inspirao, nem mtodo; ora elevava-se-lhe o corao e trabalhava com vigor. Oito
meses, nove, dez, onze, e o Requiem no estava concludo. Redobrou de esforos,
esqueceu lies e amizades. Tinha refeito muitas vezes a obra; mas agora queria
conclu-la, fosse como fosse. Quinze dias, oito, cinco... A aurora do aniversrio veio
ach-lo trabalhando.
Contentou-se da missa rezada e simples, para ele s. No se pode dizer se todas as
lgrimas que lhe vieram sorrateiramente aos olhos, foram do marido, ou se algumas
eram do compositor. Certo  que nunca mais tornou ao Requiem.
"Para qu?" dizia ele a si mesmo.
Correu ainda um ano. No princpio de 1878, apareceu-lhe o editor.
 L vo dois anos, disse este, que nos no d um ar da sua graa. Toda a gente
pergunta se o senhor perdeu o talento. Que tem feito?
 Nada.
 Bem sei o golpe que o feriu; mas l vo dois anos. Venho propor-lhe um contrato:
vinte polcas durante doze meses; o preo antigo, e uma porcentagem maior na venda.
Depois, acabado o ano, podemos renovar.
Pestana assentiu com um gesto. Poucas lies tinha, vendera a casa para saldar dvidas,
e as necessidades iam comendo o resto, que era assaz escasso. Aceitou o contrato.
 Mas a primeira polca h de ser j, explicou o editor.  urgente. Viu a carta do
Imperador ao Caxias? Os liberais foram chamados ao poder, vo fazer a reforma
eleitoral. A polca h de chamar-se: Bravos  Eleio Direta! No  poltica;  um bom
ttulo de ocasio.
Pestana comps a primeira obra do contrato. Apesar do longo tempo de silncio, no
perdera a originalidade nem a inspirao. Trazia a mesma nota genial. As outras polcas
vieram vindo, regularmente. Conservara os retratos e os repertrios; mas fugia de gastar
todas as noites ao piano, para no cair em novas tentativas. J agora pedia uma entrada
de graa, sempre que havia alguma boa pera ou concerto de artista ia, metia-se a um
canto, gozando aquela poro de cousas que nunca lhe haviam de brotar do crebro.
Uma ou outra vez, ao tornar para casa, cheio de msica, despertava nele o maestro
indito; ento, sentava-se ao piano, e, sem idia, tirava algumas notas, at que ia dormir,
vinte ou trinta minutos depois.
Assim foram passando os anos, at 1885. A fama do Pestana dera-lhe definitivamente o
primeiro lugar entre os compositores de polcas; mas o primeiro lugar da aldeia no
contentava a este Csar, que continuava a preferir-lhe, no o segundo, mas o centsimo
em Roma. Tinha ainda as alternativas de outro tempo, acerca de suas composies a
diferena  que eram menos violentas. Nem entusiasmo nas primeiras horas, nem horror
depois da primeira semana; algum prazer e certo fastio.
Naquele ano, apanhou uma febre de nada, que em poucos dias cresceu, at virar
perniciosa. J estava em perigo, quando lhe apareceu o editor, que no sabia da doena,
e ia dar-lhe notcia da subida dos conservadores, e pedir-lhe uma polca de ocasio. O
enfermeiro, pobre clarineta de teatro , referiu-lhe o estado do Pestana , de modo que o
editor entendeu calar-se. O doente  que instou para que lhe dissesse o que era, o editor
obedeceu.
 Mas h de ser quando estiver bom de todo, concluiu.
 Logo que a febre decline um pouco, disse o Pestana.
Seguiu-se uma pausa de alguns segundos. O clarineta foi p ante p preparar o remdio;
o editor levantou-se e despediu-se.
 Adeus.
 Olhe, disse o Pestana, como  provvel que eu morra por estes dias, fao-lhe logo
duas polcas; a outra servir para quando subirem os liberais.
Foi a nica pilhria que disse em toda a vida, e era tempo, porque expirou na madrugada
seguinte, s quatro horas e cinco minutos, bem com os homens e mal consigo mesmo.
A Desejada das Gentes
 AH! CONSELHEIRO, a comea a falar em verso.
 Todos os homens devem ter uma lira no corao,  ou no sejam homens. Que a
lira ressoe a toda a hora, nem por qualquer motivo, no o digo eu, mas de longe em
longe, e por algumas reminiscncias particulares... Sabe por que  que lhe pareo poeta,
apesar das Ordenaes do Reino e dos cabelos grisalhos?  porque vamos por esta
Glria adiante, costeando aqui a Secretaria de Estrangeiros. . . L est o outeiro clebre.
. . Adiante h uma casa..
 Vamos andando.
 Vamos... Divina Quintlia! Todas essas caras que a passam so outras, mas falamme
daquele tempo, como se fossem as mesmas de outrora;  a lira que ressoa, e a
imaginao faz o resto. Divina Quintlia!
 Chamava-se Quintlia? Conheci de vista, quando andava na Escola de Medicina, uma
linda moa com esse nome. Diziam que era a mais bela da cidade.
 H de ser a mesma, porque tinha essa fama. Magra e alta?
 Isso. Que fim levou?
 Morreu em 1859. Vinte de abril. Nunca me h de esquecer esse dia. Vou contar-lhe
um caso interessante para mim, e creio que tambm para o senhor. Olhe, a casa era
aquela... Morava com um tio, chefe de esquadra reformado, tinha outra casa no Cosme
Velho. Quando conheci Quintlia... Que idade pensa que teria, quando a conheci?
 Se foi em 1855...
 Em 1855.
 Devia ter vinte anos.
 Tinha trinta.
 Trinta?
 Trinta anos. No os parecia, nem era nenhuma inimiga que lhe dava essa idade. Ela
prpria a confessava e at com afetao. Ao contrrio, uma de suas amigas afirmava que
Quintlia no passava dos vinte e sete; mas como ambas tinham nascido no mesmo dia,
dizia isso para diminuir-se a si prpria.
 Mau, nada de ironias; olhe que a ironia no faz boa cama com a saudade.
 Que  a saudade seno uma ironia do tempo e da fortuna? Veja l; comeo a ficar
sentencioso. Trinta anos; mas em verdade, no os parecia. Lembra-se bem que era
magra e alta; tinha os olhos como eu ento dizia, que pareciam cortados da capa da
ltima noite, mas apesar de noturnos, sem mistrios nem abismos. A voz era
brandssima, um tanto apaulistada, a boca larga, e os dentes, quando ela simplesmente
falava, davam-lhe  boca um ar de riso. Ria tambm, e foram os risos dela, de parceria
com os olhos, que me doeram muito durante certo tempo.
 Mas se os olhos no tinham mistrios...
 Tanto no os tinham que cheguei ao ponto de supor que eram as portas abertas do
castelo, e o riso o clarim que chamava os cavaleiros. J a conhecamos, eu e o meu
companheiro de escritrio, o Joo Nbrega, ambos principiantes na advocacia, e ntimos
como ningum mais; mas nunca nos lembrou namor-la. Ela andava ento no galarim;
era bela, rica, elegante, e da primeira roda. Mas um dia, no antigo Teatro Provisrio
entre dois atos dos Puritanos, estando eu num corredor, ouvi um grupo de moos que
falavam dela, como de uma fortaleza inexpugnvel. Dous confessaram haver tentado
alguma cousa, mas sem fruto; e todos pasmavam do celibato da moa que lhes parecia
sem explicao. E chalaceavam: um dizia que era promessa at ver se engordava
primeiro; outro que estava esperando a segunda mocidade do tio para casar com ele;
outro que provavelmente encomendara algum anjo ao porteiro do cu; trivialidades que
me aborreceram muito, e da parte dos que confessavam t-la cortejado ou amado, achei
que era uma grosseria sem nome. No que eles estavam todos de acordo  que ela era
extraordinariamente bela; a foram entusiastas e sinceros.
 Oh! ainda me lembro!... era muito bonita.
 No dia seguinte, ao chegar ao escritrio, entre duas causas que no vinham, contei ao
Nbrega a conversao da vspera. Nbrega riu-se do caso, refletiu, e depois de dar
alguns passos, parou diante de mim, olhando, calado.  Aposto que a namoras?
perguntei-lhe.  No, disse ele; nem tu? Pois lembrou-me uma cousa: vamos tentar o
assalto  fortaleza? Que perdemos com isso? Nada, ou ela nos pe na rua, e j podemos
esper-lo, ou aceita um de ns, e tanto melhor para o outro que ver o seu amigo feliz.
 Ests falando srio?  Muito srio.  Nbrega acrescentou que no era s a beleza
dela que a fazia atraente. Note que ele tinha a presuno de ser esprito prtico, mas era
principalmente um sonhador que vivia lendo e construindo aparelhos sociais e polticos.
Segundo ele, os tais rapazes do teatro evitavam falar dos bens da moa, que eram um
dos feitios dela, e uma das causas provveis da desconsolao de uns e dos sarcasmos
de todos. E dizia-me:  Escuta, nem divinizar o dinheiro, nem tambm bani-lo; no
vamos crer que ele d tudo, mas reconheamos que d alguma cousa e at muita cousa,
 este relgio, por exemplo. Combatamos pela nossa Quintlia, minha ou tua, mas
provavelmente minha, porque sou mais bonito que tu.
 Conselheiro, a confisso  grave, foi assim brincando...?
 Foi assim brincando, cheirando ainda aos bancos da academia, que nos metemos em
negcio de tanta ponderao, que podia acabar em nada, mas deu muito de si. Era um
comeo estouvado, quase um passatempo de crianas, sem a nota da sinceridade; mas o
homem pe e a espcie dispe. Conhecamo-la, posto no tivssemos encontros
freqentes; uma vez que nos dispusemos a uma ao comum, entrou um elemento novo
na nossa vida, e dentro de um ms estvamos brigados.
 Brigados?
 Ou quase. No tnhamos contado com ela, que nos enfeitiou a ambos,
violentamente. Em algumas semanas j pouco falvamos de Quintlia, e com
indiferena; tratvamos de enganar um ao outro e dissimular o que sentamos. Foi assim
que as nossas relaes se dissolveram, no fim de seis meses, sem dio, nem luta, nem
demonstrao externa, porque ainda nos falvamos, onde o acaso nos reunia; mas j
ento tnhamos banca separada.
 Comeo a ver uma pontinha do drama. . .
 Tragdia, diga tragdia; porque da a pouco tempo, ou por desengano verbal que ela
lhe desse, ou por desespero de vencer, Nbrega deixou-me s em campo. Arranjou uma
nomeao de juiz municipal l para os sertes da Bahia, onde definhou e morreu antes
de acabar o quatrinio. E juro-lhe que no foi o inculcado esprito prtico de Nbrega
que o separou de mim; ele, que tanto falara das vantagens do dinheiro, morreu
apaixonado como um simples Werther.
 Menos a pistola.
Tambm o veneno mata; e o amor de Quintlia podia dizer-se alguma cousa parecido
com isso, foi o que o matou, e o que ainda hoje me di. . . Mas, vejo pelo seu dito que o
estou aborrecendo.. .
 Pelo amor de Deus. Juro-lhe que no; foi uma graola que me escapou. Vamos
adiante, conselheiro; ficou s em campo.
 Quintlia no deixava ningum estar s em campo,  no digo por ela, mas pelos
outros. Muitos vinham ali tomar um clix de esperanas, e iam cear a outra parte. Ela
no favorecia a um mais que a outro, mas era lhana, graciosa e tinha essa espcie de
olhos derramados que no foram feitos para homens ciumentos. Tive cimes amargos e,
s vezes, terrveis. Todo argueiro me parecia um cavaleiro, e todo cavaleiro um diabo.
Afinal acostumei-me a ver que eram passageiros de um dia. Outros me metiam mais
medo, eram os que vinham dentro da luva das amigas. Creio que houve duas ou trs
negociaes dessas, mas sem resultado. Quintlia declarou que nada faria sem consultar
o tio, e o tio aconselhou a recusa,  cousa que ela sabia de antemo. O bom velho no
gostava nunca da visita de homens, com receio de que a sobrinha escolhesse algum e
casasse. Estava to acostumado a traz-la ao p de si, como uma muleta da velha alma
aleijada, que temia perd-la inteiramente.
 No seria essa a causa da iseno sistemtica da moa?
 Vai ver que no.
 O que noto  que o senhor era mais teimoso que os outros. . .
 ... Iludido, a princpio, porque no meio de tantas candidaturas malogradas, Quintlia
preferia-me a todos os outros homens, e conversava comigo mais largamente e mais
intimamente, a tal ponto que chegou a correr que nos casvamos.
 Mas conversavam de qu?
 De tudo o que ela no conversava com os outros; e era de fazer pasmar que uma
pessoa to amiga de bailes e passeios, de valsar e rir, fosse comigo to severa e grave,
to diferente do que costumava ou parecia ser.
 A razo  clara: achava a sua conversao menos insossa que a dos outros homens.
 Obrigado; era mais profunda a causa da diferena, e a diferena ia-se acentuando
com os tempos. Quando a vida c embaixo a aborrecia muito, ia para o Cosme Velho, e
ali as nossas conversaes eram mais freqentes e compridas. No lhe posso dizer, nem
o senhor compreenderia nada, o que foram as horas que ali passei, incorporando na
minha vida toda a vida que jorrava dela. Muitas vezes quis dizer-lhe o que sentia, mas
as palavras tinham medo e ficavam no corao. Escrevi cartas sobre cartas; todas me
pareciam frias, difusas, ou inchadas de estilo. Demais, ela no dava ensejo a nada, tinha
um ar de velha amiga. No princpio de 1857 adoeceu meu pai em Itabora; corri a v-lo,
achei-o moribundo. Este fato reteve-me fora da Corte uns quatro meses. Voltei pelos
fins de maio. Quintlia recebeu-me triste da minha tristeza, e vi claramente que o meu
luto passara aos olhos dela...
 Mas que era isso seno amor?
 Assim o cri, e dispus a minha vida para despos-la. Nisto, adoeceu o tio gravemente.
Quintlia no ficava s, se ele morresse, porque, alm dos muitos parentes espalhados
que tinha, morava com ela agora, na casa da Rua do Catete, uma prima, D. Ana, viva;
mas,  certo que a afeio principal ia-se embora e nessa transio da vida presente 
vida ulterior podia eu alcanar o que desejava. A molstia do tio foi breve; ajudada da
velhice, levou-o em duas semanas. Digo-lhe aqui que a morte dele lembrou-me a de
meu pai, e a dor que ento senti foi quase a mesma. Quintlia viu-me padecer,
compreendeu o duplo motivo, e, segundo me disse depois, estimou a coincidncia do
golpe, uma vez que tnhamos de o receber sem falta e to breve. A palavra pareceu-me
um convite matrimonial; dois meses depois cuidei de pedi-la em casamento. D. Ana
ficara morando com ela e estavam no Cosme Velho. Fui ali, achei-as juntas no terrao,
que ficava perto da montanha. Eram quatro horas da tarde de um domingo. D. Ana, que
nos presumia namorados, deixou-nos o campo livre.
 Enfim!
 No terrao, lugar solitrio, e posso dizer agreste, proferi a primeira palavra. O meu
plano era justamente precipitar tudo, com medo de que, cinco minutos de conversa me
tirassem as foras. Ainda assim, no sabe o que me custou; custaria menos uma batalha,
e juro-lhe que no nasci para guerras. Mas aquela mulher magrinha e delicada impunhase-
me, como nenhuma outra, antes e depois...
 E ento?
 Quintlia adivinhara, pelo transtorno do meu rosto, o que lhe ia pedir, e deixou-me
falar para preparar a resposta. A resposta foi interrogativa e negativa. Casar para qu?
Era melhor que ficssemos amigos como dantes. Respondi-lhe que a amizade era, em
mim, desde muito, a simples sentinela do amor; no podendo mais cont-lo, deixou que
ele sasse. Quintlia sorriu da metfora, o que me doeu, e sem razo; ela, vendo o efeito,
fez-se outra vez sria e tratou de persuadir-me de que era melhor no casar.  Estou
velha, disse ela; vou em trinta e trs anos.  Mas se eu a amo assim mesmo, repliquei,
e disse-lhe uma poro de cousas, que no poderia repetir agora. Quintlia refletiu um
instante; depois insistiu nas relaes de amizade; disse que, posto que mais moo que
ela, tinha a gravidade de um homem mais velho e inspirava-lhe confiana como nenhum
outro. Desesperanado, dei algumas passadas, depois sentei-me outra vez e narrei-lhe
tudo. Ao saber da minha briga com o amigo e companheiro da academia, e a separao
em que ficamos, sentiu-se, no sei se diga, magoada ou irritada. Censurou-nos a ambos,
no valia a pena que chegssemos a tal ponto.  A senhora diz isso porque no sente a
mesma cousa.  Mas ento  um delrio?  Creio que sim; o que lhe afiano  que
ainda agora, se fosse necessrio, separar-me-ia dele uma e cem vezes; e creio poder
afirmar-lhe que ele faria a mesma cousa. Aqui olhou ela espantada para mim, como se
olha para uma pessoa cujas faculdades parecem transtornadas; depois abanou a cabea,
e repetiu que fora um erro; no valia a pena.  Fiquemos amigos, disse-me, estendendo
a mo.   impossvel; pede-me cousa superior s minhas foras, nunca poderei ver na
senhora uma simples amiga; no desejo impor-lhe nada; dir-lhe-ei at que nem mais
insisto, porque no aceitaria outra resposta agora. Trocamos ainda algumas palavras, e
retirei-me... Veja a minha mo.
 Treme-lhe ainda...
 E no lhe contei tudo. No lhe digo aqui os aborrecimentos que tive, nem a dor e o
despeito que me ficaram. Estava arrependido, zangado, devia ter provocado aquele
desengano desde as primeiras semanas, mas a culpa foi da esperana, que  uma planta
daninha, que me comeu o lugar de outras plantas melhores. No fim de cinco dias sa
para Itabora, onde me chamaram alguns interesses do inventrio de meu pai. Quando
voltei, trs semanas depois, achei em casa uma carta de Quintlia.
 Oh!
 Abri-a alvoroadamente: datava de quatro dias. Era longa; aludia aos ltimos
sucessos, e dizia cousas meigas e graves. Quintlia afirmava ter esperado por mim todos
os dias, no cuidando que eu levasse o egosmo at no voltar l mais, por isso escrevia -
me, pedindo que fizesse dos meus sentimentos pessoais e sem eco uma pgina de
histria acabada; que ficasse s o amigo, e l fosse ver a sua amiga. E conclua com
estas singulares palavras: "Quer uma garantia? Juro-lhe que no casarei nunca."
Compreendi que um vnculo de simpatia moral nos ligava um ao outro; com a diferena
que o que era em mim paixo especfica, era nela uma simples eleio de carter.
ramos dois scios, que entravam no comrcio da vida com diferente capital: eu, tudo o
que possua; ela, quase um bolo. Respondi  carta dela nesse sentido; e declarei que era
tal a minha obedincia e o meu amor, que cedia, mas de m vontade, porque, depois do
que se passara entre ns, ia sentir-me humilhado. Risquei a palavra ridculo, j escrita,
para poder ir v-la sem este vexame; bastava o outro.
 Aposto que seguiu atrs da carta?  o que eu faria, porque essa moa, ou eu me
engano ou estava morta por casar com o senhor.
 Deixe a sua fisiologia usual; este caso  particularssimo.
 Deixe-me adivinhar o resto; o juramento era um anzol mstico; depois, o senhor, que
o recebera, podia desobrig-la dele, uma vez que aproveitasse com a absolvio. Mas,
enfim, correr  casa dele.
 No corri; fui dous dias depois. No intervalo, respondeu ela  minha carta com um
bilhete carinhoso, que rematava com esta idia: "no fale de humilhao, onde no
houve pblico." Fui, voltei uma e mais vezes e restabeleceram-se as nossas relaes.
No se falou em nada; ao princpio, custou-me muito parecer o que era dantes; depois, o
demnio da esperana veio pousar outra vez no meu corao; e, sem nada exprimir,
cuidei que um dia, um dia tarde, ela viesse a casar comigo. E foi essa esperana que me
retificou aos meus prprios olhos, na situao em que me achava. Os boatos de nosso
casamento correram mundo. Chegaram aos nossos ouvidos; eu negava formalmente e
srio; ela dava de ombros e ria. Foi essa fase da nossa vida a mais serena para mim,
salvo um incidente curto, um diplomata austraco ou no sei que, rapago, elegante,
ruivo, olhos grandes e atrativos, e fidalgo ainda por cima. Quintlia mostrou-se-lhe to
graciosa, que ele cuidou estar aceito, e tratou de ir adiante. Creio que algum gesto meu,
inconsciente, ou ento um pouco da percepo fina que o cu lhe dera, levou depressa o
desengano  legao austraca. Pouco depois ela adoeceu; e foi ento que a nossa
intimidade cresceu de vulto. Ela, enquanto se tratava, resolveu no sair, e isso mesmo
lhe disseram os mdicos. L passava eu muitas horas diariamente. Ou elas tocavam, ou
jogvamos os trs, ou ento lia-se alguma cousa; a maior parte das vezes
conversvamos somente. Foi ento que a estudei muito; escutando as suas leituras vi
que os livros puramente amorosos achava-os incompreensveis, e, se as paixes a eram
violentas, largava-os com tdio. No falava assim por ignorante; tinha notcia vaga das
paixes, e assistira a algumas alheias.
 De que molstia padecia?
 Da espinha. Os mdicos diziam que a molstia no era talvez recente, e ia tocando o
ponto melindroso. Chegamos assim a 1859. Desde maro desse ano a molstia agravouse
muito; teve uma pequena parada, mas para os fins do ms chegou ao estado
desesperador. Nunca vi depois criatura mais enrgica diante da iminente catstrofe;
estava ento de uma magreza transparente, quase fluida; ria, ou antes, sorria apenas, e
vendo que eu escondia as minhas lgrimas, apertava-me as mos agradecida. Um dia,
estando s com o mdico, perguntou-lhe a verdade; ele ia mentir, ela disse-lhe que era
intil, que estava perdida.  Perdida, no, murmurou o mdico.  Jura que no estou
perdida?  Ele hesitou, ela agradeceu-lho. Uma vez certa que morria, ordenou o que
prometera a si mesma.
 Casou com o senhor, aposto?
 No me relembre essa triste cerimnia; ou antes, deixe-me relembr-la, porque me
traz algum alento do passado. No aceitou recusas nem pedidos meus; casou comigo 
beira da morte. Foi no dia 18 de abril de 1859. Passei os ltimos dois dias, at 20 de
abril ao p da minha noiva moribunda, e abracei-a pela primeira vez feita cadver.
 Tudo isso  bem esquisito.
 No sei o que dir a sua fisiologia. A minha, que  de profano, cr que aquela moa
tinha ao casamento uma averso puramente fsica. Casou meio defunta, s portas do
nada. Chame-lhe monstro, se quer, mas acrescente divino.
A Causa Secreta
GARCIA, EM P, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balano, olhava
para o tecto; Maria Lusa, perto da janela, conclua um trabalho de agulha. Havia j
cinco minutos que nenhum deles dizia nada. Tinham falado do dia, que estivera
excelente,  de Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa de sade, que
adiante se explicar. Como os trs personagens aqui presentes esto agora mortos e
enterrados, tempo  de contar a histria sem rebuo.
Tinham falado tambm de outra cousa, alm daquelas trs, cousa to feia e grave, que
no lhes deixou muito gosto para tratar do dia, do bairro e da casa de sade. Toda a
conversao a este respeito foi constrangida. Agora mesmo, os dedos de Maria Lusa
parecem ainda trmulos, ao passo que h no rosto de Garcia uma expresso de
severidade, que lhe no  habitual. Em verdade, o que se passou foi de tal natureza, que
para faz-lo entender  preciso remontar  origem da situao.
Garcia tinha-se formado em medicina, no ano anterior, 1861. No de 1860, estando ainda
na Escola, encontrou-se com Fortunato, pela primeira vez,  porta da Santa Casa;
entrava, quando o outro saa. Fez-lhe impresso a figura; mas, ainda assim, t-la-ia
esquecido, se no fosse o segundo encontro, poucos dias depois. Morava na rua de D.
Manoel. Uma de suas raras distraes era ir ao teatro de S. Janurio, que ficava perto,
entre essa rua e a praia; ia uma ou duas vezes por ms, e nunca achava acima de
quarenta pessoas. S os mais intrpidos ousavam estender os passos at aquele recanto
da cidade. Uma noite, estando nas cadeiras, apareceu ali Fortunato, e sentou-se ao p
dele.
A pea era um dramalho, cosido a facadas, ouriado de imprecaes e remorsos; mas
Fortunato ouvia-a com singular interesse. Nos lances dolorosos, a ateno dele
redobrava, os olhos iam avidamente de um personagem a outro, a tal ponto que o
estudante suspeitou haver na pea reminiscncias pessoais do vizinho. No fim do drama,
veio uma farsa; mas Fortunato no esperou por ela e saiu; Garcia saiu atrs dele.
Fortunato foi pelo beco do Cotovelo, rua de S. Jos, at o largo da Carioca. Ia devagar,
cabisbaixo, parando s vezes, para dar uma bengalada em algum co que dormia; o co
ficava ganindo e ele ia andando. No largo da Carioca entrou num tlburi, e seguiu para
os lados da praa da Constituio. Garcia voltou para casa sem saber mais nada.
Decorreram algumas semanas. Uma noite, eram nove horas, estava em casa, quando
ouviu rumor de vozes na escada; desceu logo do sto, onde morava, ao primeiro andar,
onde vivia um empregado do arsenal de guerra. Era este que alguns homens conduziam,
escada acima, ensangentado. O preto que o servia acudiu a abrir a porta; o homem
gemia, as vozes eram confusas, a luz pouca. Deposto o ferido na cama, Garcia disse que
era preciso chamar um mdico.
 J a vem um, acudiu algum.
Garcia olhou: era o prprio homem da Santa Casa e do teatro. Imaginou que seria
parente ou amigo do ferido; mas rejeitou a suposio, desde que lhe ouvira perguntar se
este tinha famlia ou pessoa prxima. Disse-lhe o preto que no, e ele assumiu a direo
do servio, pediu s pessoas estranhas que se retirassem, pagou aos carregadores, e deu
as primeiras ordens. Sabendo que o Garcia era vizinho e estudante de medicina pediulhe
que ficasse para ajudar o mdico. Em seguida contou o
que se passara.
 Foi uma malta de capoeiras. Eu vinha do quartel de Moura, onde fui visitar um
primo, quando ouvi um barulho muito grande, e logo depois um ajuntamento. Parece
que eles feriram tambm a um sujeito que passava, e que entrou por um daqueles becos;
mas eu s vi a este senhor, que atravessava a rua no momento em que um dos capoeiras,
roando por ele, meteu-lhe o punhal. No caiu logo; disse onde morava e, como era a
dois passos, achei melhor traz-lo.
 Conhecia-o antes? perguntou Garcia.
 No, nunca o vi. Quem ?
  um bom homem, empregado no arsenal de guerra. Chama-se Gouva.
 No sei quem .
Mdico e subdelegado vieram da a pouco; fez-se o curativo, e tomaram-se as
informaes. O desconhecido declarou chamar-se Fortunato Gomes da Silveira, ser
capitalista, solteiro, morador em Catumbi. A ferida foi reconhecida grave. Durante o
curativo ajudado pelo estudante, Fortunato serviu de criado, segurando a bacia, a vela,
os panos, sem perturbar nada, olhando friamente para o ferido, que gemia muito. No
fim, entendeu-se particularmente com o mdico, acompanhou-o at o patamar da
escada, e reiterou ao subdelegado a declarao de estar pronto a auxiliar as pesquisas da
polcia. Os dous saram, ele e o estudante ficaram no quarto.
Garcia estava atnito. Olhou para ele, viu-o sentar-se tranqilamente, estirar as pernas,
meter as mos nas algibeiras das calas, e fitar os olhos no ferido. Os olhos eram claros,
cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a expresso dura, seca e fria. Cara magra
e plida; uma tira estreita de barba, por baixo do queixo, e de uma tmpora a outra,
curta, ruiva e rara. Teria quarenta anos. De quando em quando, voltava-se para o
estudante, e perguntava alguma coisa acerca do ferido; mas
tornava logo a olhar para ele, enquanto o rapaz lhe dava a resposta. A sensao que o
estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de curiosidade; no podia negar
que estava assistindo a um ato de rara dedicao, e se era desinteressado como parecia,
no havia mais que aceitar o corao humano como um poo de mistrios.
Fortunato saiu pouco antes de uma hora; voltou nos dias seguintes, mas a cura fez-se
depressa, e, antes de concluda, desapareceu sem dizer ao obsequiado onde morava. Foi
o estudante que lhe deu as indicaes do nome, rua e nmero.
 Vou agradecer-lhe a esmola que me fez, logo que possa sair, disse o convalescente.
Correu a Catumbi da a seis dias. Fortunato recebeu-o constrangido, ouviu impaciente as
palavras de agradecimento, deu-lhe uma resposta enfastiada e acabou batendo com as
borlas do chambre no joelho. Gouva, defronte dele, sentado e calado, alisava o chapu
com os dedos, levantando os olhos de quando em quando, sem achar mais nada que
dizer. No fim de dez minutos, pediu licena para sair, e saiu.
 Cuidado com os capoeiras! disse-lhe o dono da casa, rindo-se.
O pobre-diabo saiu de l mortificado, humilhado, mastigando a custo o desdm,
forcejando por esquec-lo, explic-lo ou perdo-lo, para que no corao s ficasse a
memria do benefcio; mas o esforo era vo. O ressentimento, hspede novo e
exclusivo, entrou e ps fora o benefcio, de tal modo que o desgraado no teve mais
que trepar  cabea e refugiar-se ali como uma simples idia. Foi assim que o prprio
benfeitor insinuou a este homem o sentimento da ingratido.
Tudo isso assombrou o Garcia. Este moo possua, em grmen, a faculdade de decifrar
os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da anlise, e sentia o regalo, que
dizia ser supremo, de penetrar muitas camadas morais, at apalpar o segredo de um
organismo. Picado de curiosidade, lembrou-se de ir ter com o homem de Catumbi, mas
advertiu que nem recebera dele o oferecimento formal da casa. Quando menos, era-lhe
preciso um pretexto, e no achou nenhum.
Tempos depois, estando j formado e morando na rua de Matacavalos, perto da do
Conde, encontrou Fortunato em uma gndola, encontrou-o ainda outras vezes, e a
freqncia trouxe a familiaridade. Um dia Fortunato convidou-o a ir visit-lo ali perto,
em Catumbi.
 Sabe que estou casado?
 No sabia.
 Casei-me h quatro meses, podia dizer quatro dias. V jantar conosco domingo.
 Domingo?
 No esteja forjando desculpas; no admito desculpas. V domingo.
Garcia foi l domingo. For tunato deu-lhe um bom jantar, bons charutos e boa palestra,
em companhia da senhora, que era interessante. A figura dele no mudara; os olhos
eram as mesmas chapas de estanho, duras e frias; as outras feies no eram mais
atraentes que dantes. Os obsquios, porm, se no resgatavam a natureza, davam
alguma compensao, e no era pouco. Maria Lusa  que possua ambos os feitios,
pessoa e modos. Era esbelta, airosa, olhos meigos e submissos; tinha vinte e cinco anos
e parecia no passar de dezenove. Garcia,  segunda vez que l foi, percebeu que entre
eles havia alguma dissonncia de caracteres, pouca ou nenhuma afinidade moral, e da
parte da mulher para com o marido uns modos que transcendiam o respeito e
confinavam na resignao e no temor. Um dia, estando os trs juntos, perguntou Garcia
a Maria Lusa se tivera notcia das circunstncias em que ele conhecera o marido.
 No, respondeu a moa.
 Vai ouvir uma ao bonita.
 No vale a pena, interrompeu Fortunato.
 A senhora vai ver se vale a pena, insistiu o mdico.
Contou o caso da rua de D. Manoel. A moa ouviu-o espantada. Insensivelmente
estendeu a mo e apertou o pulso ao marido, risonha e agradecida, como se acabasse de
descobrir-lhe o corao. Fortunato sacudia os ombros, mas no ouvia com indiferena.
No fim contou ele prprio a visita que o ferido lhe fez, com todos os pormenores da
figura, dos gestos, das palavras atadas, dos silncios, em suma, um estrdio. E ria muito
ao cont-la. No era o riso da dobrez. A dobrez  evasiva e
oblqua; o riso dele era jovial e franco.
" Singular homem!" pensou Garcia.
Maria Lusa ficou desconsolada com a zombaria do marido; mas o mdico restituiu-lhe
a satisfao anterior, voltando a referir a dedicao deste e as suas raras qualidades de
enfermeiro; to bom enfermeiro, concluiu ele, que, se algum dia fundar uma casa de
sade, irei convid-lo.
 Valeu? perguntou Fortunato.
 Valeu o qu?
 Vamos fundar uma casa de sade?
 No valeu nada; estou brincando.
 Podia-se fazer alguma cousa; e para o senhor, que comea a clnica, acho que seria
bem bom. Tenho justamente uma casa que vai vagar, e serve.
Garcia recusou nesse e no dia seguinte; mas a idia tinha-se metido na cabea ao outro,
e no foi possvel recuar mais. Na verdade, era uma boa estria para ele, e podia vir a
ser um bom negcio para ambos. Aceitou finalmente, da a dias, e foi uma desiluso
para Maria Lusa. Criatura nervosa e frgil, padecia s com a idia de que o marido
tivesse de viver em contato com enfermidades humanas, mas no ousou opor-se-lhe, e
curvou a cabea. O plano fez-se e cumpriu-se depressa. Verdade  que Fortunato no
curou de mais nada, nem ento, nem depois. Aberta a casa, foi ele o prprio
administrador e chefe de enfermeiros, examinava tudo, ordenava tudo, compras e
caldos, drogas e contas.
Garcia pde ento observar que a dedicao ao ferido da rua D. Manoel no era um caso
fortuito, mas assentava na prpria natureza deste homem. Via-o servir como nenhum
dos fmulos. No recuava diante de nada, no conhecia molstia aflitiva ou repelente, e
estava sempre pronto para tudo, a qualquer hora do dia ou da noite. Toda a gente
pasmava e aplaudia. Fortunato estudava, acompanhava as operaes, e nenhum outro
curava os custicos.
 Tenho muita f nos custicos, dizia ele.
A comunho dos interesses apertou os laos da intimidade. Garcia tornou-se familiar na
casa; ali jantava quase todos os dias, ali observava a pessoa e a vida de Maria Lusa,
cuja solido moral era evidente. E a solido como que lhe duplicava o encanto. Garcia
comeou a sentir que alguma coisa o agitava, quando ela aparecia, quando falava,
quando trabalhava, calada, ao canto da janela, ou tocava ao piano umas msicas tristes.
Manso e manso, entrou-lhe o amor no corao. Quando deu
por ele, quis expeli-lo para que entre ele e Fortunato no houvesse outro lao que o da
amizade; mas no pde. Pde apenas tranc-lo; Maria Lusa compreendeu ambas as
coisas, a afeio e o silncio, mas no se deu por achada.
No comeo de outubro deu-se um incidente que desvendou ainda mais aos olhos do
mdico a situao da moa. Fortunato metera-se a estudar anatomia e fisiologia, e
ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar gatos e ces. Como os guinchos dos
animais atordoavam os doentes, mudou o laboratrio para casa, e a mulher, compleio
nervosa, teve de os sofrer. Um dia, porm, no podendo mais, foi ter com o mdico e
pediu-lhe que, como cousa sua, alcanasse do marido a
cessao de tais experincias.
 Mas a senhora mesma...
Maria Lusa acudiu, sorrindo:
 Ele naturalmente achar que sou criana. O que eu queria  que o senhor, como
mdico, lhe dissesse que isso me faz mal; e creia que faz...
Garcia alcanou prontamente que o outro acabasse com tais estudos. Se os foi fazer em
outra parte, ningum o soube, mas pode ser que sim. Maria Lusa agradeceu ao mdico,
tanto por ela como pelos animais, que no podia ver padecer. Tossia de quando em
quando; Garcia perguntou-lhe se tinha alguma coisa, ela respondeu que nada.
 Deixe ver o pulso.
 No tenho nada.
No deu o pulso, e retirou-se. Garcia ficou apreensivo. Cuidava, ao contrrio, que ela
podia ter alguma coisa, que era preciso observ-la e avisar o marido em tempo.
Dois dias depois,  exatamente o dia em que os vemos agora,  Garcia foi l jantar.
Na sala disseram-lhe que Fortunato estava no gabinete, e ele caminhou para ali; ia
chegando  porta, no momento em que Maria Lusa saa aflita.
 Que ? perguntou-lhe.
 O rato! O rato! exclamou a moa sufocada e afastando-se.
Garcia lembrou-se que na vspera ouvira ao Fortunado queixar-se de um rato, que lhe
levara um papel importante; mas estava longe de esperar o que viu. Viu Fortunato
sentado  mesa, que havia no centro do gabinete, e sobre a qual pusera um prato com
esprito de vinho. O lquido flamejava. Entre o polegar e o ndice da mo esquerda
segurava um barbante, de cuja ponta pendia o rato atado pela cauda. Na direita tinha
uma tesoura. No momento em que o Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das
patas; em seguida desceu o infeliz at a chama, rpido, para no mat-lo, e disps-se a
fazer o mesmo  terceira, pois j lhe havia cortado a primeira. Garcia estacou
horrorizado.
 Mate-o logo! disse-lhe.
 J vai.
E com um sorriso nico, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delcia
ntima das sensaes supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato, e fez pela
terceira vez o mesmo movimento at a chama. O miservel estorcia-se, guinchando,
ensangentado, chamuscado, e no acabava de morrer. Garcia desviou os olhos, depois
voltou-os novamente, e estendeu a mo para impedir que o suplcio continuasse, mas
no chegou a faz-lo, porque o diabo do homem impunha
medo, com toda aquela serenidade radiosa da fisionomia. Faltava cortar a ltima pata;
Fortunato cortou-a muito devagar, acompanhando a tesoura com os olhos; a pata caiu, e
ele ficou olhando para o rato meio cadver. Ao desc-lo pela quarta vez, at a chama,
deu ainda mais rapidez ao gesto, para salvar, se pudesse, alguns farrapos de vida.
Garcia, defronte, conseguia dominar a repugnncia do espetculo para fixar a cara do
homem. Nem raiva, nem dio; to-somente um vasto prazer, quieto e profundo, como
daria a outro a audio de uma bela sonata ou a vista de uma esttua divina, alguma
coisa parecida com a pura sensao esttica. Pareceu-lhe, e era verdade, que Fortunato
havia-o inteiramente esquecido. Isto posto, no estaria fingindo, e devia ser aquilo
mesmo. A chama ia morrendo, o rato podia ser que tivesse ainda
um resduo de vida, sombra de sombra; Fortunato aproveitou-o para cortar-lhe o focinho
e pela ltima vez chegar a carne ao fogo. Afinal deixou cair o cadver no prato, e
arredou de si toda essa mistura de chamusco e sangue.
Ao levantar-se deu com o mdico e teve um sobressalto. Ento, mostrou-se enraivecido
contra o animal, que lhe comera o papel; mas a clera evidentemente era fingida.
"Castiga sem raiva", pensou o mdico, "pela necessidade de achar uma sensao de
prazer, que s a dor alheia lhe pode dar:  o segredo deste homem".
Fortunato encareceu a importncia do papel, a perda que lhe trazia, perda de tempo, 
certo, mas o tempo agora era-lhe preciosssimo. Garcia ouvia s, sem dizer nada, nem
lhe dar crdito. Relembrava os atos dele, graves e leves, achava a mesma explicao
para todos. Era a mesma troca das teclas da sensibilidade, um diletantismo sui generis,
uma reduo de Calgula.
Quando Maria Lusa voltou ao gabinete, da a pouco, o marido foi ter com ela, rindo,
pegou-lhe nas mos e falou-lhe mansamente:
 Fracalhona!
E voltando-se para o mdico:
 H de crer que quase desmaiou?
Maria Lusa defendeu-se a medo, disse que era nervosa e mulher; depois foi sentar-se 
janela com as suas ls e agulhas, e os dedos ainda trmulos, tal qual a vimos no comeo
desta histria. Ho de lembrar-se que, depois de terem falado de outras coisas, ficaram
calados os trs, o marido sentado e olhando para o teto, o mdico estalando as unhas.
Pouco depois foram jantar; mas o jantar no foi alegre. Maria Lusa cismava e tossia; o
mdico indagava de si mesmo se ela no estaria exposta a
algum excesso na companhia de tal homem. Era apenas possvel; mas o amor trocou-lhe
a possibilidade em certeza; tremeu por ela e cuidou de os vigiar.
Ela tossia, tossia, e no se passou muito tempo que a molstia no tirasse a mscara. Era
a tsica, velha dama insacivel, que chupa a vida toda, at deixar um bagao de ossos.
Fortunato recebeu a notcia como um golpe; amava deveras a mulher, a seu modo,
estava acostumado com ela, custava-lhe perd-la. No poupou esforos, mdicos,
remdios, ares, todos os recursos e todos os paliativos. Mas foi tudo vo. A doena era
mortal.
Nos ltimos dias, em presena dos tormentos supremos da moa, a ndole do marido
subjugou qualquer outra afeio. No a deixou mais; fitou o olho bao e frio naquela
decomposio lenta e dolorosa da vida, bebeu uma a uma as aflies da bela criatura,
agora magra e transparente, devorada de febre e minada de morte. Egosmo asprrimo,
faminto de sensaes, no lhe perdoou um s minuto de agonia, nem lhos pagou com
uma s lgrima, pblica ou ntima. S quando ela expirou,  que ele ficou aturdido.
Voltando a si, viu que estava outra vez s.
De noite, indo repousar uma parenta de Maria Lusa, que a ajudara a morrer, ficaram na
sala Fortunato e Garcia, velando o cadver, ambos pensativos; mas o prprio marido
estava fatigado, o mdico disse-lhe que repousasse um pouco.
 V descansar, passe pelo sono uma hora ou duas: eu irei depois.
Fortunato saiu, foi deitar-se no sof da saleta contgua, e adormeceu logo. Vinte minutos
depois acordou, quis dormir outra vez, cochilou alguns minutos, at que se levantou e
voltou  sala. Caminhava nas pontas dos ps para no acordar a parenta, que dormia
perto. Chegando  porta, estacou assombrado.
Garcia tinha-se chegado ao cadver, levantara o leno e contemplara por alguns
instantes as feies defuntas. Depois, como se a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se
e beijou-a na testa. Foi nesse momento que Fortunato chegou  porta. Estacou
assombrado; no podia ser o beijo da amizade, podia ser o eplogo de um livro adltero.
No tinha cimes, note-se; a natureza comp -lo de maneira que lhe no deu cimes nem
inveja, mas dera-lhe vaidade, que no  menos cativa ao ressentimento.
Olhou assombrado, mordendo os beios.
Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadver; mas ento no pde
mais. O beijo rebentou em soluos, e os olhos no puderam conter as lgrimas, que
vieram em borbotes, lgrimas de amor calado, e irremedivel desespero. Fortunato, 
porta, onde ficara, saboreou tranqilo essa exploso de dor moral que foi longa, muito
longa, deliciosamente longa.
Vrias Histrias
Machado de Assis
Trio em L Menor
I ADAGIO CANTABILE
MARIA REGINA acompanhou a av at o quarto, despediu-se e recolheu-se ao seu. A
mucama que a servia, apesar da familiaridade que existia entre elas, no pde arrancarlhe
uma palavra, e saiu, meia hora depois, dizendo que Nhanh estava muito sria. Logo
que ficou s, Maria Regina sentou-se ao p da cama, com as pernas estendidas, os ps
cruzados, pensando.
A verdade pede que diga que esta moa pensava amorosamente em dous homens ao
mesmo tempo, um de vinte e sete anos, Maciel  outro de cinqenta, Miranda.
Convenho que  abominvel, mas no posso alterar a feio das cousas, no posso negar
que se os dous homens esto namorados dela, ela no o est menos de ambos. Uma
esquisita, em suma; ou, para falar como as suas amigas de colgio, uma desmiolada.
Ningum lhe nega corao excelente e cla ro esprito; mas a imaginao  que  o mal,
uma imaginao adusta e cobiosa, insacivel principalmente, avessa  realidade,
sobrepondo s cousas da vida outras de si mesma; da curiosidades irremediveis.
A visita dos dous homens (que a namoravam de pouco) durou cerca de uma hora. Maria
Regina conversou alegremente com eles, e tocou ao piano uma pea clssica, uma
sonata, que fez a av cochilar um pouco. No fim discutiram msica. Miranda disse
cousas pertinentes acerca da msica moderna e antiga; a av tinha a religio de Bellini e
da Norma, e falou das toadas do seu tempo, agradveis, saudosas e principalmente
claras. A neta ia com as opinies do Miranda; Maciel concordou polidamente com
todos.
Ao p da cama, Maria Regina reconstrua agora tudo isso, a visita, a conversao, a
msica, o debate, os modos de ser de um e de outro, as palavras do Miranda e os belos
olhos do Maciel. Eram onze horas, a nica luz do quarto era a lamparina, tudo
convidava ao sonho e ao devaneio. Maria Regina,  fora de recompor a noite, viu ali
dous homens ao p dela, ouviu-os, e conversou com eles durante uma poro de
minutos, trinta ou quarenta, ao som da mesma sonata tocada por ela: l, l, l...
II ALLEGRO MA NON TROPPO
NO DIA SEGUINTE a av e a neta foram visitar uma amiga na Tijuca. Na volta a
carruagem derribou um menino que atravessava a rua, correndo. Uma pessoa que viu
isto, atirou-se aos cavalos e, com perigo de si prpria, conseguiu det-los e salvar a
criana, que apenas ficou ferida e desmaiada. Gente, tumulto, a me do pequeno acudiu
em lgrimas. Maria Regina desceu do carro e acompanhou o ferido at  casa da me,
que era ali ao p.
Quem conhece a tcnica do destino adivinha logo que a pessoa que salvou o pequeno
foi um dos dous homens da outra noite; foi o Maciel. Feito o primeiro curativo, o
Maciel acompanhou a moa at  carruagem e aceitou o lugar que a av lhe ofereceu at
a cidade. Estavam no Engenho Velho. Na carruagem  que Maria Regina viu que o
rapaz trazia a mo ensangentada. A av inquiria a mido se o pequeno estava muito
mal, se escaparia; Maciel disse-lhe que os ferimentos eram leves. Depois contou o
acidente: estava parado, na calada, esperando que passasse um tlburi, quando viu o
pequeno atravessar a rua por diante dos cavalos; compreendeu o perigo, e tratou de
conjur-lo, ou diminu-lo.
 Mas est ferido, disse a velha.
 Cousa de nada.
 Est, est, acudiu a moa; podia ter-se curado tambm.
 No  nada, teimou ele; foi um arranho, enxugo isto com o leno.
No teve tempo de tirar o leno; Maria Regina ofereceu-lhe o seu. Maciel, comovido,
pegou nele, mas hesitou em macul-lo. V, v, dizia-lhe ela; e vendo-o acanhado, tiroulho
e enxugou-lhe, ela mesma, o sangue da mo.
A mo era bonita, to bonita como o dono; mas parece que ele estava menos
preocupado com a ferida da mo que com o amarrotado dos punhos. Conversando,
olhava para eles disfaradamente e escondia-os. Maria Regina no via nada, via-o a ele,
via-lhe principalmente a ao que acabava de praticar, e que lhe punha uma aurola.
Compreendeu que a natureza generosa saltara por cima dos hbitos pausados e elegantes
do moo, para arrancar  morte uma criana que ele nem conhecia. Falaram do assunto
at a porta da casa delas; Maciel recusou, agradecendo, a carruagem que elas lhe
ofereciam, e despediu-se at  noite.
 At a noite! repetiu Maria Regina.
 Esperou-o ansiosa. Ele chegou, por volta de oito horas, trazendo uma fita preta
enrolada na mo, e pediu desculpa de vir assim; mas disseram-lhe que era bom pr
alguma coisa e obedeceu.
 Mas est melhor!
 Estou bom, no foi nada.
 Venha, venha, disse-lhe a av, do outro lado da sala. Sente-se aqui ao p de mim: o
senhor  um heri.
Maciel ouvia sorrindo. Tinha passado o mpeto generoso, comeava a receber os
dividendos do sacrifcio. O maior deles era a admirao de Maria Regina, to ingnua e
tamanha, que esquecia a av e a sala. Maciel sentara-se ao lado da velha. Maria Regina
defronte de ambos. Enquanto a av, restabelecida do susto, contava as comoes que
padecera, a princpio sem saber de nada, depois imaginando que a criana teria morrido,
os dous olhavam um para o outro, discretamente, e afinal
esquecidamente. Maria Regina perguntava a si mesma onde acharia melhor noivo. A
av, que no era mope, achou a contemplao excessiva, e falou de outra coisa; pediu
ao Maciel algumas notcias de sociedade.
III ALLEGRO APPASSIONATO
MACIEL era homem, como ele mesmo dizia em francs, trs rpandu; sacou da
algibeira uma poro de novidades midas e interessantes. A maior de todas foi a de
estar desfeito o casamento de certa viva.
 No me diga isso! exclamou a av. E ela?
 Parece que foi ela mesma que o desfez: o certo  que esteve anteontem no baile,
danou e conversou com muita animao. Oh! abaixo da notcia, o que fez mais
sensao em mim foi o colar que ela levava, magnfico...
 Com uma cruz de brilhantes? perguntou a velha. Conheo;  muito bonito.
 No, no  esse.
Maciel conhecia o da cruz, que ela levara  casa de um Mascarenhas; no era esse. Este
outro ainda h poucos dias estava na loja do Resende, uma cousa linda. E descreveu-o
todo, nmero, disposio e facetado das pedras; concluiu dizendo que foi a jia da noite.
 Para tanto luxo era melhor casar, ponderou maliciosamente a av.
 Concordo que a fortuna dela no d para isso. Ora, espere! Vou amanh, ao Resende,
por curiosidade, saber o preo por que o vendeu. No foi barato, no podia ser barato.
 Mas por que  que se desfez o casamento?
 No pude saber; mas tenho de jantar sbado com o Venancinho Corra, e ele contame
tudo. Sabe que ainda  parente dela? Bom rapaz; est inteiramente brigado com o
baro...
A av no sabia da briga; Maciel contou-lha de princpio a fim, com todas as suas
causas e agravantes. A ltima gota no clice foi um dito  mesa de jogo, uma aluso ao
defeito do Venancinho, que era canhoto. Contaram-lhe isto, e ele rompeu inteiramente
as relaes com o baro. O bonito  que os parceiros do baro acusaram-se uns aos
outros de terem ido contar as palavras deste. Maciel declarou que era regra sua no
repetir o que ouvia  mesa do jogo, porque  lugar em que h certa
franqueza.
Depois fez a estatstica da rua do Ouvidor, na vspera, entre uma e quatro horas da
tarde. Conhecia os nomes das fazendas e todas as cores modernas. Citou as principais
toilettes do dia. A primeira foi a de Mme. Pena Maia, baiana distinta, trs pschutt. A
segunda foi a de Mlle. Pedrosa, filha de um desembargador de So Paulo, adorable. E
apontou mais trs, comparou depois as cinco, deduziu e concluiu. s vezes esquecia-se
e falava francs; pode mesmo ser que no fosse esquecimento, mas propsito; conhecia
bem a lngua, exprimia-se com facilidade e formulara um dia este axioma
etnolgico  que h parisienses em toda a parte. De caminho, explicou um problema de
voltarete.
 A senhora tem cinco trunfos de espadilha e manilha, tem rei e dama de copas...
Maria Regina ia descambando da admirao no fastio; agarrava-se aqui e ali,
contemplava a figura moa do Maciel, recordava a bela ao daquele dia, mas ia sempre
escorregando; o fastio no tardava a absorv-la. No havia remdio. Ento recorreu a
um singular expediente. Tratou de combinar os dous homens, o presente com o ausente,
olhando para um, e escutando o outro de memria; recurso violento e doloroso, mas to
eficaz, que ela pde contemplar por algum tempo uma
criatura perfeita e nica.
Nisto apareceu o outro, o prprio Miranda. Os dois homens cumprimentaram-se
friamente; Maciel demorou-se ainda uns dez minutos e saiu.
Miranda ficou. Era alto e seco, fisionomia dura e gelada. Tinha o rosto cansado, os
cinqenta anos confessavam-se tais, nos cabelos grisalhos, nas rugas e na pele. S os
olhos continham alguma cousa menos caduca. Eram pequenos, e escondiam-se por
baixo da vasta arcada do sobrolho; mas l, ao fundo, quando no estavam pensativos,
centelhavam de mocidade. A av perguntou-lhe, logo que Maciel saiu, se j tinha
notcia do acidente do Engenho Velho, e contou-lho com grandes
encarecimentos, mas o outro ouvia tudo sem admirao nem inveja.
 No acha sublime? perguntou ela, no fim.
 Acho que ele salvou talvez a vida a um desalmado que algum dia, sem o conhecer,
pode meter-lhe uma faca na barriga.
 Oh! protestou a av.
 Ou mesmo conhecendo, emendou ele.
 No seja mau, acudiu Maria Regina; o senhor era bem capaz de fazer o mesmo, se ali
estivesse.
Miranda sorriu de um modo sardnico. O riso acentuou-lhe a dureza da fisionomia.
Egosta e mau, este Miranda primava por um lado nico: espiritualmente, era completo.
Maria Regina achava nele o tradutor maravilhoso e fiel de uma poro de idias que
lutavam dentro dela, vagamente, sem forma ou expresso. Era engenhoso e fino e at
profundo, tudo sem pedantice, e sem meter-se por matos cerrados, antes quase sempre
na plancie das conversaes ordinrias; to certo  que as cousas
valem pelas idias que nos sugerem. Tinham ambos os mesmos gostos artsticos;
Miranda estudara direito para obedecer ao pai; a sua vocao era a msica.
A av, prevendo a sonata, aparelhou a alma para alguns cochilos. Demais, no podia
admitir tal homem no corao; achava-o aborrecido e antiptico. Calou-se no fim de
alguns minutos. A sonata veio, no meio de uma conversao que Maria Regina achou
deleitosa, e no veio seno porque ele lhe pediu que tocasse; ele ficaria de bom grado a
ouvi-la.
 Vov, disse ela, agora h de ter pacincia...
Miranda aproximou-se do piano. Ao p das arandelas, a cabea dele mostrava toda a
fadiga dos anos, ao passo que a expresso da fisionomia era muito mais de pedra e fel.
Maria Regina notou a graduao, e tocava sem olhar para ele; difcil cousa, porque, se
ele falava, as palavras entravam-lhe tanto pela alma, que a moa insensivelmente
levantava os olhos, e dava logo com um velho ruim. Ento  que se lembrava do Maciel,
dos seus anos em flor, da fisionomia franca, meiga e boa, e afinal
da ao daquele dia. Comparao to cruel para o Miranda, como fora para o Maciel o
cotejo dos seus espritos. E a moa recorreu ao mesmo expediente. Completou um pelo
outro; escutava a este com o pensamento naquele; e a msica ia ajudando a fico,
indecisa a princpio, mas logo viva e acabada. Assim Titnia, ouvindo namorada a
cantiga do tecelo, admirava-lhe as belas formas, sem advertir que a cabea era de
burro.
IV MINUETTO
DEZ, VINTE, trinta dias passaram depois daquela noite, e ainda mais vinte, e depois
mais trinta. No h cronologia certa; melhor  ficar no vago. A situao era a mesma.
Era a mesma insuficincia individual dos dous homens, e o mesmo complemento ideal
por parte dela; da um terceiro homem, que ela no conhecia.
Maciel e Miranda desconfiavam um do outro, detestavam-se a mais e mais, e padeciam
muito, Miranda principalmente, que era paixo da ltima hora. Afinal acabaram
aborrecendo a moa. Esta viu-os ir pouco a pouco. A esperana ainda os fez relapsos,
mas tudo morre, at a esperana, e eles saram para nunca mais. As noites foram
passando, passando... Maria Regina compreendeu que estava acabado.
A noite em que se persuadiu bem disto foi uma das mais belas daquele ano, clara,
fresca, luminosa. No havia lua; mas nossa amiga aborrecia a lua,  no se sabe bem
por que,  ou porque brilha de emprstimo, ou porque toda a gente a admira, e pode ser
que por ambas as razes. Era uma das suas esquisitices. Agora outra.
Tinha lido de manh, em uma notcia de jornal, que h estrelas duplas, que nos parecem
um s astro. Em vez de ir dormir, encostou-se  janela do quarto, olhando para o cu, a
ver se descobria alguma delas; baldado esforo. No a descobrindo no cu, procurou-a
em si mesma, fechou os olhos para imaginar o fenmeno; astronomia fcil e barata, mas
no sem risco. O pior que ela tem  pr os astros ao alcance da mo; por modo que, se a
pessoa abre os olhos e eles continuam a fulgurar l em
cima, grande  o desconsolo e certa a blasfmia. Foi o que sucedeu aqui. Maria Regina
viu dentro de si a estrela dupla e nica. Separadas, valiam bastante; juntas, davam um
astro esplndido. E ela queria o astro esplndido. Quando abriu os olhos e viu que o
firmamento ficava to alto, concluiu que a criao era um livro falho e incorreto, e
desesperou.
No muro da chcara viu ento uma cousa parecida com dous olhos de gato. A princpio
teve medo, mas advertiu logo que no era mais que a reproduo externa dos dous
astros que ela vira em si mesma e que tinham ficado impressos na retina. A retina desta
moa fazia refletir c fora todas as suas imaginaes. Refrescando o vento recolheu-se,
fechou a janela e meteu-se na cama.
No dormiu logo, por causa de duas rodelas de opala que estavam incrustadas na
parede; percebendo que era ainda uma iluso, fechou os olhos e dormiu. Sonhou que
morria, que a alma dela, levada aos ares, voava na direo de uma bela estrela dupla. O
astro desdobrou-se, e ela voou para uma das duas pores; no achou ali a sensao
primitiva e despenhou-se para outra; igual resultado, igual regresso, e ei-la a andar de
uma para outra das duas estrelas separadas. Ento uma voz surgiu do abismo, com
palavras que ela no entendeu.
  a tua pena, alma curiosa de perfeio; a tua pena  oscilar por toda a eternidade
entre dois astros incompletos, ao som desta velha sonata do absoluto: l, l, l...
Trio em L Menor
I ADAGIO CANTABILE
MARIA REGINA acompanhou a av at o quarto, despediu-se e recolheu-se ao seu. A
mucama que a servia, apesar da familiaridade que existia entre elas, no pde arrancarlhe
uma palavra, e saiu, meia hora depois, dizendo que Nhanh estava muito sria. Logo
que ficou s, Maria Regina sentou-se ao p da cama, com as pernas estendidas, os ps
cruzados, pensando.
A verdade pede que diga que esta moa pensava amorosamente em dous homens ao
mesmo tempo, um de vinte e sete anos, Maciel  outro de cinqenta, Miranda.
Convenho que  abominvel, mas no posso alterar a feio das cousas, no posso negar
que se os dous homens esto namorados dela, ela no o est menos de ambos. Uma
esquisita, em suma; ou, para falar como as suas amigas de colgio, uma desmiolada.
Ningum lhe nega corao excelente e cla ro esprito; mas a imaginao  que  o mal,
uma imaginao adusta e cobiosa, insacivel principalmente, avessa  realidade,
sobrepondo s cousas da vida outras de si mesma; da curiosidades irremediveis.
A visita dos dous homens (que a namoravam de pouco) durou cerca de uma hora. Maria
Regina conversou alegremente com eles, e tocou ao piano uma pea clssica, uma
sonata, que fez a av cochilar um pouco. No fim discutiram msica. Miranda disse
cousas pertinentes acerca da msica moderna e antiga; a av tinha a religio de Bellini e
da Norma, e falou das toadas do seu tempo, agradveis, saudosas e principalmente
claras. A neta ia com as opinies do Miranda; Maciel concordou polidamente com
todos.
Ao p da cama, Maria Regina reconstrua agora tudo isso, a visita, a conversao, a
msica, o debate, os modos de ser de um e de outro, as palavras do Miranda e os belos
olhos do Maciel. Eram onze horas, a nica luz do quarto era a lamparina, tudo
convidava ao sonho e ao devaneio. Maria Regina,  fora de recompor a noite, viu ali
dous homens ao p dela, ouviu-os, e conversou com eles durante uma poro de
minutos, trinta ou quarenta, ao som da mesma sonata tocada por ela: l, l, l...
II ALLEGRO MA NON TROPPO
NO DIA SEGUINTE a av e a neta foram visitar uma amiga na Tijuca. Na volta a
carruagem derribou um menino que atravessava a rua, correndo. Uma pessoa que viu
isto, atirou-se aos cavalos e, com perigo de si prpria, conseguiu det-los e salvar a
criana, que apenas ficou ferida e desmaiada. Gente, tumulto, a me do pequeno acudiu
em lgrimas. Maria Regina desceu do carro e acompanhou o ferido at  casa da me,
que era ali ao p.
Quem conhece a tcnica do destino adivinha logo que a pessoa que salvou o pequeno
foi um dos dous homens da outra noite; foi o Maciel. Feito o primeiro curativo, o
Maciel acompanhou a moa at  carruagem e aceitou o lugar que a av lhe ofereceu at
a cidade. Estavam no Engenho Velho. Na carruagem  que Maria Regina viu que o
rapaz trazia a mo ensangentada. A av inquiria a mido se o pequeno estava muito
mal, se escaparia; Maciel disse-lhe que os ferimentos eram leves. Depois contou o
acidente: estava parado, na calada, esperando que passasse um tlburi, quando viu o
pequeno atravessar a rua por diante dos cavalos; compreendeu o perigo, e tratou de
conjur-lo, ou diminu-lo.
 Mas est ferido, disse a velha.
 Cousa de nada.
 Est, est, acudiu a moa; podia ter-se curado tambm.
 No  nada, teimou ele; foi um arranho, enxugo isto com o leno.
No teve tempo de tirar o leno; Maria Regina ofereceu-lhe o seu. Maciel, comovido,
pegou nele, mas hesitou em macul-lo. V, v, dizia-lhe ela; e vendo-o acanhado, tiroulho
e enxugou-lhe, ela mesma, o sangue da mo.
A mo era bonita, to bonita como o dono; mas parece que ele estava menos
preocupado com a ferida da mo que com o amarrotado dos punhos. Conversando,
olhava para eles disfaradamente e escondia-os. Maria Regina no via nada, via-o a ele,
via-lhe principalmente a ao que acabava de praticar, e que lhe punha uma aurola.
Compreendeu que a natureza generosa saltara por cima dos hbitos pausados e elegantes
do moo, para arrancar  morte uma criana que ele nem conhecia. Falaram do assunto
at a porta da casa delas; Maciel recusou, agradecendo, a carruagem que elas lhe
ofereciam, e despediu-se at  noite.
 At a noite! repetiu Maria Regina.
 Esperou-o ansiosa. Ele chegou, por volta de oito horas, trazendo uma fita preta
enrolada na mo, e pediu desculpa de vir assim; mas disseram-lhe que era bom pr
alguma coisa e obedeceu.
 Mas est melhor!
 Estou bom, no foi nada.
 Venha, venha, disse-lhe a av, do outro lado da sala. Sente-se aqui ao p de mim: o
senhor  um heri.
Maciel ouvia sorrindo. Tinha passado o mpeto generoso, comeava a receber os
dividendos do sacrifcio. O maior deles era a admirao de Maria Regina, to ingnua e
tamanha, que esquecia a av e a sala. Maciel sentara-se ao lado da velha. Maria Regina
defronte de ambos. Enquanto a av, restabelecida do susto, contava as comoes que
padecera, a princpio sem saber de nada, depois imaginando que a criana teria morrido,
os dous olhavam um para o outro, discretamente, e afinal
esquecidamente. Maria Regina perguntava a si mesma onde acharia melhor noivo. A
av, que no era mope, achou a contemplao excessiva, e falou de outra coisa; pediu
ao Maciel algumas notcias de sociedade.
III ALLEGRO APPASSIONATO
MACIEL era homem, como ele mesmo dizia em francs, trs rpandu; sacou da
algibeira uma poro de novidades mi das e interessantes. A maior de todas foi a de
estar desfeito o casamento de certa viva.
 No me diga isso! exclamou a av. E ela?
 Parece que foi ela mesma que o desfez: o certo  que esteve anteontem no baile,
danou e conversou com muita animao. Oh! abaixo da notcia, o que fez mais
sensao em mim foi o colar que ela levava, magnfico...
 Com uma cruz de brilhantes? perguntou a velha. Conheo;  muito bonito.
 No, no  esse.
Maciel conhecia o da cruz, que ela levara  casa de um Mascarenhas; no era esse. Este
outro ainda h poucos dias estava na loja do Resende, uma cousa linda. E descreveu-o
todo, nmero, disposio e facetado das pedras; concluiu dizendo que foi a jia da noite.
 Para tanto luxo era melhor casar, ponderou maliciosamente a av.
 Concordo que a fortuna dela no d para isso. Ora, espere! Vou amanh, ao Resende,
por curiosidade, saber o preo por que o vendeu. No foi barato, no podia ser barato.
 Mas por que  que se desfez o casamento?
 No pude saber; mas tenho de jantar sbado com o Venancinho Corra, e ele contame
tudo. Sabe que ainda  parente dela? Bom rapaz; est inteiramente brigado com o
baro...
A av no sabia da briga; Maciel contou-lha de princpio a fim, com todas as suas
causas e agravantes. A ltima gota no clice foi um dito  mesa de jogo, uma aluso ao
defeito do Venancinho, que era canhoto. Contaram-lhe isto, e ele rompeu inteiramente
as relaes com o baro. O bonito  que os parceiros do baro acusaram-se uns aos
outros de terem ido contar as palavras deste. Maciel declarou que era regra sua no
repetir o que ouvia  mesa do jogo, porque  lugar em que h certa
franqueza.
Depois fez a estatstica da rua do Ouvidor, na vspera, entre uma e quatro horas da
tarde. Conhecia os nomes das fazendas e todas as cores modernas. Citou as principais
toilettes do dia. A primeira foi a de Mme. Pena Maia, baiana distinta, trs pschutt. A
segunda foi a de Mlle. Pedrosa, filha de um desembargador de So Paulo, adorable. E
apontou mais trs, comparou depois as cinco, deduziu e concluiu. s vezes esquecia -se
e falava francs; pode mesmo ser que no fosse esquecimento, mas propsito; conhecia
bem a lngua, exprimia-se com facilidade e formulara um dia este axioma
etnolgico  que h parisienses em toda a parte. De caminho, explicou um problema de
voltarete.
 A senhora tem cinco trunfos de espadilha e manilha, tem rei e dama de copas...
Maria Regina ia descambando da admirao no fastio; agarrava-se aqui e ali,
contemplava a figura moa do Maciel, recordava a bela ao daquele dia, mas ia sempre
escorregando; o fastio no tardava a absorv-la. No havia remdio. Ento recorreu a
um singular expediente. Tratou de combinar os dous homens, o presente com o ausente,
olhando para um, e escutando o outro de memria; recurso violento e doloroso, mas to
eficaz, que ela pde contemplar por algum tempo uma
criatura perfeita e nica.
Nisto apareceu o outro, o prprio Miranda. Os dois homens cumprimentaram-se
friamente; Maciel demorou-se ainda uns dez minutos e saiu.
Miranda ficou. Era alto e seco, fisionomia dura e gelada. Tinha o rosto cansado, os
cinqenta anos confessavam-se tais, nos cabelos grisalhos, nas rugas e na pele. S os
olhos continham alguma cousa menos caduca. Eram pequenos, e escondiam-se por
baixo da vasta arcada do sobrolho; mas l, ao fundo, quando no estavam pensativos,
centelhavam de mocidade. A av perguntou-lhe, logo que Maciel saiu, se j tinha
notcia do acidente do Engenho Velho, e contou-lho com grandes
encarecimentos, mas o outro ouvia tudo sem admirao nem inveja.
 No acha sublime? perguntou ela, no fim.
 Acho que ele salvou talvez a vida a um desalmado que algum dia, sem o conhecer,
pode meter-lhe uma faca na barriga.
 Oh! protestou a av.
 Ou mesmo conhecendo, emendou ele.
 No seja mau, acudiu Maria Regina; o senhor era bem capaz de fazer o mesmo, se ali
estivesse.
Miranda sorriu de um modo sardnico. O riso acentuou-lhe a dureza da fisionomia.
Egosta e mau, este Miranda primava por um lado nico: espiritualmente, era completo.
Maria Regina achava nele o tradutor maravilhoso e fiel de uma poro de idias que
lutavam dentro dela, vagamente, sem forma ou expresso. Era engenhoso e fino e at
profundo, tudo sem pedantice, e sem meter-se por matos cerrados, antes quase sempre
na plancie das conversaes ordinrias; to certo  que as cousas
valem pelas idias que nos sugerem. Tinham ambos os mesmos gostos artsticos;
Miranda estudara direito para obedecer ao pai; a sua vocao era a msica.
A av, prevendo a sonata, aparelhou a alma para alguns cochilos. Demais, no podia
admitir tal homem no corao; achava-o aborrecido e antiptico. Calou-se no fim de
alguns minutos. A sonata veio, no meio de uma conversao que Maria Regina achou
deleitosa, e no veio seno porque ele lhe pediu que tocasse; ele ficaria de bom grado a
ouvi-la.
 Vov, disse ela, agora h de ter pacincia...
Miranda aproximou-se do piano. Ao p das arandelas, a cabea dele mostrava toda a
fadiga dos anos, ao passo que a expresso da fisionomia era muito mais de pedra e fel.
Maria Regina notou a graduao, e tocava sem olhar para ele; difcil cousa, porque, se
ele falava, as palavras entravam-lhe tanto pela alma, que a moa insensivelmente
levantava os olhos, e dava logo com um velho ruim. Ento  que se lembrava do Maciel,
dos seus anos em flor, da fisionomia franca, meiga e boa, e afinal
da ao daquele dia. Comparao to cruel para o Miranda, como fora para o Maciel o
cotejo dos seus espritos. E a moa recorreu ao mesmo expediente. Completou um pelo
outro; escutava a este com o pensamento naquele; e a msica ia ajudando a fico,
indecisa a princpio, mas logo viva e acabada. Assim Titnia, ouvindo namorada a
cantiga do tecelo, admirava-lhe as belas formas, sem advertir que a cabea era de
burro.
IV MINUETTO
DEZ, VINTE, trinta dias passaram depois daquela noite, e ainda mais vinte, e depois
mais trinta. No h cronologia certa; melhor  ficar no vago. A situao era a mesma.
Era a mesma insuficincia individual dos dous homens, e o mesmo complemento ideal
por parte dela; da um terceiro homem, que ela no conhecia.
Maciel e Miranda desconfiavam um do outro, detestavam-se a mais e mais, e padeciam
muito, Miranda principalmente, que era paixo da ltima hora. Afinal acabaram
aborrecendo a moa. Esta viu-os ir pouco a pouco. A esperana ainda os fez relapsos,
mas tudo morre, at a esperana, e eles saram para nunca mais. As noites foram
passando, passando... Maria Regina compreendeu que estava acabado.
A noite em que se persuadiu bem disto foi uma das mais belas daquele ano, clara,
fresca, luminosa. No havia lua; mas nossa amiga aborrecia a lua,  no se sabe bem
por que,  ou porque brilha de emprstimo, ou porque toda a gente a admira, e pode ser
que por ambas as razes. Era uma das suas esquisitices. Agora outra.
Tinha lido de manh, em uma notcia de jornal, que h estrelas duplas, que nos parecem
um s astro. Em vez de ir dormir, encostou-se  janela do quarto, olhando para o cu, a
ver se descobria alguma delas; baldado esforo. No a descobrindo no cu, procurou-a
em si mesma, fechou os olhos para imaginar o fenmeno; astronomia fcil e barata, mas
no sem risco. O pior que ela tem  pr os astros ao alcance da mo; por modo que, se a
pessoa abre os olhos e eles continuam a fulgurar l em
cima, grande  o desconsolo e certa a blasfmia. Foi o que sucedeu aqui. Maria Regina
viu dentro de si a estrela dupla e nica. Separadas, valiam bastante; juntas, davam um
astro esplndido. E ela queria o astro esplndido. Quando abriu os olhos e viu que o
firmamento ficava to alto, concluiu que a criao era um livro falho e incorreto, e
desesperou.
No muro da chcara viu ento uma cousa parecida com dous olhos de gato. A princpio
teve medo, mas advertiu logo que no era mais que a reproduo externa dos dous
astros que ela vira em si mesma e que tinham ficado impressos na retina. A retina desta
moa fazia refletir c fora todas as suas imaginaes. Refrescando o vento recolheu-se,
fechou a janela e meteu-se na cama.
No dormiu logo, por causa de duas rodelas de opala que estavam incrustadas na
parede; percebendo que era ainda uma iluso, fechou os olhos e dormiu. Sonhou que
morria, que a alma dela, levada aos ares, voava na direo de uma bela estrela dupla. O
astro desdobrou-se, e ela voou para uma das duas pores; no achou ali a sensao
primitiva e despenhou-se para outra; igual resultado, igual regresso, e ei-la a andar de
uma para outra das duas estrelas separadas. Ento uma voz surgiu do abismo, com
palavras que ela no entendeu.
  a tua pena, alma curiosa de perfeio; a tua pena  oscilar por toda a eternidade
entre dois astros incompletos, ao som desta velha sonata do absoluto: l, l, l...
Ado e Eva
UMA SENHORA de engenho, na Bahia, pelos anos de mil setecentos e tantos, tendo
algumas pessoas ntimas  mesa, anunciou a um dos convivas, grande lambareiro, um
certo doce particular. Ele quis logo saber o que era; a dona da casa chamou-lhe curioso.
No foi preciso mais; da a pouco estavam todos discutindo a curiosidade, se era
masculina ou feminina, e se a responsabilidade da perda do paraso devia caber a Eva ou
a Ado. As senhoras diziam que a Ado, os homens que a Eva, menos o juiz-de-fora,
que no dizia nada, e Frei Bento, carmelita, que interrogado pela dona da casa, D.
Leonor:
 Eu, senhora minha, toco viola, respondeu sorrindo; e no mentia, porque era insigne
na viola e na harpa, no menos que na teologia.
Consultado, o juiz-de-fora respondeu que no havia matria para opinio; porque as
cousas no paraso terrestre passaram-se de modo diferente do que est contado no
primeiro livro do Pentateuco, que  apcrifo. Espanto geral, riso do carmelita que
conhecia o juiz-de-fora como um dos mais piedosos sujeitos da cidade, e sabia que era
tambm jovial e inventivo, e at amigo da pulha, uma vez que fosse curial e delicada;
nas cousas graves, era gravssimo.
 Frei Bento, disse-lhe D. Leonor, faa calar o Sr. Veloso.
 No o fao calar, acudiu o frade, porque sei que de sua boca h de sair tudo com boa
significao.
 Mas a Escritura... ia dizendo o mestre-de-campo Joo Barbosa.
 Deixemos em paz a Escritura, interrompeu o carmelita. Naturalmente, o Sr. Veloso
conhece outros livros...
 Conheo o autntico, insistiu o juiz-de-fora, recebendo o prato de doce que D.
Leonor lhe oferecia, e estou pronto a dizer o que sei, se no mandam o contrrio.
 V l, diga.
 Aqui est como as cousas se passaram. Em primeiro lugar, no foi Deus que criou o
mundo, foi o Diabo...
 Cruz! exclamaram as senhoras.
 No diga esse nome, pediu D. Leonor.
 Sim, parece que... ia intervindo frei Bento.
 Seja o Tinhoso. Foi o Tinhoso que criou o mundo; mas Deus, que lhe leu no
pensamento, deixou-lhe as mos livres, cuidando somente de corrigir ou atenuar a obra,
a fim de que ao prprio mal no ficasse a desesperana da salvao ou do benefcio. E a
ao divina mostrou-se logo porque, tendo o Tinhoso criado as trevas, Deus criou a luz,
e assim se fez o primeiro dia. No segundo dia, em que foram criadas as guas, nasceram
as tempestades e os furaces; mas as brisas da tarde baixaram do pensamento divino.
No terceiro dia foi feita a terra, e brotaram dela os vegetais, mas s os vegetais sem
fruto nem flor, os espinhosos, as ervas que matam como a cicuta; Deus, porm, criou as
rvores frutferas e os vegetais que nutrem ou encantam. E tendo o Tinhoso cavado
abismos e cavernas na terra, Deus fez o sol, a lua e as estrelas; tal foi a obra do quarto
dia. No quinto foram criados os animais da terra, da gua e do ar. Chegamos ao sexto
dia, e aqui peo que redobrem de ateno.
No era preciso pedi-lo; toda a mesa olhava para ele, curiosa.
Veloso continuou dizendo que no sexto dia foi criado o homem, e logo depois a mulher;
ambos belos, mas sem alma, que o Tinhoso no podia dar, e s com ruins instintos.
Deus infundiu-lhes a alma, com um sopro, e com outro os sentimentos nobres, puros e
grandes. Nem parou nisso a misericrdia divina; fez brotar um jardim de delcias, e para
ali os conduziu, investindo-os na posse de tudo. Um e outro caram aos ps do Senhor,
derramando lgrimas de gratido. "Vivereis aqui", disse-lhe o Senhor, "e comereis de
todos os frutos, menos o desta rvore, que  a da cincia do Bem e do Mal."
Ado e Eva ouviram submissos; e ficando ss, olharam um para o outro, admirados; no
pareciam os mesmos. Eva, antes que Deus lhe infundisse os bons sentimentos, cogitava
de armar um lao a Ado, e Ado tinha mpetos de espanc-la. Agora, porm,
embebiam-se na contemplao um do outro, ou na vista da natureza, que era esplndida.
Nunca at ento viram ares to puros, nem guas to frescas, nem flores to lindas e
cheirosas, nem o sol tinha para nenhuma outra parte as mesmas
torrentes de claridade. E dando as mos percorreram tudo, a rir muito, nos primeiros
dias, porque at ento no sabiam rir. No tinham a sensao do tempo. No sentiam o
peso da ociosidade; viviam da contemplao. De tarde iam ver morrer o sol e nascer a
lua, e contar as estrelas, e raramente chegavam a mil, dava-lhes o sono e dormiam como
dous anjos.
Naturalmente, o Tinhoso ficou danado quando soube do caso. No podia ir ao paraso,
onde tudo lhe era avesso, nem chegaria a lutar com o Senhor; mas ouvindo um rumor no
cho entre folhas secas, olhou e viu que era a serpente. Chamou-a alvoroado.
 Vem c, serpe, fel rasteiro, peonha das peonhas, queres tu ser a embaixatriz de teu
pai, para reaver as obras de teu pai?
A serpente fez com a cauda um gesto vago, que parecia afirmativo; mas o Tinhoso deulhe
a fala, e ela respondeu que sim, que iria onde ele a mandasse,  s estrelas, se lhe
desse as asas da guia  ao mar, se lhe confiasse o segredo de respirar na gua  ao
fundo da terra, se lhe ensinasse o talento da formiga. E falava a maligna, falava  toa,
sem parar, contente e prdiga da lngua; mas o diabo interrompeu-a:
 Nada disso, nem ao ar, nem ao mar, nem  terra, mas to-somente ao jardim de
delcias, onde esto vivendo Ado e Eva.
 Ado e Eva?
 Sim, Ado e Eva.
 Duas belas criaturas que vimos andar h tempos, altas e direitas como palmeiras?
 Justamente.
 Oh! detesto-os. Ado e Eva? No, no, manda-me a outro lugar. Detesto-os! S a
vista deles faz-me padecer muito. No hs de querer que lhes faa mal...
  justamente para isso.
 Deveras? Ento vou; farei tudo o que quiseres, meu senhor e pai. Anda, dize
depressa o que queres que faa. Que morda o calcanhar de Eva? Morderei...
 No, interrompeu o Tinhoso. Quero justamente o contrrio. H no jardim uma
rvore, que  a da cincia do Bem e do Mal; eles no devem tocar nela, nem comer-lhe
os frutos. Vai, entra, enrosca-te na rvore, e quando um deles ali passar, chama-o de
mansinho, tira uma fruta e oferece-lhe, dizendo que  a mais saborosa fruta do mundo;
se te responder que no, tu insistirs, dizendo que  bastante com-la para conhecer o
prprio segredo da vida. Vai, vai...
 Vou; mas no falarei a Ado, falarei a Eva. Vou, vou. Que  o prprio segredo da
vida, no?
 Sim, o prprio segredo da vida. Vai, serpe das minhas entranhas, flor do mal, e se te
sares bem, juro que ters a melhor parte na criao, que  a parte humana, porque ters
muito calcanhar de Eva que morder, muito sangue de Ado em que deitar o vrus do
mal... Vai, vai, no te esqueas...
Esquecer? J levava tudo de cor. Foi, penetrou no paraso, rastejou at a rvore do Bem
e do Mal, enroscou-se e esperou. Eva apareceu da a pouco, caminhando sozinha,
esbelta, com a segurana de uma rainha que sabe que ningum lhe arrancar a coroa. A
serpente, mordida de inveja, ia chamar a peonha  lngua, mas advertiu que estava ali
s ordens do Tinhoso, e, com a voz de mel, chamou-a. Eva estremeceu.
 Quem me chama?
 Sou eu, estou comendo desta fruta...
 Desgraada,  a rvore do Bem e do Mal!
 Justamente. Conheo agora tudo, a origem das coisas e o enigma da vida. Anda,
come e ters um grande poder na terra.
 No, prfida!
 Nscia! Para que recusas o resplendor dos tempos? Escuta-me, faze o que te digo, e
sers legio, fundars cidades, e chamar-te-s Clepatra, Dido, Semramis; dars heris
do teu ventre, e sers Cornlia; ouvirs a voz do cu, e sers Dbora; cantars e sers
Safo. E um dia, se Deus quiser descer  terra, escolher as tuas entranhas, e chamar-tes
Maria de Nazar. Que mais queres tu? Realeza, poesia, divindade, tudo trocas por
uma estulta obedincia. Nem ser s isso. Toda a natureza te far bela e mais bela.
Cores das folhas verdes, cores do cu azul, vivas ou plidas, cores da noite, ho de
refletir nos teus olhos. A mesma noite, de porfia com o sol, vir brincar nos teus
cabelos. Os filhos do teu seio tecero para ti as melhores vestiduras, comporo os mais
finos aromas, e as aves te daro as suas plumas, e a terra as suas flores, tudo, tudo,
tudo...
Eva escutava impassvel; Ado chegou, ouviu-os e confirmou a resposta de Eva; nada
valia a perda do paraso, nem a cincia, nem o poder, nenhuma outra iluso da terra.
Dizendo isto, deram as mos um ao outro, e deixaram a serpente, que saiu pressurosa
para dar conta ao Tinhoso.
Deus, que ouvira tudo, disse a Gabriel:
 Vai, arcanjo meu, desce ao paraso terrestre, onde vivem Ado e Eva, e traze-os para
a eterna bem-aventurana, que mereceram pela repulsa s instigaes do Tinhoso.
E logo o arcanjo, pondo na cabea o elmo de diamante, que rutila como um milhar de
sis, rasgou instantaneamente os ares, chegou a Ado e Eva, e disse-lhes:
 Salve, Ado e Eva. Vinde comigo para o paraso, que merecestes pela repulsa s
instigaes do Tinhoso.
Um e outro, atnitos e confusos, curvaram o colo em sinal de obedincia; ento Gabriel
deu as mos a ambos, e os trs subiram at  estncia eterna, onde mirades de anjos os
esperavam, cantando:
 Entrai, entrai. A terra que deixastes, fica entregue s obras do Tinhoso, aos animais
ferozes e malficos, s plantas daninhas e peonhentas, ao ar impuro,  vida dos
pntanos. Reinar nela a serpente que rasteja, babuja e morde, nenhuma criatura igual a
vs por entre tanta abominao a nota da esperana e da piedade.
E foi assim que Ado e Eva entraram no cu, ao som de todas as ctaras, que uniam as
suas notas em um hino aos dous egressos da criao...
... Tendo acabado de falar, o juiz-de-fora estendeu o prato a D. Leonor para que lhe
desse mais doce, enquanto os outros convivas olhavam uns para os outros,
embasbacados; em vez de explicao, ouviam uma narrao enigmtica, ou, pelo
menos, sem sentido aparente. D. Leonor foi a primeira que falou:
 Bem dizia eu que o Sr. Veloso estava logrando a gente. No foi isso que lhe
pedimos, nem nada disso aconteceu, no , frei Bento?
 L o saber o Sr. juiz, respondeu o carmelita sorrindo.
E o juiz-de-fora, levando  boca uma colher de doce:
 Pensando bem, creio que nada disso aconteceu; mas tambm, D. Leonor, se tivesse
acontecido, no estaramos aqui saboreando este doce, que est, na verdade, uma cousa
primorosa.  ainda aquela sua antiga doceira de Itapagipe?
O Enfermeiro
PARECE-LHE ENTO que o que se deu comigo em 1860, pode entrar numa pgina de
livro? V que seja, com a condio nica de que no h de divulgar nada antes da minha
morte. No esperar muito, pode ser que oito dias, se no for menos; estou
desenganado.
Olhe, eu podia mesmo contar-lhe a minha vida inteira, em que h outras cousas
interessantes, mas para isso era preciso tempo, nimo e papel, e eu s tenho papel; o
nimo  frouxo, e o tempo assemelha-se  lamparina de madrugada. No tarda o sol do
outro dia, um sol dos diabos, impenetrvel como a vida. Adeus, meu caro senhor, leia
isto e queira-me bem; perdoe-me o que lhe parecer mau, e no maltrate muito a arruda,
se lhe no cheira a rosas. Pediu-me um documento humano, ei-lo aqui. No me pea
tambm o imprio do Gro-Mogol, nem a fotografia dos Macabeus; pea, porm, os
meus sapatos de defunto e no os dou a ningum mais.
J sabe que foi em 1860. No ano anterior, ali pelo ms de agosto, tendo eu quarenta e
dois anos, fiz-me telogo,  quero dizer, copiava os estudos de teologia de um padre de
Niteri, antigo companheiro de colgio, que assim me dava, delicadamente, casa, cama
e mesa. Naquele ms de agosto de 1859, recebeu ele uma carta de um vigrio de certa
vila do interior, perguntando se conhecia pessoa entendida, discreta e paciente, que
quisesse ir servir de enfermeiro ao coronel
Felisberto, mediante um bom ordenado. O padre falou-me, aceitei com ambas as mos,
estava j enfarado de copiar citaes latinas e frmulas eclesisticas. Vim  Corte
despedir-me de um irmo, e segui para a vila.
Chegando  vila, tive ms notcias do coronel. Era homem insuportvel, estrdio,
exigente, ningum o aturava, nem os prprios amigos. Gastava mais enfermeiros que
remdios. A dous deles quebrou a cara. Respondi que no tinha medo de gente s,
menos ainda de doentes; e depois de entender-me com o vigrio, que me confirmou as
notcias recebidas, e me recomendou mansido e caridade, segui para a residncia do
coronel.
Achei-o na varanda da casa estirado numa cadeira, bufando muito. No me recebeu mal.
Comeou por no dizer nada; ps em mim dous olhos de gato que observa; depois, uma
espcie de riso maligno alumiou-lhe as feies, que eram duras. Afinal, disse-me que
nenhum dos enfermeiros que tivera, prestava para nada, dormiam muito, eram
respondes e andavam ao faro das escravas; dous eram at gatunos!
 Voc  gatuno?
 No, senhor.
Em seguida, perguntou-me pelo nome: disse-lho e ele fez um gesto de espanto.
Colombo? No, senhor: Procpio Jos Gomes Valongo. Valongo? achou que no era
nome de gente, e props chamar-me to-somente Procpio, ao que respondi que estaria
pelo que fosse de seu agrado. Conto-lhe esta particularidade, no s porque me parece
pint-lo bem, como porque a minha resposta deu de mim a melhor idia ao coronel. Ele
mesmo o declarou ao vigrio, acrescentando que eu era o mais simptico dos
enfermeiros que tivera. A verdade  que vivemos uma lua-de-mel de sete dias.
No oitavo dia, entrei na vida dos meus predecessores, uma vida de co, no dormir, no
pensar em mais nada, recolher injrias, e, s vezes, rir delas, com um ar de resignao e
conformidade; reparei que era um modo de lhe fazer corte. Tudo impertinncias de
molstia e do temperamento. A molstia era um rosrio delas, padecia de aneurisma, de
reumatismo e de trs ou quatro afeces menores. Tinha perto de sessenta anos, e desde
os cinco toda a gente lhe fazia a vontade. Se fosse s
rabugento, v; mas ele era tambm mau, deleitava-se com a dor e a humilhao dos
outros. No fim de trs meses estava farto de o aturar; determinei vir embora; s esperei
ocasio.
No tardou a ocasio. Um dia, como lhe no desse a tempo uma fomentao, pegou da
bengala e atirou-me dous ou trs golpes. No era preciso mais; despedi-me
imediatamente, e fui aprontar a mala. Ele foi ter comigo, ao quarto, pediu-me que
ficasse, que no valia a pena zangar por uma rabugice de velho. Instou tanto que fiquei.
 Estou na dependura, Procpio, dizia-me ele  noite; no posso viver muito tempo.
Estou aqui, estou na cova. Voc h de ir ao meu enterro, Procpio; no o dispenso por
nada. H de ir, h de rezar ao p da minha sepultura. Se no for, acrescentou rindo, eu
voltarei de noite para lhe puxar as pernas. Voc cr em almas de outro mundo,
Procpio?
 Qual o qu!
 E por que  que no h de crer, seu burro? redargiu vivamente, arregalando os
olhos.
Eram assim as pazes; imagine a guerra. Coibiu-se das bengaladas; mas as injrias
ficaram as mesmas, se no piores. Eu, com o tempo, fui calejando, e no dava mais por
nada; era burro, camelo, pedao dasno, idiota, moleiro, era tudo. Nem, ao menos,
havia mais gente que recolhesse uma parte desses nomes. No tinha parentes; tinha um
sobrinho que morreu tsico, em fins de maio ou princpios de julho, em Minas. Os
amigos iam por l s vezes aprov-lo, aplaudi-lo, e nada mais; cinco, dez
minutos de visita. Restava eu; era eu sozinho para um dicionrio inteiro. Mais de uma
vez resolvi sair; mas, instado pelo vigrio, ia ficando.
No s as relaes foram-se tornando melindrosas, mas eu estava ansioso por tornar 
Corte. Aos quarenta e dois anos no  que havia de acostumar-me  recluso constante,
ao p de um doente bravio, no interior. Para avaliar o meu isolamento, basta saber que
eu nem lia os jornais; salvo alguma notcia mais importante que levavam ao coronel, eu
nada sabia do resto do mundo. Entendi, portanto, voltar para a Corte, na primeira
ocasio, ainda que tivesse de brigar com o vigrio. Bom  dizer
(visto que fao uma confisso geral) que, nada gastando e tendo guardado integralmente
os ordenados, estava ansioso por vir dissip-los aqui.
Era provvel que a ocasio aparecesse. O coronel estava pior, fez testamento,
descompondo o tabelio, quase tanto como a mim. O trato era mais duro, os breves
lapsos de sossego e brandura faziam-se raros. J por esse tempo tinha eu perdido a
escassa dose de piedade que me fazia esquecer os excessos do doente; trazia dentro de
mim um fermento de dio e averso. No princpio de agosto resolvi definitivamente
sair; o vigrio e o mdico, aceitando as razes, pediram-me que ficasse algum tempo
mais. Concedi-lhes um ms; no fim de um ms viria embora, qualquer que fosse o
estado do doente. O vigrio tratou de procurar-me substituto.
Vai ver o que aconteceu. Na noite de vinte e quatro de agosto, o coronel teve um acesso
de raiva, atropelou-me, disse-me muito nome cru, ameaou-me de um tiro, e acabou
atirando-me um prato de mingau, que achou frio, o prato foi cair na parede onde se fez
em pedaos.
 Hs de pag-lo, ladro! bradou ele.
Resmungou ainda muito tempo. s onze horas passou pelo sono. Enquanto ele dormia,
saquei um livro do bolso, um velho romance de dArlincourt, traduzido, que l achei, e
pus-me a l-lo, no mesmo quarto, a pequena distncia da cama; tinha de acord-lo 
meia-noite para lhe dar o remdio. Ou fosse de cansao, ou do livro, antes de chegar ao
fim da segunda pgina adormeci tambm. Acordei aos gritos do coronel, e levantei-me
estremunhado. Ele, que parecia delirar, continuou nos
mesmos gritos, e acabou por lanar mo da moringa e arremess-la contra mim. No
tive tempo de desviar-me; a moringa bateu-me na face esquerda, e tal foi a dor que no
vi mais nada; atirei-me ao doente, pus-lhe as mos ao pescoo, lutamos, e esganei-o.
Quando percebi que o doente expirava, recuei aterrado, e dei um grito; mas ningum me
ouviu. Voltei  cama, agitei-o para cham-lo  vida, era tarde; arrebentara o aneurisma,
e o coronel morreu. Passei  sala contgua, e durante duas horas no ousei voltar ao
quarto. No posso mesmo dizer tudo o que passei, durante esse tempo. Era um
atordoamento, um delrio vago e estpido. Parecia -me que as paredes tinham vultos;
escutava umas vozes surdas. Os gritos da vtima, antes da luta e durante a luta,
continuavam a repercutir dentro de mim, e o ar, para onde quer que me voltasse,
aparecia recortado de convulses. No creia que esteja fazendo imagens nem estilo;
digo-lhe que eu ouvia distintamente umas vozes que me bradavam: assassino!
assassino!
Tudo o mais estava calado. O mesmo som do relgio, lento, igual e seco, sublinhava o
silncio e a solido. Colava a orelha  porta do quarto na esperana de ouvir um gemido,
uma palavra, uma injria, qualquer coisa que significasse a vida, e me restitusse a paz 
conscincia. Estaria pronto a apanhar das mos do coronel, dez, vinte, cem vezes. Mas
nada, nada; tudo calado. Voltava a andar  toa na sala, sentava-me, punha as mos na
cabea; arrependia-me de ter vindo.  "Maldita a hora
em que aceitei semelhante coisa!" exclamava. E descompunha o padre de Niteri, o
mdico, o vigrio, os que me arranjaram um lugar, e os que me pediram para ficar mais
algum tempo. Agarrava-me  cumplicidade dos outros homens.
Como o silncio acabasse por aterrar-me, abri uma das janelas, para escutar o som do
vento, se ventasse. No ventava. A noite ia tranqila, as estrelas fulguravam, com a
indiferena de pessoas que tiram o chapu a um enterro que passa, e continuam a falar
de outra coisa. Encostei-me ali por algum tempo, fitando a noite, deixando-me ir a uma
recapitulao da vida, a ver se descansava da dor presente. S ento posso dizer que
pensei claramente no castigo. Achei-me com um crime s costas e vi a punio certa.
Aqui o temor complicou o remorso. Senti que os cabelos me ficavam de p. Minutos
depois, vi trs ou quatro vultos de pessoas, no terreiro espiando, com um ar de
emboscada; recuei, os vultos esvaram-se no ar; era uma alucinao.
Antes do alvorecer curei a contuso da face. S ento ousei voltar ao quarto. Recuei
duas vezes, mas era preciso e entrei; ainda assim, no cheguei logo  cama. Tremiamme
as pernas, o corao batia -me; cheguei a pensar na fuga; mas era confessar o crime,
e, ao contrrio, urgia fazer desaparecer os vestgios dele. Fui at a cama; vi o cadver,
com os olhos arregalados e a boca aberta, como deixando passar a eterna palavra dos
sculos: "Caim, que fizeste de teu irmo?" Vi no
pescoo o sinal das minhas unhas; abotoei alto a camisa e cheguei ao queixo a ponta do
lenol. Em seguida, chamei um escravo, disse-lhe que o coronel amanhecera morto;
mandei recado ao vigrio e ao mdico.
A primeira idia foi retirar-me logo cedo, a pretexto de ter meu irmo doente, e, na
verdade, recebera carta dele, alguns dias antes, dizendo-me que se sentia mal. Mas
adverti que a retirada imediata poderia fazer despertar suspeitas, e fiquei. Eu mesmo
amortalhei o cadver, com o auxlio de um preto velho e mope. No sa da sala
morturia; tinha medo de que descobrissem alguma cousa. Queria ver no rosto dos
outros se desconfiavam; mas no ousava fitar ningum. Tudo me dava
impacincias: os passos de ladro com que entravam na sala, os cochichos, as
cerimnias e as rezas do vigrio. Vindo a hora, fechei o caixo, com as mos trmulas,
to trmulas que uma pessoa, que reparou nelas, disse a outra com piedade:
 Coitado do Procpio! apesar do que padeceu, est muito sentido.
Pareceu-me ironia; estava ansioso por ver tudo acabado. Samos  rua. A passagem da
meia escurido da casa para a claridade da rua deu-me grande abalo; receei que fosse
ento impossvel ocultar o crime. Meti os olhos no cho, e fui andando. Quando tudo
acabou, respirei. Estava em paz com os homens. No o estava com a conscincia, e as
primeiras noites foram naturalmente de desassossego e aflio. No  preciso dizer que
vim logo para o Rio de Janeiro, nem que vivi aqui aterrado, embora longe do crime; no
ria, falava pouco, mal comia, tinha alucinaes, pesadelos...
 Deixa l o outro que morreu, diziam-me. No  caso para tanta melancolia.
E eu aproveitava a iluso, fazendo muitos elogios ao morto, chamando-lhe boa criatura,
impertinente,  verdade, mas um corao de ouro. E elogiando, convencia-me tambm,
ao menos por alguns instantes. Outro fenmeno interessante, e que talvez lhe possa
aproveitar,  que, no sendo religioso, mandei dizer uma missa pelo eterno descanso do
coronel, na igreja do Sacramento. No fiz convites, no disse nada a ningum; fui ouvila,
sozinho, e estive de joelhos todo o tempo, persignando-me a mido. Dobrei a
esprtula do padre, e distribu esmolas  porta, tudo por inteno do finado. No queria
embair os homens; a prova  que fui s. Para completar este ponto, acrescentarei que
nunca aludia ao coronel, que no dissesse: "Deus lhe fale nalma!" E contava dele
algumas anedotas alegres, rompantes engraados...
Sete dias depois de chegar ao Rio de Janeiro, recebi a carta do vigrio, que lhe mostrei,
dizendo-me que fora achado o testamento do coronel, e que eu era o herdeiro universal.
Imagine o meu pasmo. Pareceu-me que lia mal, fui a meu irmo, fui aos amigos; todos
leram a mesma cousa. Estava escrito; era eu o herdeiro universal do coronel. Cheguei a
supor que fosse uma cilada; mas adverti logo que havia outros meios de capturar-me, se
o crime estivesse descoberto. Demais, eu conhecia a
probidade do vigrio, que no se prestaria a ser instrumento. Reli a carta, cinco, dez,
muitas vezes; l estava a notcia.
 Quanto tinha ele? perguntava-me meu irmo.
 No sei, mas era rico.
 Realmente, provou que era teu amigo.
 Era... Era...
Assim por uma ironia da sorte, os bens do coronel vinham parar s minhas mos.
Cogitei em recusar a herana. Parecia-me odioso receber um vintm do tal esplio; era
pior do que fazer-me esbirro alugado. Pensei nisso trs dias, e esbarrava sempre na
considerao de que a recusa podia fazer desconfiar alguma cousa. No fim dos trs dias,
assentei num meio-termo; receberia a herana e d-la-ia toda, aos bocados e s
escondidas. No era s escrpulo; era tambm o modo de resgatar
o crime por um ato de virtude; pareceu-me que ficava assim de contas saldas.
Preparei-me e segui para a vila. Em caminho,  proporo que me ia aproximando,
recordava o triste sucesso; as cercanias da vila tinham um aspecto de tragdia, e a
sombra do coronel parecia -me surgir de cada lado. A imaginao ia reproduzindo as
palavras, os gestos, toda a noite horrenda do crime...
Crime ou luta? Realmente, foi uma luta, em que eu, atacado, defendi-me, e na defesa...
Foi uma luta desgraada, uma fatalidade. Fixei-me nessa idia. E balanceava os agravos,
punha no ativo as pancadas, as injrias... No era culpa do coronel, bem o sabia, era da
molstia, que o tornava assim rabugento e at mau... Mas eu perdoava tudo, tudo... O
pior foi a fatalidade daquela noite... Considerei tambm que o coronel no podia viver
muito mais; estava por pouco; ele mesmo o sentia e dizia. Viveria quanto? Duas
semanas, ou uma; pode ser at que menos. J no era vida, era um molambo de vida, se
isto mesmo se podia chamar ao padecer contnuo do pobre homem... E quem sabe
mesmo se a luta e a morte no foram apenas coincidentes? Podia ser, era at o mais
provvel; no foi outra cousa. Fixei-me tambm nessa idia...
Perto da vila apertou-se-me o corao, e quis recuar; mas dominei-me e fui. Receberamme
com parabns. O vigrio disse-me as disposies do testamento, os legados pios, e
de caminho ia louvando a mansido crist e o zelo com que eu servira ao coronel, que,
apesar de spero e duro, soube ser grato.
 Sem dvida, dizia eu olhando para outra parte.
Estava atordoado. Toda a gente me elogiava a dedicao e a pacincia. As primeiras
necessidades do inventrio detiveram-me algum tempo na vila. Constitu advogado; as
cousas correram placidamente. Durante esse tempo, falava muita vez do coronel.
Vinham contar-me cousas dele, mas sem a moderao do padre; eu defendia -o,
apontava algumas virtudes, era austero...
 Qual austero! J morreu, acabou; mas era o diabo.
E referiam-me casos duros, aes perversas, algumas extraordinrias. Quer que lhe
diga? Eu, a princpio, ia ouvindo cheio de curiosidade; depois, entrou-me no corao um
singular prazer, que eu sinceramente buscava expelir. E defendia o coronel, explicava-o,
atribua alguma coisa s rivalidades locais; confessava, sim, que era um pouco
violento... Um pouco? Era uma cobra assanhada, interrompia-me o barbeiro; e todos, o
coletor, o boticrio, o escrivo, todos diziam a mesma coisa; e
vinham outras anedotas, vinha toda a vida do defunto. Os velhos lembravam-se das
crueldades dele, em menino. E o prazer ntimo, calado, insidioso, crescia dentro de
mim, espcie de tnia moral, que por mais que a arrancasse aos pedaos recompunha-se
logo e ia ficando.
As obrigaes do inventrio distraram-me; e por outro lado a opinio da vila era to
contrria ao coronel, que a vista dos lugares foi perdendo para mim a feio tenebrosa
que a princpio achei neles. Entrando na posse da herana, converti-a em ttulos e
dinheiro. Eram ento passados muitos meses, e a idia de distribu-la toda em esmolas e
donativos pios no me dominou como da primeira vez; achei mesmo que era afetao.
Restringi o plano primitivo: distribu alguma cousa aos pobres, dei  matriz da vila uns
paramentos novos, fiz uma esmola  Santa Casa da Misericrdia, etc.: ao todo trinta e
dous contos. Mandei tambm levantar um tmulo ao coronel, todo de mrmore, obra de
um napolitano, que aqui esteve at 1866, e foi morrer, creio eu, no Paraguai.
Os anos foram andando, a mem ria tornou-se cinzenta e desmaiada. Penso s vezes no
coronel, mas sem os terrores dos primeiros dias. Todos os mdicos a quem contei as
molstias dele, foram acordes em que a morte era certa, e s se admiravam de ter
resistido tanto tempo. Pode ser que eu, involuntariamente, exagerasse a descrio que
ento lhes fiz; mas a verdade  que ele devia morrer, ainda que no fosse aquela
fatalidade...
Adeus, meu caro senhor. Se achar que esses apontamentos valem alguma coisa, pagueme
tambm com um tmulo de mrmore, ao qual dar por epitfio esta emenda que fao
aqui ao divino sermo da montanha: "Bem-aventurados os que possuem, porque eles
sero consolados."
O Diplomtico
A PRETA entrou na sala de jantar, chegou-se  mesa rodeada de gente, e falou baixinho
 senhora. Parece que lhe pedia alguma cousa urgente, porque a senhora levantou-se
logo.
 Ficamos esperando, D. Adelaide?
 No espere, no, Sr. Rangel; v continuando, eu entro depois.
Rangel era o leitor do livro de sortes. Voltou a pgina, e recitou um ttulo: "Se algum
lhe ama em segredo." Movimento geral; moas e rapazes sorriram uns para os outros.
Estamos na noite de So Joo de 1854, e a casa  na rua das Mangueiras. Chama-se
Joo o dono da casa, Joo Viegas, e tem uma filha, Joaninha. Usa-se todos os anos a
mesma reunio de parentes e amigos, arde uma fogueira no quintal, assam-se as batatas
do costume, e tiram-se sortes. Tambm h ceia, s vezes dana, e algum jogo de
prendas, tudo familiar. Joo Viegas  escrivo de uma vara cvel da Corte.
 Vamos. Quem comea agora? disse ele. H de ser D. Felismina. Vamos ver se
algum lhe ama em segredo.
D. Felismina sorriu amarelo. Era uma boa quarentona, sem prendas nem rendas, que
vivia espiando um marido por baixo das plpebras devotas. Em verdade, o gracejo era
duro, mas natural. D. Felismina era o modelo acabado daquelas criaturas indulgentes e
mansas, que parecem ter nascido para divertir os outros. Pegou e lanou os dados com
um ar de complacncia incrdula. Nmero dez, bradaram duas vozes. Rangel desceu os
olhos ao baixo da pgina, viu a quadra correspondente ao
nmero, e leu-a: dizia que sim, que havia uma pessoa, que ela devia procurar domingo,
na igreja, quando fosse  missa. Toda a mesa deu parabns a D. Felismina, que sorriu
com desdm, mas interiormente esperanada.
Outros pegaram nos dados, e Rangel continuou a ler a sorte de cada um. Lia
espevitadamente. De quando em quando, tirava os culos e limpava-os com muito vagar
na ponta do leno de cambraia,  ou por ser cambraia,  ou por exalar um fino cheiro
de bogari. Presumia de grande maneira, e ali chamavam-lhe "o diplomtico".
 Ande, seu diplomtico, continue.
Rangel estremeceu; esquecera-se de ler uma sorte, embebido em percorrer a fila de
moas que ficava do outro lado da mesa. Namorava alguma? Vamos por partes.
Era solteiro, por obra das circunstncias, no de vocao. Em rapaz teve alguns
namoricos de esquina, mas com o tempo apareceu-he a comicho das grandezas, e foi
isto que lhe prolongou o celibato at os quarenta e um anos, em que o vemos. Cobiava
alguma noiva superior a ele e  roda em que vivia, e gastou o tempo em esper-la.
Chegou a freqentar os bailes de um advogado clebre e rico, para quem copiava
papis, e que o protegia muito. Tinha nos bailes a mesma posio subalterna do
escritrio; passava a noite vagando pelos corredores, espiando o salo, vendo passar as
senhoras, devorando com os olhos uma multido de espduas magnficas e talhes
graciosos. Invejava os homens, e copiava-os. Saa dali excitado e resoluto. Em falta de
bailes, ia s festas de igreja, onde poderia ver algumas das primeiras moas da cidade.
Tambm era certo no saguo do pao imperial, em dia de cortejo, para ver entrar as
grandes damas e as pessoas da corte, ministros, generais, diplomatas, desembargadores,
e conhecia tudo e todos, pessoas e carruagens. Voltava da festa e do cortejo, como
voltava do baile, impetuoso, ardente, capaz de arrebatar de um lance a palma da fortuna.
O pior  que entre a espiga e a mo h o tal muro do poeta, e o Rangel no era homem
de saltar muros. De imaginao fazia tudo, raptava mulheres e destrua cidades. Mais de
uma vez foi, consigo mesmo, ministro de Estado, e fartou-se de cortesias e decretos.
Chegou ao extremo de aclamar-se imperador, um dia, 2 de dezembro, ao voltar da
parada no largo do Pao; imaginou para isso uma revoluo, em que derramou algum
sangue, pouco, e uma ditadura benfica, em que apenas vingou alguns pequenos
desgostos de escrevente. C fora, porm, todas as suas proezas eram fbulas. Na
realidade, era pacato e discreto.
Aos quarenta anos desenganou-se das ambies; mas a ndole ficou a mesma, e, no
obstante a vocao conjugal, no achou noiva. Mais de uma o aceitaria com muito
prazer; ele perdia-as todas,  fora de circunspeco. Um dia, reparou em Joaninha, que
chegava aos dezenove anos e possua um par de olhos lindos e sossegados,  virgens
de toda a conversao masculina. Rangel conhecia-a desde criana, andara com ela ao
colo, no Passeio Pblico, ou nas noites de fogo da Lapa; como falar-lhe de amor? Mas,
por outro lado, as relaes dele na casa eram tais, que podiam facilitar-lhe o casamento;
e, ou este ou nenhum outro.
Desta vez, o muro no era alto, e a espiga era baixinha; bastava esticar o brao com
algum esforo, para arranc-la do p. Rangel andava neste trabalho desde alguns meses.
No esticava o brao, sem espiar primeiro para todos os lados, a ver se vinha algum, e,
se vinha algum, disfarava e ia-se embora. Quando chegava a estic-lo, acontecia que
uma lufada de vento meneava a espiga ou algum passarinho andava ali nas folhas secas,
e no era preciso mais para que ele recolhesse a mo. Ia-se assim o tempo, e a paixo
entranhava-se-lhe, causa de muitas horas de angstia, a que seguiam sempre melhores
esperanas. Agora mesmo traz ele a primeira carta de amor, disposto a entreg-la. J
teve duas ou trs ocasies boas, mas vai sempre espaando; a noite  to comprida!
Entretanto, continua a ler as sortes, com a solenidade de um ugur.
Tudo, em volta,  alegre. Cochicham ou riem, ou falam ao mesmo tempo. O tio Rufino,
que  o gaiato da famlia, anda  roda da mesa com uma pena, fazendo ccegas nas
orelhas das moas. Joo Viegas est ansioso por um amigo, que se demora, o Calisto.
Onde se meteria o Calisto?
 Rua, rua, preciso da mesa; vamos para a sala de visitas.
Era D. Adelaide que tornava; ia pr-se a mesa para a ceia. Toda a gente emigrou, e
andando  que se podia ver bem como era graciosa a filha do escrivo. Rangel
acompanhou-a com grandes olhos namorados. Ela foi  janela, por alguns instantes,
enquanto se preparava um jogo de prendas, e ele foi tambm; era a ocasio de entregarlhe
a carta.
Defronte, numa casa grande, havia um baile, e danava-se. Ela olhava, ele olhou
tambm. Pelas janelas viam passar os pares, cadenciados, as senhoras com as suas sedas
e rendas, os cavalheiros finos e elegantes, alguns condecorados. De quando em quando,
uma fasca de diamantes, rpida, fugitiva, no giro da dana. Pares que conversavam,
dragonas que reluziam, bustos de homem inclinados, gestos de leques, tudo isso em
pedaos, atravs das janelas, que no podiam mostrar
todo o salo, mas adivinhava-se o resto. Ele ao menos conhecia tudo, e dizia tudo  filha
do escrivo. O demnio das grandezas, que parecia dormir, entrou a fazer as suas
arlequinadas no corao do nosso homem, e ei-lo que tenta seduzir tambm o corao
da outra.
 Conheo uma pessoa que estaria ali muito bem, murmurou Rangel.
E Joaninha, com ingenuidade:
 Era o senhor.
Rangei sorriu lisonjeado, e no achou que dizer. Olhou para os lacaios e cocheiros, de
libr, na rua conversando em grupos ou reclinados no tejadilho dos carros. Comeou a
designar carros: este  do Olinda, aquele  do Maranguape; mas a vem outro, rodando,
do lado da rua da Lapa, e entra na rua das Mangueiras. Parou defronte: salta o lacaio,
abre a portinhola, tira o chapu e perfila-se. Sai de dentro uma calva, uma cabea, um
homem, duas comendas, depois uma senhora ricamente vestida; entram no saguo, e
sobem a escadaria, forrada de tapete e ornada embaixo com dois grandes vasos.
 Joaninha, Sr. Rangel...
Maldito jogo de prendas! Justamente quando ele formulava, na cabea, uma insinuao
a propsito do casal que subia, e ia assim passar naturalmente  entrega da carta...
Rangel obedeceu, e sentou-se defronte da moa. D. Adelaide, que dirigia o jogo de
prendas, recolhia os nomes; cada pessoa devia ser uma flor. Est claro que o tio Rufino,
sempre gaiato, escolheu para si a flor da abbora. Quanto ao Rangel, querendo fugir ao
trivial, comparou mentalmente as flores, e quando a dona da casa lhe perguntou pela
dele, respondeu com doura e pausa:
 Maravilha, minha senhora.
 O pior  no estar c o Calisto! suspirou o escrivo.
 Ele disse mesmo que vinha?
 Disse; ainda ontem foi ao cartrio, de propsito, avisar-me de que viria tarde, mas
que contasse com ele: tinha de ir a uma brincadeira na rua da Carioca...
 Licena para dous! bradou uma voz no corredor.
 Ora graas! est a o homem!
Joo Viegas foi abrir a porta; era o Calisto, acompanhado de um rapaz estranho, que ele
apresentou a todos em geral:  "Queirs, empregado na Santa Casa; no  meu parente,
apesar de se parecer muito comigo; quem v um, v outro..." Toda a gente riu; era uma
pilhria do Calisto, feio como o diabo,  ao passo que o Queirs era um bonito rapaz
de vinte e seis a vinte e sete anos, cabelo negro, olhos negros e singularmente esbelto.
As moas retraram-se um pouco; D. Felismina abriu
todas as velas.
 Estvamos jogando prendas, os senhores podem entrar tambm, disse a dona da casa.
Joga, Sr. Queirs?
Queirs respondeu afirmativamente e passou a examinar as outras pessoas. Conhecia
algumas, e trocou duas ou trs palavras com elas. Ao Joo Viegas disse que desde muito
tempo desejava conhec-lo, por causa de um favor que o pai lhe deveu outrora, negcio
de foro. Joo Viegas no se lembrava de nada, nem ainda depois que ele lhe disse o que
era; mas gostou de ouvir a notcia, em pblico, olhou para todos, e durante alguns
minutos regalou-se calado.
Queirs entrou em cheio no jogo. No fim de meia hora, estava familiar da casa. Todo
ele era ao, falava com desembarao, tinha os gestos naturais e espontneos. Possua
um vasto repertrio de castigos para jogo de prendas, coisa que encantou a toda a
sociedade, e ningum os dirigia melhor, com tanto movimento e animao, indo de um
lado para outro, concertando os grupos, puxando cadeiras, falando s moas, como se
houvesse brincado com elas em criana.
 D. Joaninha aqui, nesta cadeira; D. Cesria, deste lado, em p, e o Sr. Camilo entra
por aquela porta... Assim, no: olhe, assim de maneira que...
Teso na cadeira, o Rangel estava atnito. Donde vinha esse furaco? E o furaco ia
soprando, levando os chapus dos homens, e despenteando as moas, que riam de
contentes: Queirs daqui, Queirs dali, Queirs de todos os lados. Rangel passou da
estupefao  mortificao. Era o cetro que lhe caa das mos. No olhava para o outro,
no se ria do que ele dizia, e respondia-lhe seco. Interiormente, mordia-se e mandava-o
ao diabo, chamava-o bobo alegre, que fazia rir e agradava,
porque nas noites de festa tudo  festa. Mas, repetindo essas e piores coisas, no
chegava a reaver a liberdade de esprito. Padecia deveras, no mais ntimo do amorprprio;
e o pior  que o outro percebeu toda essa agitao, e o pssimo  que ele
percebeu que era percebido.
Rangel, assim como sonhava os bens, assim tambm as vinganas. De cabea, espatifou
o Queirs; depois cogitou a possibilidade de um desastre qualquer, uma dor bastava,
mas cousa forte, que levasse dali aquele intruso. Nenhuma dor, nada; o diabo parecia
cada vez mais lpido, e toda a sala fascinada por ele. A prpria Joaninha, to acanhada,
vibrava nas mos de Queirs, como as outras moas; e todos, homens e mulheres,
pareciam empenhados em servi-lo. Tendo ele falado em danar,
as moas foram ter com o tio Rufino, e pediram que tocasse uma quadrilha na flauta,
uma s, no se lhe pedia mais.
 No posso, di-me um calo.
 Flauta? bradou o Calisto. Peam ao Queirs que nos toque alguma coisa, e vero o
que  flauta... Vai buscar a flauta, Rufino. Ouam o Queirs. No imaginam como ele 
saudoso na flauta!
Queirs tocou a Casta Diva. Que cousa ridcula! dizia consigo o Rangel  uma msica
que at os moleques assobiam na rua. Olhava para ele, de revs, para considerar se
aquilo era posio de homem srio; e conclua que a flauta era um instrumento grotesco.
Olhou tambm para Joaninha, e viu que, como todas as outras pessoas, tinha a ateno
no Queirs, embebida, namorada dos sons da msica, e estremeceu, sem saber por qu.
Os demais semblantes mostravam a mesma expresso dela, e, contudo, sentiu alguma
coisa que lhe complicou a averso ao intruso. Quando a flauta acabou, Joaninha
aplaudiu menos que os outros, e Rangel entrou em dvida se era o habitual
acanhamento, se alguma especial comoo... Urgia entregar-lhe a carta.
Chegou a ceia. Toda a gente entrou confusamente na sala, e felizmente para o Rangel,
coube-lhe ficar defronte de Joaninha, cujos olhos estavam mais belos que nunca e to
derramados, que no pareciam os do costume. Rangel saboreou-os caladamente, e
reconstruiu todo o seu sonho que o diabo do Queirs abalara com um piparote. Foi
assim que tornou a ver-se, ao lado dela, na casa que ia alugar, bero de noivos, que ele
enfeitou com os ouros da imaginao. Chegou a tirar um prmio na loteria e a empreglo
todo em sedas e jias para a mulher, a linda Joaninha  Joaninha Rangel  D.
Joaninha Rangel  D. Joana Viegas Rangel  ou D. Joana Cndida Viegas Rangel...
No podia tirar o Cndida...
 Vamos, uma sade, seu diplomtico... faa uma sade daquelas...
Rangel acordou; a mesa inteira repetia a lembrana do tio Rufino; a prpria Joaninha
pedia-lhe uma sade, como a do ano passado. Rangel respondeu que ia obedecer; era s
acabar aquela asa de galinha. Movimento, cochichos de louvor; D. Adelaide, dizendolhe
uma moa que nunca ouvira falar o Rangel:
 No? perguntou com pasmo. No imagina; fala muito bem, muito explicado,
palavras escolhidas, e uns bonitos modos...
Comendo, ia ele dando rebate a algumas reminiscncias, frangalhos de idias, que lhe
serviam para o arranjo das frases e metforas. Acabou e ps-se de p. Tinha o ar
satisfeito e cheio de si. Afinal, vinham bater-lhe  porta. Cessara a farandolagem das
anedotas, das pilhrias sem alma, e vinham ter com ele para ouvir alguma cousa correta
e grave. Olhou em derredor, viu todos os olhos levantados, esperando. Todos no; os de
Joaninha enviesavam-se na direo do Queirs, e os deste vinham
esper-los a meio caminho, numa cavalgada de promessas. Rangel empalideceu. A
palavra morreu-lhe na garganta; mas era preciso falar, esperavam por ele, com simpatia,
em silncio.
Obedeceu mal. Era justamente um brinde ao dono da casa e  filha. Chamava a esta um
pensamento de Deus, transportado da imortalidade  realidade, frase que empregara trs
anos antes, e devia estar esquecida. Falava tambm do santurio da famlia, do altar da
amizade, e da gratido, que  a flor dos coraes puros. Onde no havia sentido, a frase
era mais especiosa ou retumbante. Ao todo, um brinde de dez minutos bem puxados,
que ele despachou em cinco e sentou-se.
No era tudo. Queirs levantou-se logo, dois ou trs minutos depois, para outro brinde,
e o silncio foi ainda mais pronto e completo. Joaninha meteu os olhos no regao,
vexada do que ele iria dizer; Rangel teve um arrepio.
 O ilustre amigo desta casa, o Sr. Rangel  disse Queirs,  bebeu s duas pessoas
cujo nome  o do santo de hoje; eu bebo quela que  a santa de todos os dias, a D.
Adelaide.
Grandes aplausos aclamaram esta lembrana, e D. Adelaide, lisonjeada, recebeu os
cumprimentos de cada conviva. A filha no ficou em cumprimentos.  Mame!
mame! exclamou, levantando-se; e foi abra-la e beij -la trs e quatro vezes; 
espcie de carta para ser lida por duas pessoas.
Rangel passou da clera ao desnimo, e, acabada a ceia, pensou em retirar-se. Mas a
esperana, demnio de olhos verdes, pediu-lhe que ficasse, e ficou. Quem sabe? Era
tudo passageiro, cousas de uma noite, namoro de So Joo; afinal, ele era amigo da
casa, e tinha a estima da famlia; bastava que pedisse a moa, para obt-la. E depois esse
Queirs podia no ter meios de casar. Que emprego era o dele na Santa Casa? Talvez
alguma cousa reles... Nisto, olhou obliquamente para a roupa de Queirs, enfiou-se-lhe
pelas costuras, escrutou o bordadinho da camisa, apalpou os joelhos das calas, a verlhe
o uso, e os sapatos, e concluiu que era um rapaz caprichoso, mas provavelmente
gastava tudo consigo, e casar era negcio srio. Podia ser tambm que tivesse me
viva, irms solteiras... Rangel era s.
 Tio Rufino, toque uma quadrilha.
 No posso; flauta depois de comer faz indigesto. Vamos a um vspora.
Rangel declarou que no podia jogar, estava com dor de cabea: mas Joaninha veio a ele
e pediu-lhe que jogasse com ela, de sociedade.  "Meia coleo para o senhor, e meia
para mim", disse ela, sorrindo; ele sorriu tambm e aceitou. Sentaram-se ao p um do
outro. Joaninha falava-lhe, ria, levantava para ele os belos olhos, inquieta, mexendo
muito a cabea para todos os lados. Rangel sentiu-se melhor, e no tardou que se
sentisse inteiramente bem. Ia marcando  toa, esquecendo
alguns nmeros, que ela lhe apontava com o dedo,  um dedo de ninfa, dizia ele,
consigo; e os descuidos passaram a ser de propsito, para ver o dedo da moa, e ouvi-la
ralhar: "O senhor  muito esquecido; olhe que assim perdemos o nosso dinheiro..."
Rangel pensou em entregar-lhe a carta por baixo da mesa; mas no estando declarados,
era natural que ela a recebesse com espanto e estragasse tudo; cumpria avis-la. Olhou
em volta da mesa: todos os rostos estavam inclinados sobre os cartes, seguindo
atentamente os nmeros. Ento, ele inclinou-se  direita, e baixou os olhos aos cartes
de Joaninha, como para verificar alguma coisa.
 J tem duas quadras, cochichou ele.
 Duas, no; tenho trs.
 Trs,  verdade, trs. Escute...
 E o senhor?
 Eu duas.
 Que duas o qu? So quatro.
Eram quatro; ela mostrou-lhas inclinada, roando quase a orelha pelos lbios dele;
depois, fitou-o rindo e abanando a cabea: "O senhor! o senhor!" Rangel ouviu isto com
singular deleite; a voz era to doce, e a expresso to amiga, que ele esqueceu tudo,
agarrou-a pela cintura, e lanou-se com ela na eterna valsa das quimeras. Casa, mesa,
convivas, tudo desapareceu, como obra v da imaginao, para s ficar a realidade
nica, ele e ela, girando no espao, debaixo de um milho de estrelas, acesas de
propsito para alumi-los.
Nem carta, nem nada. Perto da manh foram todos para a janela ver sair os convidados
do baile fronteiro. Rangel recuou espantado. Viu um aperto de dedos entre o Queirs e a
bela Joaninha. Quis explic-lo, eram aparncias, mas to depressa destrua uma como
vinham outras e outras,  maneira das ondas que no acabam mais. Custava-lhe
entender que uma s noite, algumas horas bastassem a ligar assim duas criaturas; mas
era a verdade clara e viva dos modos de ambos, dos olhos, das
palavras, dos risos, e at da saudade com que se despediram de manh.
Saiu tonto. Uma s noite, algumas horas apenas! Em casa, aonde chegou tarde, deitouse
na cama, no para dormir, mas para romper em soluos. S consigo, foi-se-lhe o
aparelho da afetao, e j no era o diplomtico, era o energmeno, que rolava na casa,
bradando, chorando como uma criana, infeliz deveras, por esse triste amor do outono.
O pobre-diabo, feito de devaneio, indolncia e afetao, era, em substncia, to
desgraado como Otelo, e teve um desfecho mais cruel.
Otelo mata Desdmona; o nosso namorado, em quem ningum pressentira nunca a
paixo encoberta, serviu de testemunha ao Queirs, quando este se casou com Joaninha,
seis meses depois.
Nem os acontecimentos, nem os anos lhe mudaram a ndole. Quando rompeu a guerra
do Paraguai, teve idia muitas vezes de alistar-se como oficial de voluntrios; no o fez
nunca; mas  certo que ganhou algumas batalhas e acabou brigadeiro.
Mariana
Captulo Primeiro
"QUE SER FEITO de Mariana?" perguntou Evaristo a si mesmo, no largo da Carioca,
ao despedir-se de um velho amigo, que lhe fez lembrar aquela velha amiga.
Era em 1890. Evaristo voltara da Europa, dias antes, aps dezoito anos de ausncia.
Tinha sado do Rio de Janeiro em 1872, e contava demorar-se at 1874 ou 1875, depois
de ver algumas cidades clebres ou curiosas, mas o viajante pe e Paris dispe. Uma
vez entrando naquele mundo em 1873, Evaristo deixou-se ir ficando, alm do prazo
determinado; adiou a viagem um ano, outro ano, e afinal no pensou mais na volta.
Desinteressara-se das nossas cousas; ultimamente nem lia os jornais daqui; era um
estudante pobre da Bahia, que os ia buscar emprestados, e lhe referia depois uma ou
outra notcia de vulto. Seno quando, em novembro de 1889, entra-lhe em casa um
reporter parisiense, que lhe fala de revoluo no Rio de Janeiro, pede informaes
polticas, sociais, biogrficas. Evaristo refletiu.
 Meu caro senhor, disse ao reporter, acho melhor ir eu mesmo busc-las.
No tendo partido, nem opinies, nem parentes prximos, nem interesses (todos os seus
haveres estavam na Europa), mal se explica a resoluo sbita de Evaristo pela simples
curiosidade, e contudo no houve outro motivo. Quis ver o novo aspecto das cousas.
Indagou da data de uma primeira representao no Odon, comdia de um amigo,
calculou que, saindo no primeiro paquete e voltando trs paquetes depois, chegaria a
tempo de comprar bilhete e entrar no teatro; fez as malas,
correu a Bordus, e embarcou.
"Que ser feito de Mariana? repetia agora, descendo a rua da Assemblia. Talvez
morta... Se ainda viver, deve estar outra; h de andar pelos seus quarenta e cinco... Upa!
quarenta e oito; era mais moa que eu uns cinco anos. Quarenta e oito... Bela mulher;
grande mulher! Belos e grandes amores!"
Teve desejo de v-la. Indagou discretamente, soube que vivia e morava na mesma casa
em que a deixou, rua do Engenho Velho; mas no aparecia desde alguns meses, por
causa do marido, que estava mal, parece que  morte.
 Ela tambm deve estar escangalhada, disse Evaristo ao conhecido que lhe dava
aquelas informaes.
 Homem, no. A ltima vez que a vi, achei-a frescalhona. No se lhe d mais de
quarenta anos. Voc quer saber uma coisa? H por a roseiras magnficas, mas os nossos
cedros de 1860 a 1865 parece que no nascem mais.
 Nascem; voc no os v, porque j no sobe ao Lbano, retorquiu Evaristo.
Crescera-lhe o desejo de ver Mariana. Que olhos teriam um para o outro? Que vises
antigas viriam transformar a realidade presente? A viagem de Evaristo, cumpre sab-lo,
no foi de recreio, seno de cura. Agora que a lei do tempo fizera sua obra, que efeito
produziria neles, quando se encontrassem, o espectro de 1872, aquele triste ano da
separao que quase o ps doido, e quase a deixou morta?
Captulo II
DIAS DEPOIS apeava-se ele de um tlburi  porta de Mariana, e dava um carto ao
criado, que lhe abriu a sala.
Enquanto esperava circulou os olhos e ficou impressionado. Os mveis eram os mesmos
de dezoito anos antes. A memria, incapaz de os recompor na ausncia, reconheceu-os a
todos, assim como a disposio deles, que no mudara. Tinham o aspecto vetusto. As
prprias flores artificiais de uma grande jarra, que estava sobre um aparador, haviam
desbotado com o tempo. Tudo ossos dispersos, que a imaginao podia enfaixar para
restaurar uma figura a que s faltasse a alma.
Mas no faltava a alma. Pendente da parede, por cima do canap, estava o retrato de
Mariana. Tinha sido pintado quando ela contava vinte e cinco anos; a moldura, dourada
uma s vez, descascando em alguns lugares, contrastava com a figura ridente e fresca. O
tempo no descolara a formosura. Mariana estava ali, trajada  moda de 1865, com os
seus lindos olhos redondos e namorados. Era o nico alento vivo da sala; mas s ele
bastava a dar  decrepitude ambiente a fugidia mocidade. Grande foi a comoo de
Evaristo. Havia uma cadeira defronte do retrato, ele sentou-se nela, e ficou a mirar a
moa de outro tempo. Os olhos pintados fitavam tambm os naturais, porventura
admirados do encontro e da mudana, porque os naturais no tinham o calor e a graa
da pintura. Mas pouco durou a diferena; a vida anterior do homem restituiu-lhe a
verdura
exterior, e os olhos embeberam-se uns nos outros, e todos nos seus velhos pecados.
Depois, vagarosamente, Mariana desceu da tela e da moldura, e veio sentar-se defronte
de Evaristo, inclinou-se, estendeu os braos sobre os joelhos e abriu as mos. Evaristo
entregou-lhes as suas, e as quatro apertaram-se cordialmente. Nenhum perguntou nada
que se referisse ao passado, porque ainda no havia passado; ambos estavam no
presente, as horas tinham parado, to instantneas e to fixas, que pareciam haver sido
ensaiadas na vspera para esta representao nica e interminvel. Todos os relgios da
cidade e do mundo quebraram discretamente as cordas, e todos os relojoeiros trocaram
de ofcio. Adeus, velho lago de Lamartine! Evaristo e Mariana tinham ancorado no
oceano dos tempos. E a vieram as palavras mais doces que jamais disseram lbios de
homem nem de mulher, e as mais ardentes tambm, e as mudas, e as tresloucadas, e as
expirantes, e as de cime, e as de perdo.
 Ests bom?
 Bom; e tu?
 Morria por ti. H uma hora que te espero, ansiosa, quase chorando; mas bem vs que
estou risonha e alegre, tudo porque o melhor dos homens entrou nesta sala. Por que te
demoraste tanto?
 Tive duas interrupes em caminho; e a segunda muito maior que a primeira.
 Se tu me amasses deveras, gastarias dous minutos com as duas, e estarias aqui h trs
quartos de hora. Que riso  esse?
 A segunda interrupo foi teu marido.
Mariana estremeceu.
 Foi aqui perto, continuou Evaristo; falamos de ti, ele primeiro, a propsito no sei de
qu, e falou com bondade, quase que com ternura. Cheguei a crer que era um lao, um
modo de captar a minha confiana. Afinal despedimo-nos; mas eu ainda fiquei
espiando, a ver se ele voltava; no vi ningum. A est a causa da minha demora; a tens
tambm a causa dos meus tormentos.
 No venhas outra vez com essa eterna desconfiana, atalhou Mariana sorrindo, como
na tela, h pouco. Que quer voc que eu faa? Xavier  meu marido; no hei de mandlo
embora, nem castig-lo, nem mat-lo, s porque eu e voc nos amamos.
 No digo que o mates; mas tu o amas, Mariana.
 Amo-te e a ningum mais, respondeu ela, evitando assim a resposta negativa, que lhe
pareceu demasiado crua.
Foi o que pensou Evaristo; mas no aceitou a delicadeza da forma indireta. S a
negativa rude e simples poderia content-lo.
 Tu o amas, insistiu ele.
Mariana refletiu um instante.
 Para que hs de revolver a minha alma e o meu passado? disse ela. Para ns, o
mundo comeou h quatro meses, e no acabar mais  ou acabar quando voc se
aborrecer de mim, porque eu no mudarei nunca...
Evaristo ajoelhou-se, puxou-lhe os braos, beijou-lhe as mos, e fechou nelas o rosto;
finalmente deixou cair a cabea nos joelhos de Mariana. Ficaram assim alguns instantes,
at que ela sentiu os dedos midos, ergueu-lhe a cabea e viu-lhe os olhos rasos de
gua. Que era?
 Nada, disse ele; adeus.
 Mas que foi?!
 Tu o amas, tornou Evaristo, e esta idia apavora-me, ao mesmo tempo que me aflige,
porque eu sou capaz de mat-lo, se tiver certeza de que ainda o amas.
 Voc  um homem singular, retorquiu Mariana, depois de enxugar os olhos de
Evaristo com os cabelos, que despenteara s pressas, para servi-lo com o melhor leno
do mundo. Que o amo? No, j no o amo, a tens a resposta. Mas j agora hs de
consentir que te diga tudo, porque a minha ndole no admite meias confidncias.
Desta vez foi Evaristo que estremeceu; mas a curiosidade mordia-lhe a ele o corao,
em tal maneira, que no houve mais temer, seno aguardar e escutar. Apoiado nos
joelhos dela, ouviu a narrao, que foi curta. Mariana referiu o casamento, a resistncia
do pai, a dor da me, e a perseverana dela e de Xavier. Esperaram dez meses, firmes,
ela j menos paciente que ele, porque a paixo que a tomou tinha toda a fora necessria
para as decises violentas. Que de lgrimas verteu por ele! Que de maldies lhe saram
do corao contra os pais, e foram sufocadas por ela, que temia a Deus, e no quisera
que essas palavras, como armas de parricdio, a condenassem, pior que ao inferno, 
eterna separao do homem a quem amava. Venceu a constncia, o tempo desarmou os
velhos, e o casamento se fez, l se iam sete anos. A paixo dos noivos prolongou-se na
vida conjugal. Quando o tempo trouxe o sossego, trouxe tambm a estima. Os coraes
eram harmnicos, as recordaes da luta pungentes e doces. A felicidade serena veio
sentar-se  porta deles, como uma sentinela. Mas bem depressa se foi a sentinela; no
deixou a desgraa, nem ainda o tdio, mas a apatia, uma figura plida, sem movimento,
que mal sorria e no lembrava nada. Foi por esse tempo que Evaristo apareceu aos seus
olhos e a arrebatou. No a arrebatou ao amor de ningum; mas por isso mesmo nada
tinha que ver com o passado, que era um mistrio, e podia trazer remorsos...
 Remorsos? interrompeu ele.
 Podias supor que eu os tinha; mas no os tenho, nem os terei jamais.
 Obrigado! disse Evaristo aps alguns momentos; agradeo-te a confisso. No falarei
mais de tal assunto. No o amas,  o essencial. Que linda s tu quando juras assim, e me
falas do nosso futuro! Sim, acabou; agora aqui estou, ama-me!
 S a ti, querido.
 S a mim? Ainda uma vez, jura!
 Por estes olhos, respondeu ela, beijando-lhe os olhos; por estes lbios, continuou,
impondo-lhe um beijo nos lbios. Pela minha vida e pela tua!
Evaristo repetiu as mesmas frmulas, com iguais cerimnias. Depois, sentou-se defronte
de Mariana como estava a princpio. Ela ergueu-se ento, por sua vez, e foi ajoelhar-selhe
aos ps, com os braos nos joelhos dele. Os cabelos cados enquadravam to bem o
rosto, que ele sentiu no ser um gnio para copi -la e leg-la ao mundo. Disse-lhe isso,
mas a moa no respondeu palavra; tinha os olhos fitos nele, suplicantes. Evaristo
inclinou-se, cravando nela os seus, e assim ficaram, rosto a rosto, uma, duas, trs horas,
at que algum veio acord-los:
 Faz favor de entrar.
Captulo III
EVARISTO teve um sobressalto. Deu com um homem, o mesmo criado que recebera o
seu carto de visita. Levantou-se depressa; Mariana recolheu-se  tela, que pendia da
parede, onde ele a viu outra vez, trajada  moda de 1865, penteada e tranqila. Como
nos sonhos, os pensamentos, gestos e atos mediram-se por outro tempo, que no o
tempo; fez-se tudo em cinco ou seis minutos, que tantos foram os que o criado
despendeu em levar o carto e trazer o convite. Entretanto,  certo que Evaristo sentia
ainda a impresso das carcias da moa, vivera realmente entre 1869 e 1872, porque as
trs horas da viso foram ainda uma concesso ao tempo. Toda a histria ressurgira com
os cimes que ele tinha de Xavier, os seus perdes e as ternuras recprocas. S faltou a
crise final, quando a me de Mariana, sabendo de tudo, corajosamente se interps e os
separou. Mariana resolveu morrer, chegou a ingerir veneno, e foi preciso o desespero da
me para restitu-la  vida. Xavier, que ento estava na provncia do Rio, nada soube
daquela tragdia, seno que a mulher escapara da morte, por causa de uma troca de
medicamentos. Evaristo quis ainda v-la antes de embarcar, mas foi impossvel.
 Vamos, disse ele agora ao criado que o esperava.
Xavier estava no gabinete prximo, estirado em um canap, com a mulher ao lado e
algumas visitas. Evaristo penetrou ali cheio de comoo. A luz era pouca, o silncio
grande; Mariana tinha presa uma das mos do enfermo, a observ-lo, a temer a morte ou
uma crise. Mal pde levantar os olhos para Evaristo e estender-lhe a mo; voltou a fitar
o marido, em cujo rosto havia a marca do longo padecimento, e cujo respirar parecia o
preldio da grande pera infinita. Evaristo, que apenas vira o
rosto de Mariana, retirou-se a um canto, sem ousar mirar-lhe a figura, nem acompanharlhe
os movimentos. Chegou o mdico, examinou o enfermo, recomendou as prescries
dadas, e retirou-se para voltar de noite. Mariana foi com ele at  porta, interrogando
baixo e procurando-lhe no rosto a verdade que a boca no queria dizer. Foi ento que
Evaristo a viu bem; a dor parecia alquebr-la mais que os anos. Conheceu-lhe o jeito
particular do corpo. No descia da tela, como a outra, mas
do tempo. Antes que ela tornasse ao leito do marido, Evaristo entendeu retirar-se
tambm, e foi at a porta.
 Peo-lhe licena... Sinto no poder falar agora a seu marido.
 Agora no pode ser; o mdico recomenda repouso e silncio. Ser noutra ocasio...
 No vim h mais tempo v-lo porque s h pouco  que soube... E no cheguei h
muito.
 Obrigada.
Evaristo estendeu-lhe a mo e saiu a passo abafado, enquanto ela voltava a sentar-se ao
p do doente. Nem os olhos nem a mo de Mariana revelaram em relao a ele uma
impresso qualquer, e a despedida fez-se como entre pessoas indiferentes. Certo, o amor
acabara, a data era remota, o corao envelhecera com o tempo, e o marido estava a
expirar; mas, refletia ele, como explicar que, ao cabo de dezoito anos de separao,
Mariana visse diante de si um homem que tanta parte tivera
em sua vida, sem o menor abalo, espanto, constrangimento que fosse? Eis a um
mistrio. Chamava-lhe mistrio. Ainda agora  despedida, sentira ele um aperto, uma
coisa, que lhe fez a palavra trpega, que lhe tirou as idias e at as simples frmulas
banais de pesar e de esperana. Ela, entretanto, no recebeu dele a menor comoo. E
lembrando-se do retrato da sala, Evaristo concluiu que a arte era superior  natureza; a
tela guardara o corpo e a alma... Tudo isso borrifado de um despeitozinho acre.
Xavier durou ainda uma semana. Indo fazer-lhe segunda visita, Evaristo assistiu  morte
do enfermo, e no pde furtar-se  comoo natural do momento, do lugar e das
circunstncias. Mariana, desgrenhada ao p do leito, tinha os olhos mortos de viglia e
de lgrimas. Quando Xavier, depois de longa agonia, expirou, mal se ouviu o choro de
alguns parentes e amigos; um grito agudssimo de Mariana chamou a ateno de todos;
depois o desmaio e a queda da viva. Durou alguns minutos a
perda dos sentidos; tornada a si, Mariana correu ao cadver, abraou-se a ele, soluando
desesperadamente, dizendo-lhe os nomes mais queridos e ternos. Tinham esquecido de
fechar os olhos ao cadver; da um lance pavoroso e melanclico, porque ela, depois de
os beijar muito, foi tomada de alucinao e bradou que ele ainda vivia, que estava salvo;
e, por mais que quisessem arranc-la dali, no cedia, empurrava a todos, clamava que
queriam tirar-lhe o marido. Nova crise a prostrou; foi levada s carreiras para outro
quarto.
Quando o enterro saiu no dia seguinte, Mariana no estava presente, por mais que
insistisse em despedir-se; j no tinha foras para acudir  vontade. Evaristo
acompanhou o enterro. Seguindo o carro fnebre, mal chegava a crer onde estava e o
que fazia. No cemitrio, falou a um dos parentes de Xavier, confiando-lhe a pena que
tivera de Mariana.
 V-se que se amavam muito, concluiu.
 Ah! muito, disse o parente. Casaram-se por paixo; no assisti ao casamento, porque
s cheguei ao Rio de Janeiro muitos anos depois, em 1874; achei-os, porm, to unidos
como se fossem noivos, e assisti at agora  vida de ambos. Viviam um para o outro;
no sei se ela ficar muito tempo neste mundo.
"1874", pensou Evaristo; "dous anos depois".
Mariana no assistiu  missa do stimo dia; um parente,  o mesmo do cemitrio, 
representava-a naquela triste ocasio. Evaristo soube por ele que o estado da viva no
lhe permitia arriscar-se  comemorao da catstrofe. Deixou passar alguns dias, e foi
fazer a sua visita de psames; mas, tendo dado o carto, ouviu que ela no recebia
ningum. Foi ento a So Paulo, voltou cinco ou seis semanas depois, preparou-se para
embarcar; antes de partir, pensou ainda em visitar Mariana,  no tanto por simples
cortesia, como para levar consigo a imagem,  deteriorada embora,  daquela paixo
de quatro anos.
No a encontrou em casa. Voltava zangado, mal consigo, achava-se impertinente e de
mau gosto. A pouca distncia viu sair da igreja do Esprito Santo uma senhora de luto,
que lhe pareceu Mariana. Era Mariana; vinha a p; ao passar pela carruagem olhou para
ele, fez que o no conhecia, e foi andando, de modo que o cumprimento de Evaristo
ficou sem resposta. Este ainda quis mandar parar o carro e despedir-se dela, ali mesmo,
na rua, um minuto, trs palavras; como, porm, hesitasse na
resoluo, s parou quando j havia passado a igreja, e Mariana ia um grande pedao
adiante. Apeou-se, no obstante, e desandou o caminho; mas, fosse respeito ou despeito,
trocou de resoluo, meteu-se no carro e partiu.
 Trs vezes sincera, concluiu, passados alguns minutos de reflexo.
Antes de um ms estava em Paris. No esquecera a comdia do amigo, a cuja primeira
representao no Odon ficara de assistir. Correu a saber dela; tinha cado
redondamente.
 Cousas de teatro, disse Evaristo ao autor, para consol-lo. H peas que caem. H
outras que ficam no repertrio.
Conto de Escola
A ESCOLA era na Rua do Costa, um sobradinho de grade de pau. O ano era de 1840.
Naquele dia  uma segunda-feira, do ms de maio  deixei-me estar alguns instantes
na Rua da Princesa a ver onde iria brincar a manh. Hesitava entre o morro de S. Diogo
e o Campo de SantAna, que no era ento esse parque atual, construo de gentleman,
mas um espao rstico, mais ou menos infinito, alastrado de lavadeiras, capim e burros
soltos. Morro ou campo? Tal era o problema. De repente disse comigo que o melhor era
a escola. E guiei para a escola. Aqui vai a razo.
Na semana anterior tinha feito dous suetos, e, descoberto o caso, recebi o pagamento
das mos de meu pai, que me deu uma sova de vara de marmeleiro. As sovas de meu pai
doam por muito tempo. Era um velho empregado do Arsenal de Guerra, rspido e
intolerante. Sonhava para mim uma grande posio comercial, e tinha nsia de me ver
com os elementos mercantis, ler, escrever e contar, para me meter de caixeiro. Citavame
nomes de capitalistas que tinham comeado ao balco. Ora, foi a lembrana do
ltimo castigo que me levou naquela manh para o colgio. No era um menino de
virtudes.
Subi a escada com cautela, para no ser ouvido do mestre, e cheguei a tempo; ele entrou
na sala trs ou quatro minutos depois. Entrou com o andar manso do costume, em
chinelas de cordovo, com a jaqueta de brim lavada e desbotada, cala branca e tesa e
grande colarinho cado. Chamava-se Policarpo e tinha perto de cinqenta anos ou mais.
Uma vez sentado, extraiu da jaqueta a boceta de rap e o leno vermelho, p-los na
gaveta; depois relanceou os olhos pela sala. Os meninos, que se conservaram de p
durante a entrada dele, tornaram a sentar-se. Tudo estava em ordem; comearam os
trabalhos.
 Seu Pilar, eu preciso falar com voc, disse-me baixinho o filho do mestre.
Chamava-se Raimundo este pequeno, e era mole, aplicado, inteligncia tarda. Raimundo
gastava duas horas em reter aquilo que a outros levava apenas trinta ou cinqenta
minutos; vencia com o tempo o que no podia fazer logo com o crebro. Reunia a isso
um grande medo ao pai. Era uma criana fina, plida, cara doente; raramente estava
alegre. Entrava na escola depois do pai e retirava-se antes. O mestre era mais severo
com ele do que conosco.
 O que  que voc quer?
 Logo, respondeu ele com voz trmula.
Comeou a lio de escrita. Custa-me dizer que eu era dos mais adiantados da escola;
mas era. No digo tambm que era dos mais inteligentes, por um escrpulo fcil de
entender e de excelente efeito no estilo, mas no tenho outra convico. Note-se que no
era plido nem mofino: tinha boas cores e msculos de ferro. Na lio de escrita, por
exemplo, acabava sempre antes de todos, mas deixava-me estar a recortar narizes no
papel ou na tbua, ocupao sem nobreza nem espiritualidade, mas em todo caso
ingnua. Naquele dia foi a mesma coisa; to depressa acabei, como entrei a reproduzir o
nariz do mestre, dando-lhe cinco ou seis atitudes diferentes, das quais recordo a
interrogativa, a admirativa, a dubitativa e a cogitativa. No lhes punha esses nomes,
pobre estudante de primeiras letras que era; mas, instintivamente, dava-lhes essas
expresses. Os outros foram acabando; no tive remdio seno acabar tambm, entregar
a escrita, e voltar para o meu lugar.
Com franqueza, estava arrependido de ter vindo. Agora que ficava preso, ardia por
andar l fora, e recapitulava o campo e o morro, pensava nos outros meninos vadios, o
Chico Telha, o Amrico, o Carlos das Escadinhas, a fina flor do bairro e do gnero
humano. Para cmulo de desespero, vi atravs das vidraas da escola, no claro azul do
cu, por cima do morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de
uma corda imensa, que bojava no ar, uma cousa soberba. E eu na
escola, sentado, pernas unidas, com o livro de leitura e a gramtica nos joelhos.
 Fui um bobo em vir, disse eu ao Raimundo.
 No diga isso, murmurou ele.
Olhei para ele; estava mais plido. Ento lembrou-me outra vez que queria pedir-me
alguma cousa, e perguntei-lhe o que era. Raimundo estremeceu de novo, e, rpido,
disse-me que esperasse um pouco; era uma coisa particular.
 Seu Pilar... murmurou ele da a alguns minutos.
 Que ?
 Voc...
 Voc qu?
Ele deitou os olhos ao pai, e depois a alguns outros meninos. Um destes, o Curvelo,
olhava para ele, desconfiado, e o Raimundo, notando-me essa circunstncia, pediu
alguns minutos mais de espera. Confesso que comeava a arder de curiosidade. Olhei
para o Curvelo, e vi que parecia atento; podia ser uma simples curiosidade vaga, natural
indiscrio; mas podia ser tambm alguma cousa entre eles. Esse Curvelo era um pouco
levado do diabo. Tinha onze anos, era mais velho que ns.
Que me quereria o Raimundo? Continuei inquieto, remexendo-me muito, falando-lhe
baixo, com instncia, que me dissesse o que era, que ningum cuidava dele nem de
mim. Ou ento, de tarde...
 De tarde, no, interrompeu-me ele; no pode ser de tarde.
 Ento agora...
 Papai est olhando.
Na verdade, o mestre fitava-nos. Como era mais severo para o filho, buscava-o muitas
vezes com os olhos, para traz-lo mais aperreado. Mas ns tambm ramos finos;
metemos o nariz no livro, e continuamos a ler. Afinal cansou e tomou as folhas do dia,
trs ou quatro, que ele lia devagar, mastigando as idias e as paixes. No esqueam que
estvamos ento no fim da Regncia, e que era grande a agitao pblica. Policarpo
tinha decerto algum partido, mas nunca pude averiguar esse ponto. O pior que ele podia
ter, para ns, era a palmatria. E essa l estava, pendurada do portal da janela,  direita,
com os seus cinco olhos do diabo. Era s levantar a mo, despendur-la e brandi-la, com
a fora do costume, que no era pouca. E da, pode ser que alguma vez as paixes
polticas dominassem nele a ponto de poupar-nos uma ou outra correo. Naquele dia,
ao menos, pareceu-me que lia as folhas com muito interesse; levantava os olhos de
quando em quando, ou tomava uma pitada, mas tornava logo aos jornais, e lia a valer.
No fim de algum tempo  dez ou doze minutos  Raimundo meteu a mo no bolso
das calas e olhou para mim.
 Sabe o que tenho aqui?
 No.
 Uma pratinha que mame me deu.
 Hoje?
 No, no outro dia, quando fiz anos...
 Pratinha de verdade?
 De verdade.
Tirou-a vagarosamente, e mostrou-me de longe. Era uma moeda do tempo do rei, cuido
que doze vintns ou dous tostes, no me lembro; mas era uma moeda, e tal moeda que
me fez pular o sangue no corao. Raimundo revolveu em mim o olhar plido; depois
perguntou-me se a queria para mim. Respondi-lhe que estava caoando, mas ele jurou
que no.
 Mas ento voc fica sem ela?
 Mame depois me arranja outra. Ela tem muitas que vov lhe deixou, numa caixinha;
algumas so de ouro. Voc quer esta?
Minha resposta foi estender-lhe a mo disfaradamente, depois de olhar para a mesa do
mestre. Raimundo recuou a mo dele e deu  boca um gesto amarelo, que queria sorrir.
Em seguida props-me um negcio, uma troca de servios; ele me daria a moeda, eu lhe
explicaria um ponto da lio de sintaxe. No conseguira reter nada do livro, e estava
com medo do pai. E conclua a proposta esfregando a pratinha nos joelhos...
Tive uma sensao esquisita. No  que eu possusse da virtude uma idia antes prpria
de homem; no  tambm que no fosse fcil em empregar uma ou outra mentira de
criana. Sabamos ambos enganar ao mestre. A novidade estava nos termos da proposta,
na troca de lio e dinheiro, compra franca, positiva, toma l, d c; tal foi a causa da
sensao. Fiquei a olhar para ele,  toa, sem poder dizer nada.
Compreende-se que o ponto da lio era difcil, e que o Raimundo, no o tendo
aprendido, recorria a um meio que lhe pareceu til para escapar ao castigo do pai. Se me
tem pedido a cousa por favor, alcan-la-ia do mesmo modo, como de outras vezes, mas
parece que era lembrana das outras vezes, o medo de achar a minha vontade frouxa ou
cansada, e no aprender como queria,  e pode ser mesmo que em alguma ocasio lhe
tivesse ensinado mal,  parece que tal foi a causa da
proposta. O pobre-diabo contava com o favor,  mas queria assegurar-lhe a eficcia, e
da recorreu  moeda que a me lhe dera e que ele guardava como relquia ou
brinquedo; pegou dela e veio esfreg-la nos joelhos,  minha vista, como uma tentao...
Realmente, era bonita, fina, branca, muito branca; e para mim, que s trazia cobre no
bolso, quando trazia alguma cousa, um cobre feio, grosso, azinhavrado...
No queria receb-la, e custava-me recus-la. Olhei para o mestre, que continuava a ler,
com tal interesse, que lhe pingava o rap do nariz.  Ande, tome, dizia-me baixinho o
filho. E a pratinha fuzilava-lhe entre os dedos, como se fora diamante... Em verdade, se
o mestre no visse nada, que mal havia? E ele no podia ver nada, estava agarrado aos
jornais, lendo com fogo, com indignao...
 Tome, tome...
Relancei os olhos pela sala, e dei com os do Curvelo em ns; disse ao Raimundo que
esperasse. Pareceu-me que o outro nos observava, ento dissimulei; mas da a pouco
deitei-lhe outra vez o olho, e  tanto se ilude a vontade!  no lhe vi mais nada. Ento
cobrei nimo.
 D c...
Raimundo deu-me a pratinha, sorrateiramente; eu meti-a na algibeira das calas, com
um alvoroo que no posso definir. C estava ela comigo, pegadinha  perna. Restava
prestar o servio, ensinar a lio e no me demorei em faz-lo, nem o fiz mal, ao menos
conscientemente; passava-lhe a explicao em um retalho de papel que ele recebeu com
cautela e cheio de ateno. Sentia-se que despendia um esforo cinco ou seis vezes
maior para aprender um nada; mas contanto que ele
escapasse ao castigo, tudo iria bem.
De repente, olhei para o Curvelo e estremeci; tinha os olhos em ns, com um riso que
me pareceu mau. Disfarcei; mas da a pouco, voltando-me outra vez para ele, achei-o do
mesmo modo, com o mesmo ar, acrescendo que entrava a remexer-se no banco,
impaciente. Sorri para ele e ele no sorriu; ao contrrio, franziu a testa, o que lhe deu
um aspecto ameaador. O corao bateu-me muito.
 Precisamos muito cuidado, disse eu ao Raimundo.
 Diga-me isto s, murmurou ele.
Fiz-lhe sinal que se calasse; mas ele instava, e a moeda, c no bolso, lembrava-me o
contrato feito. Ensinei-lhe o que era, disfarando muito; depois, tornei a olhar para o
Curvelo, que me pareceu ainda mais inquieto, e o riso, dantes mau, estava agora pior.
No  preciso dizer que tambm eu ficara em brasas, ansioso que a aula acabasse; mas
nem o relgio andava como das outras vezes, nem o mestre fazia caso da escola; este lia
os jornais, artigo por artigo, pontuando-os com exclamaes, com gestos de ombros,
com uma ou duas pancadinhas na mesa. E l fora, no cu azul, por cima do morro, o
mesmo eterno papagaio, guinando a um lado e outro, como se me chamasse a ir ter com
ele. Imaginei-me ali, com os livros e a pedra embaixo da mangueira, e a pratinha no
bolso das calas, que eu no daria a ningum, nem que me serrassem; guard-la-ia em
casa, dizendo a mame que a tinha achado na rua. Para que me no fugisse, ia-a
apalpando, roando-lhe os dedos pelo cunho, quase lendo pelo tato a inscrio, com
uma grande vontade de espi-la.
 Oh! seu Pilar! bradou o mestre com voz de trovo.
Estremeci como se acordasse de um sonho, e levantei-me s pressas. Dei com o mestre,
olhando para mim, cara fechada, jornais dispersos, e ao p da mesa, em p, o Curvelo.
Pareceu-me adivinhar tudo.
 Venha c! bradou o mestre.
Fui e parei diante dele. Ele enterrou-me pela conscincia dentro um par de olhos
pontudos; depois chamou o filho. Toda a escola tinha parado; ningum mais lia,
ningum fazia um s movimento. Eu, conquanto no tirasse os olhos do mestre, sentia
no ar a curiosidade e o pavor de todos.
 Ento o senhor recebe dinheiro para ensinar as lies aos outros? disse-me o
Policarpo.
 Eu...
 D c a moeda que este seu colega lhe deu! clamou.
No obedeci logo, mas no pude negar nada. Continuei a tremer muito. Policarpo
bradou de novo que lhe desse a moeda, e eu no resisti mais, meti a mo no bolso,
vagarosamente, saquei-a e entreguei-lha. Ele examinou-a de um e outro lado, bufando
de raiva; depois estendeu o brao e atirou-a  rua. E ento disse-nos uma poro de
cousas duras, que tanto o filho como eu acabvamos de praticar uma ao feia, indigna,
baixa, uma vilania, e para emenda e exemplo amos ser castigados.
Aqui pegou da palmatria.
 Perdo, seu mestre... solucei eu.
 No h perdo! D c a mo! D c! Vamos! Sem-vergonha! D c a mo!
 Mas, seu mestre...
 Olhe que  pior!
Estendi-lhe a mo direita, depois a esquerda, e fui recebendo os bolos uns por cima dos
outros, at completar doze, que me deixaram as palmas vermelhas e inchadas. Chegou a
vez do filho, e foi a mesma cousa; no lhe poupou nada, dois, quatro, oito, doze bolos.
Acabou, pregou-nos outro sermo. Chamou-nos sem-vergonhas, desaforados, e jurou
que se repetssemos o negcio apanharamos tal castigo que nos havia de lembrar para
todo o sempre. E exclamava: Porcalhes! tratantes! faltos de brio!
Eu, por mim, tinha a cara no cho. No ousava fitar ningum, sentia todos os olhos em
ns. Recolhi-me ao banco, soluando, fustigado pelos improprios do mestre. Na sala
arquejava o terror; posso dizer que naquele dia ningum faria igual negcio. Creio que o
prprio Curvelo enfiara de medo. No olhei logo para ele, c dentro de mim jurava
quebrar-lhe a cara, na rua, logo que sassemos, to certo como trs e dous serem cinco.
Da a algum tempo olhei para ele; ele tambm olhava para mim, mas desviou a cara, e
penso que empalideceu. Comps-se e entrou a ler em voz alta; estava com medo.
Comeou a variar de atitude, agitando-se  toa, coando os joelhos, o nariz. Pode ser at
que se arrependesse de nos ter denunciado; e na verdade, por que denunciar-nos? Em
que  que lhe tirvamos alguma cousa?
" Tu me pagas! to duro como osso!" dizia eu comigo.
Veio a hora de sair, e samos; ele foi adiante, apressado, e eu no queria brigar ali
mesmo, na Rua do Costa, perto do colgio; havia de ser na Rua larga So Joaquim.
Quando, porm, cheguei  esquina, j o no vi; provavelmente escondera-se em algum
corredor ou loja; entrei numa botica, espiei em outras casas, perguntei por ele a algumas
pessoas, ningum me deu notcia. De tarde faltou  escola.
Em casa no contei nada,  claro; mas para explicar as mos inchadas, menti a minha
me, disse-lhe que no tinha sabido a lio. Dormi nessa noite, mandando ao diabo os
dous meninos, tanto o da denncia como o da moeda. E sonhei com a moeda; sonhei
que, ao tornar  escola, no dia seguinte, dera com ela na rua, e a apanhara, sem medo
nem escrpulos...
De manh, acordei cedo. A idia de ir procurar a moeda fez-me vestir depressa. O dia
estava esplndido, um dia de maio, sol magnfico, ar brando, sem contar as calas novas
que minha me me deu, por sinal que eram amarelas. Tudo isso, e a pratinha... Sa de
casa, como se fosse trepar ao trono de Jerusalm. Piquei o passo para que ningum
chegasse antes de mim  escola; ainda assim no andei to depressa que amarrotasse as
calas. No, que elas eram bonitas! Mirava-as, fugia aos
encontros, ao lixo da rua...
Na rua encontrei uma companhia do batalho de fuzileiros, tambor  frente, rufando.
No podia ouvir isto quieto. Os soldados vinham batendo o p rpido, igual, direita,
esquerda, ao som do rufo; vinham, passaram por mim, e foram andando. Eu senti uma
comicho nos ps, e tive mpeto de ir atrs deles. J lhes disse: o dia estava lindo, e
depois o tambor... Olhei para um e outro lado; afinal, no sei como foi, entrei a marchar
tambm ao som do rufo, creio que cantarolando alguma cousa:
Rato na casaca... No fui  escola, acompanhei os fuzileiros, depois enfiei pela Sade, e
acabei a manh na Praia da Gamboa. Voltei para casa com as calas enxovalhadas, sem
pratinha no bolso nem ressentimento na alma. E contudo a pratinha era bonita e foram
eles, Raimundo e Curvelo, que me deram o primeiro conhecimento, um da corrupo,
outro da delao; mas o diabo do tambor...
Um Aplogo
ERA UMA VEZ uma agulha, que disse a um novelo de linha:
 Por que est voc com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale
alguma coisa neste mundo?
 Deixe-me, senhora.
 Que a deixe? Que a deixe, por qu? Porque lhe digo que est com um ar
insuportvel? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabea.
 Que cabea, senhora? A senhora no  alfinete,  agulha. Agulha no tem cabea.
Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua
vida e deixe a dos outros.
 Mas voc  orgulhosa.
 Decerto que sou.
 Mas por qu?
  boa! Porque coso. Ento os vestidos e enfeites de nossa ama, quem  que os cose,
seno eu?
 Voc? Esta agora  melhor. Voc  que os cose? Voc ignora que quem os cose sou
eu, e muito eu?
 Voc fura o pano, nada mais; eu  que coso, prendo um pedao ao outro, dou feio
aos babados...
 Sim, mas que vale isso? Eu  que furo o pano, vou adiante, puxando por voc, que
vem atrs, obedecendo ao que eu fao e mando...
 Tambm os batedores vo adiante do imperador.
 Voc  imperador?
 No digo isso. Mas a verdade  que voc faz um papel subalterno, indo adiante; vai
s mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e nfimo. Eu  que prendo,
ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou  casa da baronesa. No sei se disse que isto
se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao p de si, para no andar
atrs dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou
a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano
adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, geis como os galgos
de Diana  para dar a isto uma cor potica. E dizia a
agulha:
 Ento, senhora linha, ainda teima no que dizia h pouco? No repara que esta distinta
costureira s se importa comigo; eu  que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles,
furando abaixo e acima.
A linha no respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por
ela, silenciosa e ativa como quem sabe o que faz, e no est para ouvir palavras loucas.
A agulha vendo que ela no lhe dava resposta, calou-se tambm, e foi andando. E era
tudo silncio na saleta de costura; no se ouvia mais que o plic-plic plic -plic da agulha
no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou
ainda nesse e no outro, at que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se,
levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessrio. E quando
compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaava daqui ou
dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:
 Ora agora, diga-me quem  que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do
vestido e da elegncia? Quem  que vai danar com ministros e diplomatas, enquanto
voc volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos,
diga l.
Parece que a agulha no disse nada; mas um alfinete, de cabea grande e no menor
experincia, murmurou  pobre agulha:
 Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela  que vai gozar da
vida, enquanto a ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que no abro caminho
para ningum. Onde me espetam, fico.
Contei esta histria a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabea: 
Tambm eu tenho servido de agulha a muita linha ordinria!
D. Paula
NO ERA POSSVEL chegar mais a ponto. D. Paula entrou na sala exatamente quando
a sobrinha enxugava os olhos cansados de chorar. Compreende-se o assombro da tia.
Entender-se- tambm o da sobrinha, em se sabendo que D. Paula vive no alto da
Tijuca, donde raras vezes desce; a ltima foi pelo Natal passado, e estamos em maio de
1882. Desceu ontem,  tarde, e foi para casa da irm, Rua do Lavradio. Hoje, to
depressa almoou, vestiu-se e correu a visitar a sobrinha. A primeira escrava que a viu,
quis ir avisar a senhora, mas D. Paula ordenou-lhe que no, e foi p ante p, muito
devagar, para
impedir o rumor das saias, abriu a porta da sala de visitas, e entrou.
 Que  isto? exclamou.
Venancinha atirou-se-lhe aos braos, as lgrimas vieram-lhe de novo. A tia beijou-a
muito, abraou-a, disse-lhe palavras de conforto e pediu, e quis que lhe contasse o que
era, se alguma doena, ou...
 Antes fosse uma doena! antes fosse a morte! interrompeu a moa.
 No digas tolices; mas que foi? anda, que foi?
Venancinha enxugou os olhos e comeou a falar. No pde ir alm de cinco ou seis
palavras; as lgrimas tornaram, to abundantes e impetuosas, que D. Paula achou de
bom aviso deix-las correr primeiro. Entretanto, foi tirando a capa de rendas pretas que
a envolvia, e descalando as luvas . Era uma bonita velha, elegante, dona de um par de
olhos grandes, que deviam ter sido infinitos. Enquanto a sobrinha chorava, ela foi cerrar
cautelosamente a porta da sala, e voltou ao canap. No fim de alguns minutos,
Venancinha cessou de chorar, e confiou  tia o que era.
Era nada menos que uma briga com o marido, to violenta, que chegaram a falar de
separao. A causa eram cimes. Desde muito que o marido embirrava com um sujeito;
mas na vspera  noite, em casa do C..., vendo-a danar com ele duas vezes e conversar
alguns minutos, concluiu que eram namorados. Voltou amuado para casa de manh,
acabado o almoo, a clera estourou, e ele disse-lhe cousas duras e amargas, que ela
repeliu com outras.
 Onde est teu marido? perguntou a tia.
 Saiu; parece que foi para o escritrio.
D. Paula perguntou-lhe se o escritrio era ainda o mesmo, e disse-lhe que descansasse,
que no era nada, dali a duas horas tudo estaria acabado. Calava as luvas rapidamente.
 Titia vai l?
 Vou... Pois ento? Vou. Teu marido  bom, so arrufos. 104? Vou l; espera por
mim, que as escravas no te vejam.
Tudo isso era dito com volubilidade, confiana e doura. Caladas as luvas, ps o
mantelete, e a sobrinha ajudou-a, falando tambm, jurando que, apesar de tudo, adorava
o Conrado. Conrado era o marido, advogado desde 1874. D. Paula saiu, levando muitos
beijos da moa. Na verdade, no podia chegar mais a ponto. De caminho, parece que ela
encarou o incidente, no digo desconfiada, mas curiosa, um pouco inquieta da realidade
positiva; em todo caso ia resoluta a reconstruir a paz domstica.
Chegou, no achou o sobrinho no escritrio, mas ele veio logo, e, passado o primeiro
espanto, no foi preciso que D. Paula lhe dissesse o objeto da visita; Conrado adivinhou
tudo. Confessou que fora excessivo em algumas cousas, e, por outro lado, no atribua 
mulher nenhuma ndole perversa ou viciosa. S isso; no mais, era uma cabea de vento,
muito amiga de cortesias, de olhos ternos, de palavrinhas doces, e a leviandade tambm
 uma das portas do vcio. Em relao  pessoa de quem se tratava, no tinha dvida de
que eram namorados. Venancinha contara s o fato da vspera; no referiu outros,
quatro ou cinco, o penltimo no teatro, onde chegou a haver tal ou qual escndalo. No
estava disposto a cobrir com a sua responsabilidade os desazos da mulher. Que
namorasse, mas por conta prpria.
D. Paula ouviu tudo, calada; depois falou tambm. Concordava que a sobrinha fosse
leviana; era prprio da idade. Moa bonita no sai  rua sem atrair os olhos, e  natural
que a admirao dos outros a lisonjeie. Tambm  natural que o que ela fizer de
lisonjeada parea aos outros e ao marido um princpio de namoro: a fatuidade de uns e o
cime do outro explicam tudo. Pela parte dela, acabava de ver a moa chorar lgrimas
sinceras, deixou-a consternada, falando de morrer, abatida com o que ele lhe dissera. E
se ele prprio s lhe atribua leviandade, por que no proceder com cautela e doura,
por meio de conselho e de observao, poupando-lhe as ocasies, apontando-lhe o mal
que fazem  reputao de uma senhora as aparncias de acordo, de simpatia, de boa
vontade para os homens?
No gastou menos de vinte minutos a boa senhora em dizer essas cousas mansas, com
to boa sombra, que o sobrinho sentiu apaziguar-se-lhe o corao. Resistia,  verdade;
duas ou trs vezes, para no resvalar na indulgncia, declarou  tia que entre eles tudo
estava acabado. E, para animar-se, evocava mentalmente as razes que tinha contra a
mulher. A tia, porm, abaixava a cabea para deixar passar a onda, e surgia outra vez
com os seus grandes olhos sagazes e teimosos. Conrado ia cedendo aos poucos e mal.
Foi ento que D. Paula props um meio-termo.
 Voc perdoa-lhe, fazem as pazes, e ela vai estar comigo, na Tijuca, um ou dous
meses; uma espcie de desterro. Eu, durante este tempo, encarrego-me de lhe pr ordem
no esprito. Valeu?
Conrado aceitou. D. Paula, to depressa obteve a palavra, despediu-se para levar a boa
nova  outra, Conrado acompanhou-a at  escada. Apertaram as mos; D. Paula no
soltou a dele sem lhe repetir os conselhos de brandura e prudncia; depois, fez esta
reflexo natural:
 E vo ver que o homem de quem se trata nem merece um minuto dos nossos
cuidados...
  um tal Vasco Maria Portela...
D. Paula empalideceu. Que Vasco Maria Portela? Um velho, antigo diplomata, que. ..
No, esse estava na Europa desde alguns anos, aposentado, e acabava de receber um
ttulo de baro. Era um filho dele, chegado de pouco, um pelintra... D. Paula apertou-lhe
a mo, e desceu rapidamente. No corredor, sem ter necessidade de ajustar a capa, f-lo
durante alguns minutos, com a mo trmula e um pouco de alvoroo na fisionomia.
Chegou mesmo a olhar para o cho, refletindo. Saiu, foi ter com a sobrinha, levando a
reconciliao e a clusula. Venancinha aceitou tudo.
Dous dias depois foram para a Tijuca. Venancinha ia menos alegre do que prometera;
provavelmente era o exlio, ou pode ser tambm que algumas saudades. Em todo caso, o
nome de Vasco subiu a Tijuca, se no em ambas as cabeas, ao menos na da tia, onde
era uma espcie de eco, um som remoto e brando, alguma cousa que parecia vir do
tempo da Stoltz e do ministrio Paran. Cantora e ministrio, cousas frgeis, no o eram
menos que a ventura de ser moa, e onde iam essas trs eternidades? Jaziam nas runas
de trinta anos. Era tudo o que D. Paula tinha em si e diante de si.
J se entende que o outro Vasco, o antigo, tambm foi moo e amou. Amaram-se,
fartaram-se um do outro,  sombra do casamento, durante alguns anos, e, como o vento
que passa no guarda a palestra dos homens, no h meio de escrever aqui o que ento
se disse da aventura. A aventura acabou; foi uma sucesso de horas doces e amargas, de
delcias, de lgrimas, de cleras, de arroubos, drogas vrias com que encheram a esta
senhora a taa das paixes. D. Paula esgotou-a inteira e emborcou-a depois para no
mais beber. A saciedade trouxe-lhe a abstinncia, e com o tempo foi esta ltima fase
que fez a opinio. Morreu-lhe o marido e foram vindo os anos. D. Paula era agora uma
pessoa austera e pia, cheia de prestgio e considerao.
A sobrinha  que lhe levou o pensamento ao passado. Foi a presena de uma situao
anloga, de mistura com o nome e o sangue do mesmo homem, que lhe acordou
algumas velhas lembranas. No esqueam que elas estavam na Tijuca, que iam viver
juntas algumas semanas, e que uma obedecia  outra; era tentar e desafiar a memria
 Mas ns deveras no voltamos  cidade to cedo? perguntou Venancinha rindo, no
outro dia de manh.
J ests aborrecida?
No, no, isso nunca, mas pergunto...
D. Paula, rindo tambm, fez com o dedo um gesto negativo; depois, perguntou-lhe se
tinha saudades c de baixo. Venancinha respondeu que nenhumas; e para dar mais fora
 resposta, acompanhou-a de um descair dos cantos da boca, a modo de indiferena e
desdm. Era pr demais na carta, D. Paula tinha o bom costume de no ler s carreiras,
como quem vai salvar o pai da forca, mas devagar, enfiando os olhos entre as slabas e
entre as letras, para ver tudo, e achou que o gesto da sobrinha era excessivo.
"Eles amam-se!" pensou ela.
A descoberta avivou o esprito do passado. D. Paula forcejou por sacudir fora essas
memrias importunas; elas, porm, voltavam, ou de manso ou de assalto, como
raparigas que eram, cantando, rindo, fazendo o diabo. D. Paula tornou aos seus bailes de
outro tempo, s suas eternas valsas que faziam pasmar a toda a gente, s mazurcas, que
ela metia  cara das sobrinha como sendo a mais graciosa cousa do mundo, e aos
teatros, e s cartas, e vagamente, aos beijos; mas tudo isso  e esta  a situao  tudo
isso era como as frias crnicas, esqueleto da histria, sem a alma da histria. Passava -se
tudo na cabea. D. Paula tentava emparelhar o corao com o crebro, a ver se sentia
alguma cousa alm da pura repetio mental, mas, por mais que evocasse as comoes
extintas, no lhe voltava nenhuma. Cousas truncadas!
Se ela conseguisse espiar para dentro do corao da sobrinha , pode ser que achasse ali a
sua imagem, e ento... Desde que esta idia penetrou no esprito de D. Paula,
complicou-lhe um pouco a obra de reparao e cura. Era sincera, tratava da alma da
outra, queria v-la restituda ao marido. Na constncia do pecado  que se pode desejar
que outros pequem tambm, para descer de companhia ao purgatrio; mas aqui o
pecado j no existia. D. Paula mostrava  sobrinha a superioridade do marido, as suas
virtudes e assim tambm as paixes, que podiam dar um mau desfecho ao casamento,
pior que trgico, o repdio.
Conrado, na primeira visita que lhes fez, nove dias depois, confirmou a advertncia da
tia; entrou frio e saiu frio. Venancinha ficou aterrada. Esperava que os nove dias de
separao tivessem abrandado o marido, e, em verdade, assim era; mas ele mascarou-se
 entrada e conteve-se para no capitular. E isto foi mais salutar que tudo o mais. O
terror de perder o marido foi o principal elemento de restaurao. O prprio desterro
no pde tanto.
Vai seno quando, dois dias depois daquela visita, estando ambas ao porto da chcara,
prestes a sair para o passeio do costume, viram vir um cavaleiro. Venancinha fixou a
vista, deu um pequeno grito, e correu a esconder-se atrs do muro. D. Paula
compreendeu e ficou. Quis ver o cavaleiro de mais perto; viu-o dali a dois ou trs
minutos, um galhardo rapaz, elegante, com as suas finas botas lustrosas, muito bemposto
no selim; tinha a mesma cara do outro Vasco, era o filho; o mesmo jeito da
cabea, um pouco  direita, os mesmos ombros largos, os mesmos olhos redondos e
profundos.
Nessa mesma noite, Venancinha contou-lhe tudo, depois da primeira palavra que ela lhe
arrancou. Tinham-se visto nas corridas, uma vez, logo que ele chegou da Europa.
Quinze dias depois, foi-lhe apresentado em um baile, e pareceu-lhe to bem, com um ar
to parisiense, que ela falou dele, na manh seguinte, ao marido. Conrado franziu o
sobrolho, e foi este gesto que lhe deu uma idia que at ento no tinha. Comeou a vlo
com prazer; da a pouco com certa ansiedade. Ele fala va-lhe respeitosamente, dizialhe
cousas amiga, que ela era a mais bonita moa do Rio, e a mais elegante, que j em
Paris ouvira elogi-la muito, por algumas senhoras da famlia Alvarenga. Tinha graa
em criticar os outros, e sabia dizer tambm umas palavras sentidas, como ningum. No
falava de amor, mas perseguia-a com os olhos, e ela, por mais que afastasse os seus, no
podia afast-los de todo. Comeou a pensar nele, amiudadamente, com interesse, e
quando se encontravam, batia-lhe muito o corao, pode ser que ele lhe visse ento, no
rosto, a impresso que fazia.
D. Paula, inclinada para ela, ouvia essa narrao, que a fica apenas resumida e
coordenada. Tinha toda a vida nos olhos; a boca meio aberta, parecia beber as palavras
da sobrinha, ansiosamente, como um cordial. E pedia-lhe mais, que lhe contasse tudo,
tudo. Venancinha criou confiana. O ar da tia era to jovem, a exortao to meiga e
cheia de um perdo antecipado, que ela achou ali uma confidente e amiga, no obstante
algumas frases severas que lhe ouviu, mescladas s outras, por um motivo de
inconsciente hipocrisia. No digo clculo; D. Paula enganava-se a si mesma. Podemos
compar-la a um general invlido, que forceja por achar um pouco do antigo ardor na
audincia de outras campanhas.
J vs que teu marido tinha razo, dizia ela; foste imprudente, muito imprudente...
Venancinha achou que sim, mas jurou que estava tudo acabado.
 Receio que no. Chegaste a am-lo deveras?
Titia...
Tu ainda gostas dele!
Juro que no. No gosto; mas confesso... sim... confesso que gostei. . . Perdoe-me
tudo; no diga nada a Conrado; estou arrependida... Repito que a princpio um pouco
fascinada... Mas que quer a senhora?
 Ele declarou-te alguma cousa?
Declarou; foi no teatro, uma noite, no Teatro Lrico,  sada. Tinha costume de ir
buscar-me ao camarote e conduzir-me at o carro, e foi  sada... duas palavras...
D. Paula no perguntou, por pudor, as prprias palavras do namorado, mas imaginou as
circunstncias, o corredor, os pares que saam, as luzes, a multido, o rumor das vozes,
e teve o poder de representar, com o quadro, um pouco das sensaes dela; e pediu-lhas
com interesse, astutamente.
No sei o que senti, acudiu a moa cuja comoo crescente ia desatando a lngua; no
me lembro dos primeiros cinco minutos. Creio que fiquei sria; em todo o caso, no lhe
disse nada. Pareceu-me que toda gente olhava para ns, que teriam ouvido, e quando
algum me cumprimentava sorrindo, dava-me idia de estar caoando. Desci as escadas
no sei como, entrei no carro sem saber o que fazia; ao apertar-lhe a mo, afrouxei bem
os dedos. Juro-lhe que no queria ter ouvido nada. Conrado disse-me que tinha sono, e
encostou-se ao fundo do carro; foi melhor assim, porque eu no sei que diria, se
tivssemos de ir conversando. Encostei-me tambm, mas por pouco tempo; no podia
estar na mesma posio. Olhava para fora atravs dos vidros, e via s o claro dos
lampies, de quando em quando, e afinal nem isso mesmo; via os corredores do teatro,
as escadas, as pessoas todas, e ele ao p de mim, cochichando as palavras, duas palavras
s, e no posso dizer o que pensei em todo esse tempo; tinha as idias baralhadas,
confusas, uma revoluo em mim . . .
 Mas, em casa?
Em casa, despindo-me,  que pude refletir um pouco, mas muito pouco. Dormi tarde,
e mal. De manh, tinha a cabea aturdida. No posso dizer que estava alegre nem triste,
lembro-me que pensava muito nele, e para arred-lo prometi a mim mesma revelar tudo
ao Conrado; mas o pensamento voltava outra vez. De quando em quando, parecia-me
escutar a voz dele, e estremecia. Cheguei a lembrar-me que,  despedida, lhe dera os
dedos frouxos, e sentia, no sei como diga, uma espcie de arrependimento, um medo
de o ter ofendido... e depois vinha o desejo de o ver outra vez... Perdoe-me, titia; a
senhora  que quer que lhe conte tudo.
A resposta de D. Paula foi apertar-lhe muito a mo e fazer um gesto de cabea. Afinal
achava alguma cousa de outro tempo, ao contacto daquelas sensaes ingenuamente
narradas. Tinha os olhos ora meio cerrados, na sonolncia da recordao,  ora
aguados de curiosidade e calor, e ouvia tudo, dia por dia, encontro por encontro, a
prpria cena do teatro, que a sobrinha a princpio lhe ocultara. E vinha tudo o mais,
horas de nsia, de saudade, de medo, de esperana, desalentos, dissimulaes, mpetos,
toda a agitao de uma criatura em tais circunstncias, nada dispensava a curiosidade
insacivel da tia. No era um livro, no era sequer um captulo de adultrio, mas um
prlogo,  interessante e violento.
Venancinha acabou. A tia no lhe disse nada, deixou-se estar metida em si mesma;
depois acordou, pegou-lhe na mo e puxou-a. No lhe falou logo; fitou primeiro, e de
perto, toda essa mocidade, inquieta e palpitante, a boca fresca, os olhos ainda infinitos, e
s voltou a si quando a sobrinha lhe pediu outra vez perdo. D. Paula disse-lhe tudo o
que a ternura e a austeridade da me lhe poderia dizer, falou-lhe de castidade, de amor
ao marido, de respeito pblico; foi to eloqente que Venancinha no pde conter-se, e
chorou.
Veio o ch, mas no h ch possvel depois de certas confidncias. Venancinha
recolheu-se logo, e, como a luz era agora maior, saiu da sala com os olhos baixos, para
que o criado lhe no visse a comoo. D. Paula ficou diante da mesa e do criado. Gastou
vinte minutos, ou pouco menos, em beber uma xcara de ch e roer um biscouto, e
apenas ficou s, foi encostar-se  janela, que dava para a chcara.
Ventava um pouco, as folhas moviam-se sussurrando, e, conquanto no fossem as
mesmas do outro tempo, ainda assim perguntavam-lhe: "Paula, voc lembra-se do outro
tempo?" Que esta  a particularidade das folhas, as geraes que passam contam s que
chegam as cousas que viram, e  assim que todas sabem tudo e perguntam por tudo.
Voc lembra-se do outro tempo?
Lembrar, lembrava, mas aquela sensao de h pouco, reflexo apenas, tinha agora
cessado. Em vo repetia as palavras da sobrinha, farejando o ar agreste da noite: era s
na cabea que achava algum vestgio, reminiscncias, cousas truncadas. O corao
empacara de novo, o sangue ia outra vez com a andadura do costume. Faltava-lhe o
contacto moral da outra. E continuava, apesar de tudo, diante da noite, que era igual s
outras noites de ento, e nada tinha que se parecesse com as do tempo da Stoltz e do
Marqus de Paran; mas continuava, e l dentro as pretas espalhavam o sono contando
anedotas, e diziam, uma ou outra vez, impacientes:
Sinh velha hoje deita tarde como diabo!
Viver!
Fim dos tempos. Ahasverus, sentado em uma rocha, fita longamente
o horizonte, onde passam duas guias cruzando-se. Medita, depois sonha. Vai
declinando o dia.
Ahasverus.  Chego  clusula dos tempos; este  o limiar da eternidade. A terra est
deserta; nenhum outro homem respira o ar da vida. Sou o ltimo; posso morrer. Morrer!
Deliciosa idia! Sculos de sculos vivi, cansado, mortificado, andando sempre, mas eilos
que acabam e vou morrer com eles. Velha natureza, adeus! Cu azul, imenso cu for
aberto para que desam os espritos da vida nova, terra inimiga, que me no comeste os
ossos, adeus! O errante no errar mais. Deus me perdoar, se quiser, mas a morte
consola-me. Aquela montanha  spera como a minha dor; aquelas guias, que ali
passam, devem ser famintas como o meu desespero. Morrereis tambm, guias divinas?
Prometeu.  Certo que os homens acabaram; a terra est nua deles.
Ahasverus.  Ouo ainda uma voz... Voz de homem? Cus implacveis, no sou ento
o ltimo? Ei-lo que se aproxima... Quem s tu? H em teus grandes olhos alguma cousa
parecida com a luz misteriosa dos arcanjos de Israel; no s homem...
Prometeu.  No.
Ahasverus.  Raa divina?
Prometeu.  Tu o disseste.
Ahasverus.  No te conheo; mas que importa que te no conhea? No s homem;
posso ento morrer; pois sou o ltimo, e fecho a porta da vida.
Prometeu.  A vida, como a antiga Tebas, tem cem portas. Fechas uma, outras se
abriro. s o ltimo da tua espcie? Vir outra espcie melhor, no feita do mesmo
barro, mas da mesma luz. Sim, homem derradeiro, toda a plebe dos espritos perecer
para sempre; a flor deles  que voltar  terra para reger as coisas. Os tempos sero
retificados. O mal acabar; os ventos no espalharo mais nem os germes da morte, nem
o clamor dos oprimidos, mas to somente a cantiga do amor
perene e a bno da universal justia...
Ahasverus.  Que importa  espcie que vai morrer comigo toda essa delcia pstuma?
Cr-me, tu que s imortal, para os ossos que apodrecem na terra as prpuras de Sidnia
no valem nada. O que tu me contas  ainda melhor que o sonho de Campanella. Na
cidade deste havia delitos e enfermidades; a tua exclui todas as leses morais e fsicas.
O Senhor te oua! Mas deixa-me ir morrer.
Prometeu.  Vai, vai. Que pressa tens em acabar os teus dias?
Ahasverus.  A pressa de um homem que tem vivido milheiros de anos. Sim, milheiros
de anos. Homens que apenas respiraram por dezenas deles, inventaram um sentimento
de enfado, tedium vitae, que eles nunca puderam conhecer, ao menos em toda a sua
implacvel e vasta realidade, porque  preciso haver calcado, como eu, todas as
geraes e todas as runas, para experimentar esse profundo fastio da existncia.
Prometeu.  Milheiros de anos?
Ahasverus.  Meu nome  Ahasverus: vivia em Jerusalm, ao tempo em que iam
crucificar Jesus Cristo. Quando ele passou pela minha porta, afrouxou ao peso do
madeiro que levava aos ombros, e eu empurrei-o, bradando-lhe que no parasse, que
no descansasse, que fosse andando at  colina, onde tinha de ser crucificado... Ento
uma voz anunciou-me do cu que eu andaria sempre, continuamente, at o fim dos
tempos. Tal  a minha culpa; no tive piedade para com aquele que ia morrer. No sei
mesmo como isto foi. Os fariseus diziam que o filho de Maria vinha destruir a lei, e que
era preciso mat-lo; eu, pobre ignorante, quis realar o meu zelo e da a ao daquele
dia. Que de vezes vi isto mesmo, depois, atravessando os tempos e as cidades! Onde
quer que o zelo penetrou numa alma subalterna, fez-se cruel ou ridculo. Foi a minha
culpa irremissvel.
Prometeu.  Grave culpa, em verdade, mas a pena foi benvola. Os outros homens
leram da vida um captulo, tu leste o livro inteiro. Que sabe um captulo de outro
captulo? Nada; mas o que os leu a todos, liga-os e conclui. H pginas melanclicas?
H outras joviais e felizes.  convulso trgica precede a do riso, a vida brota da morte,
cegonhas e andorinhas trocam de clima, sem jamais abandon-lo inteiramente;  assim
que tudo se concerta e restitui. Tu viste isso, no dez vezes, no mil vezes, mas todas as
vezes; viste a magnificncia da terra curando a aflio da alma, e a alegria da alma
suprindo  desolao das cousas; dana alternada da natureza, que d a mo esquerda a
J e a direita a Sardanapalo.
Ahasverus.  Que sabes tu da minha vida? Nada; ignoras a vida humana.
Prometeu.  Ignoro a vida humana? Deixa-me rir! Eia, homem perptuo, explica-te.
Conta-me tudo; saste de Jerusalm...
Ahasverus.  Sa de Jerusalm. Comecei a peregrinao dos tempos. Ia a toda parte,
qualquer que fosse a raa, o culto ou a lngua; sis e neves, povos brbaros e cultos,
ilhas, continentes, onde quer que respirasse um homem a respirei eu. Nunca mais
trabalhei. Trabalho  refgio, e no tive esse refgio. Cada manh achava comigo a
moeda do dia... Vede; c est a ltima. Ide, que j no sois precisa (atira a moeda ao
longe). No trabalhava, andava apenas, sempre, sempre, sempre, um dia e outro dia, um
ano e outro ano, e todos os anos, e todos os sculos. A eterna justia soube o que fez:
somou a eternidade com a ociosidade. As geraes legavam-me umas s outras. As
lnguas que morriam ficavam com o meu nome embutido na ossada. Com o volver dos
tempos, esquecia-se tudo; os heris dissipavam-se em mitos, na penumbra, ao longe; e a
histria ia caindo
aos pedaos, no lhe ficando mais que duas ou trs feies vagas e remotas. E eu via-as
de um modo e de outro modo. Falaste em captulo? Os que se foram,  nascena dos
imprios, levaram a impresso da perpetuidade deles; os que expiraram quando eles
decaam, enterraram-se com a esperana da recomposio; mas sabes tu o que  ver as
mesmas cousas, sem parar, a mesma alternativa de prosperidade e desolao, desolao
e prosperidade, eternas exquias e eternas aleluias, auroras sobre auroras, ocasos sobre
ocasos?
Prometeu.  Mas no padeceste, creio;  alguma cousa no padecer nada.
Ahasverus.  Sim, mas vi padecer os outros homens, e para o fim o espetculo da
alegria dava-me a mesma sensao que os discursos de um doido. Fatalidades do sangue
e da carne, conflitos sem fim, tudo vi passar a meus olhos, a ponto que a noite me fez
perder o gosto ao dia, e acabo no distinguindo as flores das urzes. Tudo se me
confunde na retina enfarada.
Prometeu.  Pessoalmente no te doeu nada; e eu que padeci por tempos inmeros o
efeito da clera divina?
Ahasverus.  Tu?
Prometeu.  Prometeu  o meu nome.
Ahasverus.  Tu Prometeu?
Prometeu.  E qual foi o meu crime? Fiz de lodo e gua os primeiros homens, e depois,
compadecido, roubei para eles o fogo do cu. Tal foi o meu crime. Jpiter, que ento
regia o Olimpo, condenou-me ao mais cruel suplcio. Anda, sobe comigo a este
rochedo.
Ahasverus.  Contas-me uma fbula. Conheo esse sonho helnico.
Prometeu.  Velho incrdulo! Anda ver as prprias correntes que me agrilhoaram; foi
uma pena excessiva para nenhuma culpa; mas a divindade orgulhosa e terrvel...
Chegamos, olha, aqui esto elas...
Ahasverus.  O tempo que tudo ri no as quis ento?
Prometeu.  Eram de mo divina; fabricou-as Vulcano. Dois emissrios do cu vieram
atar-me ao rochedo, e uma guia, como aquela que l corta o horizonte, comia-me o
fgado, sem consumi-lo nunca. Durou isto tempos que no contei. No, no podes
imaginar este suplcio...
Ahasverus.  No me iludes? Tu Prometeu? No foi ento um sonho da imaginao
antiga?
Prometeu.  Olha bem para mim, palpa estas mos. V se existo.
Ahasverus.  Moiss mentiu-me. Tu Prometeu, criador dos primeiros homens?
Prometeu.  Foi o meu crime.
Ahasverus.  Sim, foi o teu crime, artfice do inferno; foi o teu crime inexpivel. Aqui
devias ter ficado por todos os tempos, agrilhoado e devorado, tu, origem dos males que
me afligiram. Careci de piedade,  certo; mas tu, que me trouxeste  existncia,
divindade perversa, foste a causa original de tudo.
Prometeu.  A morte prxima obscurece-te a razo.
Ahasverus.  Sim, s tu mesmo, tens a fronte olmpica, forte e belo tito: s tu
mesmo... So estas as cadeias? No vejo o sinal das tuas lgrimas.
Prometeu.  Chorei-as pela tua raa.
Ahasverus.  Ela chorou muito mais por tua culpa.
Prometeu.  Ouve, ltimo homem, ltimo ingrato!
Ahasverus.  Para que quero eu palavras tuas? Quero os teus gemidos, divindade
perversa. Aqui esto as cadeias. V como as levanto nas mos; ouve o tinir dos ferros...
Quem te desagrilhoou outrora?
Prometeu.  Hrcules.
Ahasverus.  Hrcules... V se ele te presta igual servio, agora que vais ser
novamente agrilhoado.
Prometeu.  Deliras.
Ahasverus.  O cu deu-te o primeiro castigo; agora a terra vai dar-te o segundo e
derradeiro. Nem Hrcules poder mais romper estes ferros. Olha como os agito no ar, 
maneira de plumas;  que eu represento a fora dos desesperos milenrios. Toda a
humanidade est em mim. Antes de cair no abismo, escreverei nesta pedra o epitfio de
um mundo. Chamarei a guia, e ela vir; dir-lhe-ei que o derradeiro homem, ao partir da
vida, deixa-lhe um regalo de deuses.
Prometeu.  Pobre ignorante, que rejeitas um trono! No, no podes mesmo rejeit-lo.
Ahasverus.  s tu agora que deliras. Eia, prostra-te, deixa-me ligar-te os braos.
Assim, bem, no resistirs mais; arqueja para a. Agora as pernas...
Prometeu.  Acaba, acaba. So as paixes da terra que se voltam contra mim; mas eu,
que no sou homem, no conheo a ingratido. No arrancars uma letra ao teu destino,
ele se cumprir inteiro. Tu mesmo sers o novo Hrcules. Eu, que anunciei a glria do
outro, anuncio a tua; e no sers menos generoso que ele.
Ahasverus.  Deliras tu?
Prometeu.  A verdade ignota aos homens  o delrio de quem a anuncia. Anda, acaba.
Ahasverus.  A glria no paga nada, e extingue-se.
Prometeu.  Esta no se extinguir. Acaba, acaba; ensina ao bico adunco da guia
como me h de devorar a entranha; mas escuta... No, no escutes nada; no podes
entender-me.
Ahasverus.  Fala, fala.
Prometeu.  O mundo passageiro no pode entender o mundo eterno; mas tu sers o
elo entre ambos.
Ahasverus.  Dize tudo.
Prometeu.  No digo nada; anda, aperta bem estes pulsos, para que eu no fuja, para
que me aches aqui  tua volta. Que te diga tudo? J te disse que uma raa nova povoar
a terra, feita dos melhores espritos da raa extinta; a multido dos outros perecer.
Nobre famlia, lcida e poderosa, ser perfeita comunho do divino com o humano.
Outros sero os tempos, mas entre eles e estes um elo  preciso, e esse elo s tu.
Ahasverus.  Eu?
Prometeu.  Tu mesmo, tu eleito, tu, rei. Sim, Ahasverus, tu sers rei. O errante
pousar. O desprezado dos homens governar os homens.
Ahasverus.  Tito artificioso, iludes-me... Rei, eu?
Prometeu.  Tu rei. Que outro seria? O mundo novo precisa de uma tradio do mundo
velho, e ningum pode falar de um a outro como tu. Assim no haver interrupo entre
as duas humanidades. O perfeito proceder do imperfeito, e a tua boca dir-lhe- as suas
origens. Contars aos novos homens todo o bem e todo o mal antigo. Revivers assim
como a rvore a que cortaram as folhas secas, e conserva to-somente as viosas; mas
aqui o vio  eterno.
Ahasverus.  Viso luminosa! Eu mesmo?
Prometeu.  Tu mesmo.
Ahasverus.  Estes olhos... estas mos... vida nova e melhor... Viso excelsa! Tito, 
justo. Justa foi a pena; mas igualmente justa  a remisso gloriosa do meu pecado.
Viverei eu? eu mesmo? Vida nova e melhor? No, tu mofas de mim.
Prometeu.  Bem, deixa-me, voltars um dia, quando este imenso cu for aberto para
que desam os espritos da vida nova. Aqui me achars tranqilo. Vai.
Ahasverus.  Saudarei outra vez o sol?
Prometeu.  Esse mesmo que ora vai a cair. Sol amigo, olho dos tempos, nunca mais se
fechar a tua plpebra. Fita -o, se podes.
Ahasverus.  No posso.
Prometeu.  Pod-lo-s depois quando as condies da vida houverem mudado. Ento
a tua retina fitar o sol sem perigo, porque no homem futuro ficar concentrado tudo o
que h melhor na natureza, enrgico ou sutil, cintilante ou puro.
Ahasverus.  Jura que me no mentes.
Prometeu.  Vers se minto.
Ahasverus.  Fala, fala mais, conta-me tudo.
Prometeu.  A descrio da vida no vale a sensao da vida; t-la-s prodigiosa. O
seio de Abrao das tuas velhas Escrituras no  seno esse mundo ulterior e perfeito. L
vers David e os profetas. L contars  gente estupefata no s as grandes aes do
mundo extinto, como tambm os males que ela no h de conhecer, leso ou velhice,
dolo, egosmo, hipocrisia, a aborrecida vaidade, a inopinvel toleima e o resto. A alma
ter, como a terra, uma tnica incorruptvel.
Ahasverus.  Verei ainda este imenso cu azul!
Prometeu.  Olha como  belo.
Ahasverus.  Belo e sereno como a eterna justia. Cu magnfico, melhor que as
tendas de Cedar, ver-te-ei ainda e sempre; tu recolhers os meus pensamentos, como
outrora; tu me dars os dias claros e as noites amigas...
Prometeu.  Auroras sobre auroras.
Ahasverus.  Eia, fala, fala mais. Conta-me tudo. Deixa-me desatar-te estas cadeias...
Prometeu.  Desata-as, Hrcules novo, homem derradeiro de um mundo, que vs ser o
primeiro de outro.  o teu destino; nem tu nem eu, ningum poder mud-lo. s mais
ainda que o teu Moiss. Do alto do Nebo, viu ele, prestes a morrer, toda a terra de
Jeric, que ia pertencer  sua posteridade; e o Senhor lhe disse: "Tu a viste com teus
olhos, e no passars a ela." Tu passars a ela, Ahasverus; tu habitars Jeric.
Ahasverus.  Pe a mo sobre a minha cabea, olha bem para mim; incute-me a tua
realidade e a tua predio; deixa-me sentir um pouco da vida nova e plena... Rei
disseste?
Prometeu.  Rei eleito de uma raa eleita.
Ahasverus.  No  demais para resgatar o profundo desprezo em que vivi. Onde uma
vida cuspiu lama, outra vida por uma aurola. Anda, fala mais... fala mais... (Continua
sonhando. As duas guias aproximam-se.)
Uma guia.  Ai, ai, ai deste ltimo homem, est morrendo e ainda sonha com a vida.
A outra.  Nem ele a odiou tanto, seno porque a amava muito.
O Cnego ou Metafsica do Estilo
 "VEM DO LBANO, esposa minha, vem do Lbano, vem... As mandrgoras, deram
o seu cheiro. Temos s nossas portas toda casta de pombos..."
 "Eu vos conjuro, filhas de Jerusalm, que se encontrardes o meu amado, lhe faais
saber que estou enferma de amor..."
Era assim, com essa melodia do velho drama de Jud, que procuravam um ao outro na
cabea do Cnego Matias um substantivo e um adjetivo... No me interrompas, leitor
precipitado; sei que no acreditas em nada do que vou dizer. Di-lo-ei, contudo, a
despeito da tua pouca f, porque o dia da converso pblica h de chegar.
Nesse dia,  cuido que por volta de 2222,  o paradoxo despir as asas para vestir a
japona de uma verdade comum. Ento esta pgina merecer, mais que favor, apoteose.
Ho de traduzi-la em todas as lnguas. As academias e institutos faro dela um pequeno
livro, para uso dos sculos, papel de bronze, corte-dourado, letras de opala embutidas, e
capa de prata fosca. Os governos decretaro que ela seja ensinada nos ginsios e liceus.
As filosofias queimaro todas as doutrinas anteriores, ainda as mais definitivas, e
abraaro esta psicologia nova, nica verdadeira, e tudo estar acabado. At l passarei
por tonto, como se vai ver.
Matias, cnego honorrio e pregador efetivo, estava compondo um sermo quando
comeou o idlio psquico. Tem quarenta anos de idade, e vive entre livros e livros para
os lados da Gamboa. Vieram encomendar-lhe o sermo para certa festa prxima; ele que
se regalava ento com uma grande obra espiritual, chegada no ltimo paquete, recusou o
encargo; mas instaram tanto, que aceitou.
 Vossa Reverendssima faz isto brincando, disse o principal dos festeiros.
Matias sorriu manso e discreto, como devem sorrir os eclesisticos e os diplomatas. Os
festeiros despediram-se com grandes gestos de venerao, e foram anunciar a festa nos
jornais, com a declarao de que pregava ao Evangelho o Cnego Matias, "um dos
ornamentos do clero brasileiro". Este "ornamento do clero" tirou ao cnego a vontade de
almoar, quando ele o leu agora de manh; e s por estar ajustado,  que se meteu a
escrever o sermo.
Comeou de m vontade, mas no fim de alguns minutos j trabalhava com amor. A
inspirao, com os olhos no cu, e a meditao, com os olhos no cho, ficam a um e
outro lado do espaldar da cadeira, dizendo ao ouvido do cnego mil cousas msticas e
graves. Matias vai escrevendo, ora devagar, ora depressa. As tiras saem-lhe das mos,
animadas e polidas. Algumas trazem poucas emendas ou nenhumas. De repente, indo
escrever um adjetivo, suspende-se; escreve outro e risca-o;
mais outro, que no tem melhor fortuna. Aqui  o centro do idlio. Subamos  cabea do
cnego.
Upa! C estamos. Custou-te, no, leitor amigo?  para que no acredites nas pessoas
que vo ao Corcovado, e dizem que ali a impresso da altura  tal, que o homem fica
sendo cousa nenhuma. Opinio pnica e falsa, falsa como Judas e outros diamantes. No
creias tu nisso, leitor amado. Nem Corcovados, nem Himalaias valem muita cousa ao p
da tua cabea, que os mede. C estamos. Olha bem que  a cabea do cnego. Temos 
escolha um ou outro dos hemisfrios cerebrais; mas vamos por este, que  onde nascem
os substantivos. Os adjetivos nascem no da esquerda. Descoberta minha, que ainda
assim no  a principal, mas a base dela, como se vai ver. Sim, meu senhor, os adjetivos
nascem de um lado, e os substantivos de outro, e toda a sorte de vocbulos est assim
dividida por motivo da diferena sexual...
 Sexual?
Sim, minha senhora, sexual. As palavras tm sexo. Estou acabando a minha grande
memria psico-lxico-lgica, em que exponho e demonstro esta descoberta. Palavra tem
sexo.
 Mas, ento, amam-se umas s outras?
Amam-se umas s outras. E casam-se. O casamento delas  o que chamamos estilo.
Senhora minha, confesse que no entendeu nada.
 Confesso que no.
Pois entre aqui tambm na cabea do cnego. Esto justamente a suspirar deste lado.
Sabe quem  que suspira?  o substantivo de h pouco, o tal que o cnego escreveu no
papel, quando suspendeu a pena. Chama por certo adjetivo, que lhe no aparece: "Vem
do Lbano, vem..." E fala assim, pois est em cabea de padre; se fosse de qualquer
pessoa do sculo, a linguagem seria a de Romeu: "Julieta  o sol... ergue-te, lindo sol."
Mas em crebro eclesistico, a linguagem  a das Escrituras. Ao cabo, que importam
frmulas? Namorados de Verona ou de Jud falam todos o mesmo idioma, como
acontece com o thaler ou o dlar, o florim ou a libra que  tudo o mesmo dinheiro.
Portanto, vamos l por essas circunvolues do crebro eclesistico, atrs do
substantivo que procura o adjetivo. Slvio chama por Slvia. Escutai; ao longe parece
que suspira tambm alguma pessoa;  Slvia que chama por Slvio.
Ouvem-se agora e procuram-se. Caminho difcil e intrincado que  este de um crebro
to cheio de cousas velhas e novas! H aqui um burburinho de idias, que mal deixa
ouvir os chamados de ambos; no percamos de vista o ardente Slvio, que l vai, que
desce e sobe, escorrega e salta; aqui, para no cair, agarra-se a umas razes latinas, ali
abordoa-se a um salmo, acol monta num pentmetro, e vai sempre andando, levado de
uma fora ntima, a que no pode resistir.
De quando em quando, aparece-lhe alguma dama  adjetivo tambm  e oferece-lhe
as suas graas antigas ou novas; mas, por Deus, no  a mesma, no  a nica, a
destinada ao eterno para este consrcio. E Slvio vai andando,  procura da nica.
Passai, olhos de toda cor, forma de toda casta, cabelos cortados  cabea do Sol ou da
Noite; morrei sem eco, meigas cantilenas suspiradas no eterno violino; Slvio no pede
um amor qualquer, adventcio ou annimo; pede um certo amor
nomeado e predestinado.
Agora no te assustes, leitor, no  nada;  o cnego que se levanta, vai  janela, e
encosta-se a espairecer do esforo. L olha, l esquece o sermo e o resto. O papagaio
em cima do poleiro, ao p da janela, repete-lhe as palavras do costume e, no terreiro, o
pavo enfuna-se todo ao sol da manh; o prprio sol, reconhecendo o cnego, mandalhe
um dos seus fiis raios, a cumpriment-lo. E o raio vem, e pra diante da janela:
"Cnego ilustre, aqui venho trazer os recados do sol, meu senhor e pai." Toda a natureza
parece assim bater palmas ao regresso daquele gal do esprito. Ele prprio alegra-se,
entorna os olhos por esse ar puro, deixa-os ir fartarem-se de verdura e fresquido, ao
som de um passarinho e de um piano; depois fala ao papagaio, chama o jardineiro,
assoa-se, esfrega as mos, encosta-se. No lhe lembra mais nem Slvio nem Slvia.
Mas Slvio e Slvia  que se lembram de si. Enquanto o cnego cuida em cousas
estranhas, eles prosseguem em busca um do outro, sem que ele saiba nem suspeite nada.
Agora, porm, o caminho  escuro. Passamos da conscincia para a inconscincia onde
se faz a elaborao confusa das idias, onde as reminiscncias dormem ou cochilam.
Aqui pulula a vida sem formas, os germens e os detritos, os rudimentos e os sedimentos;
 o desvo imenso do esprito. Aqui caram eles,  procura um do outro, chamando e
suspirando. D-me a leitora a mo, agarre-se o leitor a mim, e escorreguemos tambm.
Vasto mundo incgnito. Slvio e Slvia rompem por entre embries e runas. Grupos de
idias, deduzindo-se  maneira de silogismos, perdem-se no tumulto de reminiscncias
da infncia e do seminrio. Outras idias, grvidas de idias, arrastam-se pesadamente,
amparadas por outras idias virgens. Cousas e homens amalgamam-se; Plato traz os
culos de um escrivo da cmara eclesistica; mandarins de todas as classes distribuem
moedas etruscas e chilenas, livros ingleses e rosas plidas; to plidas, que no parecem
as mesmas que a me do cnego plantou quando ele era criana. Memrias pias e
familiares cruzam-se e confundem-se. C esto as vozes remotas da primeira missa; c
esto as cantigas da roa que ele ouvia cantar s pretas, em casa; farrapos de sensaes
esvadas, aqui um medo, ali um gosto, acol um fastio de cousas que vieram cada uma
por sua vez, e que ora jazem na grande unidade impalpvel e obscura.
 Vem do Lbano, esposa minha...
 Eu vos conjuro, filhas de Jerusalm...
Ouvem-se cada vez mais perto. Eis a chegam eles s profundas camadas de teologia, de
filosofia, de liturgia, de geografia e de histria, lies antigas, noes modernas, tudo 
mistura, dogma e sintaxe. Aqui passou a mo pantesta de Spinoza, s escondidas; ali
ficou a unhada do Doutor Anglico; mas nada disso  Slvio nem Slvia. E eles vo
rasgando, levados de uma fora ntima, afinidade secreta, atravs de todos os obstculos
e por cima de todos os abismos. Tambm os desgostos ho de vir. Pesares sombrios,
que no ficaram no corao do cnego, c esto,  laia de manchas morais, e ao p deles
o reflexo amarelo ou roxo, ou o que quer que seja da dor alheia e universal. Tudo isso
vo eles cortando, com a rapidez do amor e do desejo.
Cambaleias, leitor? No  o mundo que desaba;  o cnego que se sentou agora mesmo.
Espaireceu  vontade, tornou  mesa do trabalho, e rel o que escreveu, para continuar;
pega da pena, molha-a, desce-a ao papel, a ver que adjetivo h de anexar ao substantivo.
Justamente agora  que os dous cobiosos esto mais perto um do outro. As vozes
crescem, o entusiasmo cresce, todo o Cntico passa pelos lbios deles, tocados de febre.
Frases alegres, anedotas de sacristia, caricaturas, faccias, disparates, aspectos estrdios,
nada os retm, menos ainda os faz sorrir. Vo, vo, o espao estreita-se. Ficai a, perfis
meio apagados de paspalhes que fizeram rir ao cnego, e que ele inteiramente
esqueceu; ficai, rugas extintas, velhas charadas, regras de voltarete, e vs tambm,
clulas de idias novas, debuxos de concepes, p que tens de ser pirmide, ficai,
abalroai, esperai, desesperai, que eles no tm nada convosco. Amam-se e procuram-se.
Procuram-se e acham-se. Enfim, Slvio achou Slvia. Viram-se, caram nos braos um
do outro, ofegantes de canseira, mas remidos com a paga. Unem-se, entrelaam os
braos, e regressam palpitando da inconscincia para a conscincia. "Quem  esta que
sobe do deserto, firmada sobre o seu amado?", pergunta Slvio, como no Cntico; e ela,
com a mesma lbia erudita, responde-lhe que " o selo do seu corao", e que "o amor 
to valente como a prpria morte".
Nisto, o cnego estremece. O rosto ilumina-se-lhe. A pena cheia de comoo e respeito
completa o substantivo com o adjetivo. Slvia caminhar agora ao p de Slvio, no
sermo que o cnego vai pregar um dia destes, e iro juntinhos ao prelo, se ele coligir os
seus escritos, o que no se sabe.

